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Nunca Saia Sozinho, de Charlie Donlea | Resenha

05 outubro, 2020 por

prova antecipada Nunca Saia Sozinho de Charlie Donlea

‘Nunca Saia Sozinho’: Charlie na sua versão mais sombria

Finalmente, a espera acabou. Nunca Saia Sozinho, o novo livro de Charlie Donlea, chega às livrarias brasileiras nesta segunda-feira (5/10). E o Vai Lendo foi um dos parceiros escolhidos pela Faro editorial para receber a prova antecipada da publicação. Claro que não poderíamos ter ficado mais contentes, afinal, nós adoramos o autor, em especial este resenhista que vos fala.

Foi um prazer imenso ler, em primeira mão, Nunca Saia Sozinho. A obra tem tudo aquilo que esperamos do Charlie: Suspense. Reviravoltas. Ritmo eletrizante. Final surpreendente. E ainda com um número maior de tramas e uma pegada mais sombria. Nem preciso dizer que adorei a novidade!

“Se aceitar o convite, não ignore o aviso”

Há um ano, dois estudantes foram mortos em um massacre terrível dentro dos muros de uma escola de elite em Westmont. O local, uma antiga casa de hóspedes que abrigava professores, era utilizado pelos jovens em uma série de desafios sinistros – que inclui a lenda do Homem do Espelho – para iniciar novatos em um distinto grupo secreto. Embora um professor tenha sido condenado pelos assassinatos, muitos mistérios e perguntas permaneceram. Como o fato de alguns sobreviventes terem voltado ao lugar para tirar suas próprias vidas.

O caso ganha ainda mais notoriedade quando o podcast “A casa dos suicídios” começa a averiguar o ocorrido na Escola Preparatória de Westmont, no ano anterior, e fazer um grande sucesso. Rory Moore, especialista em casos arquivados, e seu parceiro, Lane Philips, começam a investigar a noite dos assassinatos em busca de pistas que possam ter escapado da escola e da polícia. Porém, quanto mais descobrem sobre os alunos e aquele jogo perigoso que deu errado, mais eles se convencem de que algo fora do normal ainda está acontecendo.

Charlie na sua versão mais sombria

Nunca Saia Sozinho é, sem dúvidas, o livro mais sombrio de Charlie  Donlea. Já nas primeiras páginas, provocado pelo jogo envolvendo o Homem do Espelho, o clima sinistro invade a narrativa. Um início aterrorizante e arrebatador. Uma combinação excelente.

O livro também traz um número maior de narrativas e mistérios, o que contribuiu para uma história mais complexa e interessante. Uma das melhores tramas já criadas pelo autor. Entretanto, faltou uma maior lapidação, principalmente nos detalhes e no acabamento do texto.

Apesar disso, a história em si é muito boa e a capacidade de Charlie de incluir diversos mistérios e reviravoltas é impressionante. Nunca Saia Sozinho é o tipo de livro que não esfria e envolve o público o tempo todo. Instiga o lado detetive que há em cada um de nós.

Personagens Misteriosos

Uma característica do trabalho de Charlie Donlea é trazer no texto a visão de alguns personagens sem revelar a sua identidade. Geralmente, esses personagens são a chave para o mistério central do livro. Em Nunca Saia Sozinho, acompanhamos as sessões de terapia e a leitura do diário de um assassino, que possivelmente está associado ao massacre na casa de hóspedes.

Através dos seus relatos, o leitor mergulha na transformação de um menino em monstro. As sessões de terapia foram uma das narrativas pelas quais eu mais ansiava durante a leitura. Ficava em êxtase nestes trechos. E o melhor era a relação dele com a terapeuta.

Logo no começo da narrativa, o personagem solta a seguinte frase: “Venho aqui para fazer terapia, e não para ser julgado.”. Arrepiei!

Outro fato omitido pelo autor é que não sabemos, até determinado momento da obra, quem são as duas vítimas. Confesso que adoro esse recurso, algo que provoca um engajamento imediato e aumenta a voracidade pela leitura.

Velhos Conhecidos

Quem acompanha o trabalho de Charlie Donlea irá se deparar com velhos conhecidos em Nunca Saia Sozinho. Na trama, o autor resgata alguns personagens dos seus outros livros. Para os fãs, o momento é de euforia aliada a certa nostalgia pelos reencontros. Afinal, é sempre bom conhecer os rumos e histórias que eles carregam após os desfechos de suas narrativas. Mas e se você não leu nenhuma obra do escritor?

