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A Vida Mentirosa dos Adultos, de Elena Ferrante | Resenha

22 dezembro, 2020 por

Começo esse texto deixando claro que: Elena Ferrante é 8 ou 80. Em toda resenha que eu fizer dessa mulher (porque na minha cabeça não tem como ela não ser uma mulher – deixa eu), preciso deixar isso claro. Isso porque é realmente uma relação de amor e ódio e acaba afastando ou agarrando as pessoas. Elena Ferrante traz uma escrita ultra realista em seus livros e explora o lado feio do ser humano sem medo de chocar. Em A Vida Mentirosa dos Adultos, publicado recentemente pela Intrínseca, não foi diferente.

A Vida Mentirosa dos Adultos: a história

Giovanna tinha uma infância perfeita. Era muito feliz com seus pais estudiosos. O pai professor a tratava como uma princesa e a mãe faria tudo por ela. Até o dia que, no auge dos seus catorze anos, ouve seu pai comentando, após ela ir um pouco mal na escola, que ela estava ficando feia como sua tia Vittoria. Essa frase penetrou na alma dela porque, além de ser dita pelo seu herói, foi relacionada a uma figura misteriosa da família.

Vittoria, irmã de seu pai, era um nome sussurrado e sempre colocado à esquerda. Os dois tiveram um desentendimento anos atrás que acabou distanciando o pai de Giovanna do resto da família. Quando Giovanna, entretanto, ouve a fatídica frase, não consegue resistir e precisa conhecer Vittoria. E é aí que tudo muda.

Viver não é preciso, crescer é

Após conhecer Vittoria, Giovanna começa a enxergar a vida sem todo aquele brilho da infância. A máscara do mundo encantado começa a cair e a vida adulta a invadir lentamente como lava saindo de um vulcão. Vittoria é uma mulher direta, grosseira e forte, com veneno escorrendo pelos lábios, assim como pronta para dar o bote naqueles que a fazem mal ou à sua família emprestada – que, agora, inclui Giovanna. 

A relação das duas é cheia de desavenças que trazem muita reflexão para nós leitores. Quando as verdades ocultas do passado da família de Giovanna vêm à tona, a garota se vê presa numa avalanche de situações que mostram o quanto a vida adulta pode ser complexa e difícil. Sua reação para elas, contudo, é bastante comum na adolescência: revolta, apatia, raiva, tristeza, angústia. E, após certos acontecimentos (os quais geram esses sentimentos, mas não vou falar quais são pelo bem do spoiler), Giovanna se vê sozinha para lidar com esse turbilhão de emoções. Não fica difícil de entender que muita coisa errada irá acontecer, não é?

A opacidade da maturidade

Normalmente, os livros que eu li de Ferrante seguem uma correnteza. Eles vão com a vida, bem no esquema Zeca Pagodinho de “deixa a vida me levar, vida leva eu”, e os acontecimentos não são tão sentidos como um clímax. A Vida Mentirosa dos Adultos, no entanto, quebra esse padrão e traz um ápice da história que gera uma reviravolta. Mas, calma, também não vira um super thriller, cheio de ação.

A Vida Mentirosa dos Adultos conversa com o nosso lado adolescente, com todas aquelas dúvidas, inconstâncias e revoltas. Giovanna é uma personagem cheia de explosões sentimentais e reviravoltas emocionais, perfeitas para uma adolescente vivendo crises adultas – e lidando muito mal com elas. E essas explosões e reviravoltas, quando mal cuidadas, podem levar a caminhos psicológicos perigosos.

A Ju, aqui do Vai Lendo, costuma dizer que Elena Ferrante não paga um psicólogo, pois ela resolve suas questões escrevendo livros. Olha, não duvido que ela tenha razão, viu? A Vida Mentirosa dos Adultos é mais uma obra em que a visceral Ferrante explora a psiqué da mulher de forma impactante e realista. É uma leitura difícil, mas incrível. No entanto, deixo um aviso: não é para qualquer um (8 ou 80, lembra?) nem para menores.

Título: A Vida Mentirosa dos Adultos | Autora: Elena Ferrante | Tradutor: Marcello Lino  | Editora: Intrínseca | Páginas: 432

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