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A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath | Resenha

02 junho, 2020 por

Escrever liberta. Através da escrita, colocamos para fora todas aquelas angústias que tanto nos atormentam. Essa sensação libertadora é que me chama a atenção no trabalho de Sylvia Plath, mesmo sem profundo conhecimento. Consagrada no universo da poesia, tive no seu único romance, A Redoma de Vidro, publicado pela Biblioteca Azul, a minha porta de entrada para a sua obra. Um experiência arrebatadora, porém intensa.

Em A Redoma de Vidro, conhecemos Esther Greenwood, uma mulher de futuro promissor. Cursando um estágio de verão em uma renomada revista feminina em Nova York, sua vida parecia deslanchar. No entanto, por trás das aparências, a jovem era atormentada por uma série de incertezas. Do estágio cobiçado até uma clínica psiquiátrica, acompanhamos a trajetória de Esther e como ela lidava com os seus traumas, decepções, angústias, medos e dúvidas. A obra é repleta de experiências autobiográficas, inspirada nos acontecimentos do verão de 1952, quando Sylvia Plath tentou o suicídio e, logo depois, foi internada para tratamentos mentais.

A Redoma de Vidro me marcou muito, pois, pela primeira vez, consegui ter a experiência de entrar de modo efetivo na mente de alguém com depressão. O texto de Plath é de uma profundidade e sensibilidade únicas. É incrível como a autora consegue transmitir as emoções para o público. Por mais que ela tenha se baseado em experiências pessoais para construir Esther, nem sempre é fácil se expressar no papel. Um talento que faz jus à importância do trabalho de Plath.

Mergulhar na mente de Esther foi uma viagem árdua. Por alguns momentos, precisei fechar o livro e respirar. É difícil não se afeiçoar pela personagem/autora. Querer ajudar de alguma forma, por mais que seja impossível. No entanto, a leitura de A Redoma de Vidro mudou a minha perspectiva sobre a temática. Talvez, a autora só precisasse colocar para fora, através da escrita, toda a sua angústia. No fim, ela fez com que a sua voz, e a de milhares de pessoas que sofrem com essa doença, fossem ouvidas, nos permitindo, agora, falar abertamente sobre este assunto.

Um fato que me chocou muito foi a idade da personagem Esther, bem como, em paralelo, a da própria Plath. Não sei vocês, mas tenho a sensação de que, quando olho para as pessoas do passado, as acho mais velhas do que realmente são. Muito provavelmente porque a vida profissional e a formação da família começavam mais cedo. Esther era apenas uma jovem universitária quando foi parar numa clínica e fez tratamento de choque; já Plath tirou a própria vida aos 30 anos. Eu tenho 33 anos. Elas eram mais jovens do que eu. Não deixa de ser assustador e muito triste.

A narrativa de A Redoma de Vidro é magnífica como um todo. Apesar da melancolia, toda a trajetória de Esther é instigante. Acompanhar o definhamento da jovem, a tentativa de suicídio, a internação na clínica psiquiátrica, é algo, por si só, de extrema relevância. A obra já seria excelente só por este relato. Entretanto, existem três pontos específicos no livro que me marcaram, emocionaram e fizeram com que a experiência fosse ainda mais gratificante, ainda que bastante dolorosa.

Fiquei assustado e comovido com os relatos das sessões de tratamento de choque. Os detalhes da angústia antes, as sensações do processo durante e o estado de transe, depois. A relação de Esther com as outras internas foi outro ponto marcante, que me fez refletir o quão complexo deve ser para o paciente interno lidar com outras pessoas em igual ou pior situação e, por último, a liberdade que Esther conquistou quando passou a usar anticoncepcional. Se, hoje, ainda não é tão natural falar sobre a  independência sexual da mulher, imagina há mais de sessenta anos.

Ler A Redoma de Vidro, apesar da densidade, foi uma experiência incrível. Não consigo imaginar todo o sofrimento com o qual Plath precisou conviver e lutar ao longo de sua curta jornada. Sou muito grato à autora por compartilhar os seus sentimentos e angústias, de modo que possamos entender melhor, e respeitar, as pessoas que sofrem de depressão.  E também por abrir o diálogo sobre a doença para que possamos enfrentar e lidar melhor com tudo isso.

Título: A Redoma de Vidro | Autor: Sylvia Plath | Tradutor: Chico Mattoso |Editora: Biblioteca Azul | Páginas: 228

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