Calma. Não precisa se preocupar. Charlie contextualiza tudo. Acredito que, provavelmente, um leitor estreante não vá ficar perdido. Inclusive, ele aborda os outros livros de uma forma que não estraga as conclusões inesperadas, marca do seu trabalho. Assim, dá para ler as obras fora de ordem sem problema. Entretanto, não vai ter aquela sensação boa do reencontro.

Talvez, a perda mais significativa seja não ler Uma Mulher na Escuridão antes, afinal, Rory, a especialista em casos arquivados, é protagonista das duas obras. Lembro, inclusive, que na minha resenha de Uma Mulher na Escuridão, senti falta de um maior desenvolvimento da personagem, o que é compensado, de certa forma, em Nunca Saia Sozinho. Mesmo assim, não vejo como um grande obstáculo.

Livros Charlie Donlea

Presente e passado

Nunca Saia Sozinho mescla três linhas temporais (verão de 2019, agosto de 2020 e as sessões de terapia de um assassino). Apesar de ser majoritariamente narrado em terceira pessoa, o autor consegue trabalhar a história na perspectiva de diferentes personagens. Outra característica do trabalho de Charlie.

Em alguns pontos, achei que a terceira pessoa atrapalhou a fluidez do texto. O autor precisou  explicar alguns detalhes desnecessários, apenas para facilitar o entendimento do público. Por exemplo, às vezes, o personagem não tinha alguma informação que o leitor já possuía,  por acompanhar a trama de um outro personagem, e ele frisava essa falta de conhecimento. Ficou muito explicado.

Já em outros trechos, explicou excessivamente as reações de Rory. Como já havia lido Uma Mulher na Escuridão, ficou repetitivo.  Apesar de entender, neste caso, que alguns leitores podem não ter lido a obra anterior e ficar intrigados com as reações da especialista em casos arquivados.

Autor conectado

Charlie é muito ligado a novas tecnologias de investigação e o modo como as pessoas consomem notícias e entretenimento. É interessante observar como o autor, em Nunca Saia Sozinho, se utiliza das redes sociais, diversas ferramentas de investigação policial e podcasts para contar a sua história. Ele consegue aproveitar algo que atrapalha muitos autores de suspense a seu favor. No fim, o resultado é muito bom.

Particularmente, gosto muito quando ele utiliza a linguagem de meios de comunicação na narrativa. Em Não Confie em Ninguém, o autor optou pela linguagem de documentário televisiva; já em Nunca Saia Sozinho, o podcast. Um atrativo a mais que favorece a leitura e o envolvimento na trama.

Tentando desvendar o mistério

Uma das minhas maiores diversões ao ler um suspense é bancar o detetive. Conhecendo o estilo do autor, eu tento resolver o mistério. Com o Charlie, fico atento aos detalhes. A trama inteira está diante dos olhos do leitor. É preciso organizar os fatos e tentar encaixar os personagens (que o autor não identifica) para construir uma teoria.

Em Nunca Saia Sozinho, como mencionei, o número de tramas paralelas é superior aos outros livros. Dificultando ainda mais o nosso trabalho investigativo. Confesso que, baseado em um outro livro do autor, mantive, com muita convicção, minha teoria. Estava tão convencido por causa de algumas referências que fechei os olhos para outros detalhes e, no fim, errei o meu palpite.

Mais um ponto para Charlie.

O jogo do Charlie

A sensação que eu tenho ao ler as obras de Charlie é que o autor joga todas as cartas na mesa. Só que as embaralha muito bem, de modo que, logo de início, você não consegue ligar certos pontos. No decorrer da leitura, esses pontos são conectados, mas aí ele vem com blefes e umas cartas na manga.

Acho incrível o modo como Charlie consegue sempre fazer esse esquema narrativo e surpreender. É o que mais me fascina e me instiga ao ler os seus livros.

Nunca Saia Sozinho não foge a esta regra. Com uma pegada mais sombria, o autor nos presenteia com uma de suas melhores histórias.

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Título: Nunca Saia Sozinho | Autor: Charlie Donlea | Tradutor:  Carlos Szlak | Editora: Faro Editorial | Páginas: 352

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