Coleção Ruído: a liberdade surrealista de Nanda Silveira

Com uma escrita non-sense, Nanda Silveira, autora de ‘Chá com Mariposas’, que integra a Coleção Ruído, da editora Raiz, traz contos expondo uma realidade que pode não ser tão absurda

Às vezes, a realidade é tão estranha e desconcertante quanto o mais incoerente e criativo inconsciente. Nossas avassaladoras e sórdidas fantasias, muitas vezes, rompem a barreira do absurdo para se materializarem à nossa frente, implacáveis, surreais. Porém, delirantemente verdadeiras. Assim como a obra de Nanda Silveira. Em Chá com Mariposas, seu livro de contos que integra a Coleção Ruído, da editora Raiz, com lançamento marcado para o dia 8 de novembro, na Livraria da Travessa, Zona Sul do Rio, ela expõe os anseios mais delirantes e obtusos, de maneira certeira, nua e crua.

“A realidade é aquilo que cada um cria”, explicou Nanda em entrevista ao Vai Lendo. “Eu vejo um objeto, uma situação de um jeito, você vê a mesma coisa de outro. O interessante ao escrever mistério e fantasia é andar por entre essas realidades e misturá-las, criar o caos. Gosto de criar situações estranhas em meio ao dia a dia das pessoas porque isso estimula soluções criativas para problemas reais, humaniza o caos. Você está em sua casa e, de repente, se vê expulsa por mariposas ou você já imaginou conhecer irmãos siameses e até se apaixonar por um deles? Já pensou em presenciar a morte de uma pessoa de que não gosta, enquanto você está simplesmente dentro de um elevador com ela? Pequenas vinganças, prazeres mórbidos que não podem ser concretizados em meio a nossa vida social, mas que podem muito bem acontecer na nossa realidade inventada”.

Nessa dicotomia entre realidade e ficção, Nanda se aproveita da liberdade criativa para causar uma imersão arrebatadora. A escritora leva os leitores a uma profunda jornada, através do surrealismo e da ilusão psicológica, sem medo, sem freio, sem arestas soltas. Pelo contrário. Utiliza-se dos contos para se soltar. Se livrar. Não há rótulos em sua literatura. Apenas os textos, as palavras. Foi nos contos que Nanda se viu livre das amarras literárias e deixou-se levar para objetividade e flexibilidade da sua própria narrativa.

“Particularmente, gosto dos contos porque permitem imaginar continuações”, declarou. “A gente pensa nos contos como uma história pequena, com começo, meio e fim. Para mim, os contos não têm fim, são como um momento em nossa vida. Então, você filma uns dois minutos da sua vida, isso é um conto. Daí, você sabe que seu dia continua, que ainda vai acontecer muita coisa. O mundo está repleto de histórias inusitadas ou mesmo rotineiras, mas que impactam nossa vida de alguma forma. Não me prendo em uma apenas; muitas vezes, misturo todas em um conto só, quebro o conto em vários pedaços e deles escrevo outros, minicontos ou contos maiores. Os contos são flexíveis e democráticos.  Gosto de pequenas histórias; escrevo minicontos que são apenas uma ou duas frases. O romance é algo que ainda está em processo para mim, mas não descarto. O conto é um gênero meio assim no submundo, considerado até inferior ao romance ou à complexidade poética, mesmo curta. Então, o conto tem muito a ver comigo, com essa ‘aparência’ obscura. Eu me sinto livre escrevendo contos, passo de uma história para outra com facilidade porque não me apego a elas. Escrevo a história e solto, deixo-a ir embora para outra chegar. Tenho vontade de dar continuidade a algumas delas, mas o desapego é mais forte. Eu deixo os personagens, os cenários, ganharem rumo sozinhos e passo para o próximo. Isso diz muito sobre a minha essência porque eu realmente sou desapegada. Eu tenho uma história na mão e retiro dela tudo de que preciso para depois soltá-la; e assim é na minha vida, não tenho apego a objetos, sentimentos ou pessoas; o apego a coisas efêmeras é uma grande prisão, um sofrimento”.

A obra de Nanda é tão intrínseca à sua essência que a autora se incorpora em sua própria criação. Nas seis protagonistas dos contos em Chá com Mariposas, ela oferece um vislumbre da sua alma, revelando não apenas a sua identidade, mas a beleza da complexidade feminina.

“Todas elas são uma faceta minha ou um pouco das mulheres que estão próximas de mim em momentos variados”, afirmou. “Eu ouço muitas histórias e interpreto à minha maneira, mas as minhas emoções estão muito nessas histórias. Algumas vezes, eu me coloco com firmeza, outras com fragilidade. E assim não são as mulheres? Somos complexas, reflexivas, determinadas. Essa é a nossa beleza”.

Ainda no início dessa árdua caminhada rumo à realização do sonho independente, Nanda, por mais que se aventure na fantasia, consegue enxergar a verdade dura da realidade na qual está inserida, entende e aceita as mudanças que estão surgindo e sabe exatamente aonde quer chegar.

“Eu trabalhava em uma editora como coordenadora editorial”, contou. “Fazia mil coisas, era uma editora de tamanho pequeno para médio. Tínhamos um lançamento importante que foi feito naquele corre-corre. Quando o livro chegou, todo lindo, na capa e na lombada o título, enorme, tinha um erro de ortografia horrível! E olha que eu tinha lido e relido capa e contracapa. Claro que fui advertida, mas, por fim, mantive meu emprego com a promessa de sempre pedir para outro colega ler a capa. Temos que ter a humildade de encarar nossos erros e mesmo de cometê-los; eles são essenciais para a nossa caminhada. Estamos vivendo um momento crítico, a meu ver muito mais dentro do modelo de negócios e gestão das livrarias e das grandes editoras do que entre os leitores propriamente. Os leitores querem outros canais, canais mais livres de amarras e democráticos para descobrirem novos autores e histórias diferentes do que o mercado apresenta. Eu comecei nesse movimento há pouco tempo. Em 2015, minha amiga Mic Paiva começou um coletivo de escritores amadores chamado ‘Tem Gente Escrevendo’ e me convidou para fazer parte. Escrevíamos toda semana sobre temas variados no blog do grupo. Depois, eu fui para o Wattpad, comecei a participar de concursos. Eu queria libertar meus contos, deixá-los caminharem no mundo. O autor independente quer libertar seu texto. Eu me vejo começando esse caminhar independente. O escritor sem uma grande editora é livre para se expressar e encontrar o seu público pelo próprio esforço. Esse trabalho é extremamente difícil, mas muito compensador porque faz você se aproximar das pessoas, ouvi-las em suas críticas, seus elogios e em suas experiências. Escritoras de fantasia e mistério são poucas e quase desconhecidas no Brasil; tirando a Lygia Fagundes, que escreveu algo nessa linha, a maioria é independente. Esse é o meu ruído, quero estar junto dessas mulheres incríveis”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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