Leah Fora de Sintonia, de Becky Albertalli | Resenha

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4
On 16/11/2018
Last modified:30/11/2018

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Um livro para a gente refletir e trabalhar a empatia

Algumas das maiores dificuldades do ser humano dizem respeito a ele mesmo. Que atire a primeira pedra quem nunca se questionou, quem nunca não se entendeu, quem nunca não se aceitou. Ao longo da vida, almejamos, desejamos, buscamos algo que possa nos realizar plenamente, mas nem sempre (aliás, geralmente) essa jornada é fácil. Pelo contrário. A aceitação é um processo lento e, para muitos, bastante doloroso. Na adolescência, então, quase insuportável. Felizmente, temos alguém como Becky Albertalli para, mais uma vez, nos presentear com uma viagem nostálgica (para quem já atingiu a maioridade) à época em que todos os nossos medos, anseios e inseguranças afloram em Leah Fora de Sintonia, continuação do incrível Simon Vs. a Agenda Homo Sapiens (que virou Com Amor, Simon), ambos publicados pela editora Intrínseca.

Na história nos aprofundamos na vida de Leah, a melhor amiga de Simon, que odeia demonstrações públicas de afeto, clichês, é viciada em Harry Potter e tem sempre uma opinião sobre as coisas. O problema é que, agora, ela não está conseguindo entender o que se passa com ela mesma. Em seu último ano de escola, Leah não quer lidar com a despedida dos seus amigos, da banda e da rotina com a qual está acostumada. E ainda precisa conviver com o novo namorado da mãe e entender o porquê de uma menina que, até então, ela não suportava não sair da sua cabeça.

Leah Fora de Sintonia é um relato extremamente verdadeiro e sensível da adolescência. Com a mesma pegada utilizada no livro de Simon, Becky dialoga lindamente com este público e também com leitores de outras gerações. Sua linguagem é leve e fluida, porém nada omissa. Aliás, é tão natural que, por diversas vezes, eu tive dificuldade de me solidarizar com Leah. Porque Leah é uma adolescente. E, mesmo com todos os seus problemas, ela também somatiza tantos outros e aumenta algumas coisas. Percebem como eu falo de Leah como se ela realmente existisse? Porque foi isso que eu senti ao ler o livro. Leah pode ser qualquer um de nós. Inclusive, ouso dizer que todos nós já fomos Leah, em algum momento.

Este é um livro também para trabalharmos a empatia. De se colocar no lugar do outro e tentar entender os seus problemas, suas necessidades e atitudes. Porque, olha, nem sempre é fácil. Em alguns momentos, achei que ficou muito cômodo para Leah colocar a culpa de tudo de ruim que acontecia em sua vida nos outros, sem fazer qualquer autocrítica. Por vezes, ela foi injusta com a mãe e com os amigos. E me incomodava demais quando ela se limitava à autopiedade. Mas, ao mesmo tempo, é importante pensar que, para ela, tudo aquilo também não era fácil e que essa atitude também poderia ser um pedido de ajuda ou uma tentativa de afirmar a sua própria identidade. Como qualquer adolescente. Difícil, bem difícil. Confesso que ela me irritou um pouco, até o momento em que eu só queria abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem.

E como foi gostoso reencontrar tantos outros personagens queridos (SIMON, SEU MARAVILHOSO!). Eu sou muito suspeita para falar de Simon, como vocês já devem ter percebido, mas ele é simplesmente um dos melhores personagens já criados há muito tempo. E foi lindo vê-lo amadurecendo junto com Bram (OUTRO FOFO!), mas mantendo a sua essência. Quanto a Nick e Abby, bem, é tudo muito complicado. Não quero dar maiores spoilers, mas achei interessante a maneira como as coisas se desenrolaram. E ainda fui surpreendida!

Assim como com Simon e Molly (outra leitura extremamente necessária), Leah Fora de Sintonia mexe demais com as nossas emoções. Becky consegue me fazer rir e chorar. É impossível não se apaixonar e se deixar levar pelos seus personagens. Fico muito feliz de os adolescentes de hoje terem a oportunidade de compartilhar seus dilemas e alegrias com todos eles.

 

 

Um livro para a gente refletir e trabalhar a empatia

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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