Coleção Ruído: o olhar sensível e infantil de Andréa Apa

A escritora Andréa Apa conta histórias para crianças e encanta adultos com ‘Árvore de Sol’, livro que vai muito além da mente infantil e integra a Coleção Ruído, da editora Raiz

Quando crianças, mal podemos esperar para crescer. Já adultos, gostaríamos de encontrar uma maneira de voltar atrás. Naquele tempo em que a inocência permeava as nossas mentes, nos permitindo viajar, imaginar, brincar. Saudade da leveza e da sensibilidade infantis. E é para esse saudoso tempo que somos levados por Andréa Apa, autora de Árvore de Sol, que integra a Coleção Ruído, da editora Raiz, com lançamento marcado para o dia 8 de novembro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, na Zona Sul do Rio.

Árvore de Sol transcende os conceitos de livro infantil ao resgatar a nossa memória afetiva com a sua narrativa lúdica. Ao longo das páginas, nos juntamos a Francis e Marilu, suas brincadeiras, sonhos e encantos. A obra, no entanto, não subestima a capacidade de seus pequenos leitores. Pelo contrário, a autora entra na roda e joga suas palavras para que todos nós possamos brincar, aprender e compartilhar.

“Acredito que a escrita com qualidade literária seja fundamental em qualquer processo criativo, independente do público ao qual se destina”, declarou Andréa em entrevista ao Vai Lendo. “Desenvolver uma estrutura narrativa que envolva os leitores e os convide a participar da história é fruto de muito aprendizado. Não imagina quantas vezes o texto é reescrito, apagado, jogado no lixo. A técnica está a seu dispor e não você a dispor dela. Até porque, muitas vezes, é preciso esvaziar a cabeça para que o novo chegue. Muitos pensam que escrever um livro infantil é apenas imaginar uma história com personagens alegres e ter um final feliz. Ledo engano. As crianças de hoje estão cada vez mais exigentes e críticas. Afinal, a concorrência está mais acirrada com os tablets, videogames, celulares, entre outros. Um dos grandes desafios ao escrever para o público infantojuvenil é criar um texto que surpreenda. Que desperte a curiosidade do leitor em saber o que vem depois. A técnica é indispensável, devemos conhecer a estrutura narrativa, criar bons narradores, escolher a linguagem a ser utilizada, o tempo verbal que irá narrar a história e, claro, precisamos de lógica. Ideias todos temos, agora, transformá-la em uma boa história é o diferencial.”.

O mundo infantil, para quem já o deixou, traz um misto de nostalgia e inseguranças. É difícil nos acostumarmos a um mundo onde a realidade deixa de ser quase um conto de fadas para se mostrar, por vezes, implacável. Ao mesmo tempo, nós, adultos, também resistimos a entender e a absorver a profundidade do olhar puro e inocente, porém avassaladoramente verdadeiro de uma criança. Sendo uma contadora de histórias, Andréa ressaltou a importância de se trabalhar a sinceridade com os pequenos, até mesmo para que eles estejam mais preparados para o futuro. E que forma melhor de fazer isso do que com um livro?

“Há algo que aprendi com a contação de histórias: precisamos falar sobre tudo com as crianças e os jovens”, afirmou. “Crianças não têm problemas com histórias tristes; elas pedem para contar de novo. Quem costuma ter são os adultos, porque muitas vezes não sabem como lidar com temas mais delicados da vida. Quanto mais falamos, mais prevenimos e preparamos as crianças e jovens para as dificuldades da vida, porque, quer os pais queiram ou não, os filhos vão crescer e precisarão se virar sozinhos. E, se estiverem bem preparados, muito melhor, não acha? Um exemplo: se uma criança já tiver contato com histórias que falam sobre morte, irá, pouco a pouco, aprendendo a lidar com a morte de forma menos sofrida. A literatura permite que esse diálogo aconteça para que gere questionamentos. É uma troca saudável e necessária”.

O(a) escritor(a) infantil tem uma tarefa árdua. Quase uma missão de vida e um dever social. Formar leitores é uma das maiores realizações de um profissional do livro, mas também uma das mais árduas e ingratas tarefas, uma vez que infelizmente o apoio à leitura ainda é tão escasso.

“Os leitores não nascem prontos”, ressaltou. “A formação de um leitor exige uma construção que deve ser estimulada por adultos comprometidos com esse processo. Quem terá o primeiro contato com as crianças será a família e posteriormente a escola. Se a família estimula uma cultura de leitura, já caminhamos parte do trajeto, senão, dependeremos de que a escola seja o veículo. Muitos fatores podem contribuir para a falta de costume em ler: o alto grau de analfabetismo, a desigualdade social, a falta de estrutura familiar e a precariedade no sistema educacional. Nossas famílias ainda não são leitoras em sua grande maioria. O hábito da leitura deve começar dentro de casa. Ler um livro é um gesto de carinho entre os pais e seus filhos, entre irmãos, avós. Aproveitar o pouco tempo de convivência com os filhos, levando em consideração o dia a dia corrido que se apresenta para nós, nos faz trabalhar o afeto, a relação de cumplicidade que as histórias nos permitem percorrer. A imaginação passeia por entre nós e nos leva a lugares até então desconhecidos. Cria momentos lúdicos e de descontração. O desafio é construir uma sociedade saudável e academicamente instruída para garantirmos às crianças o direito e o acesso à leitura, à arte e ao lúdico”.

Mesmo permeando o mundo do faz de conta e mantendo uma essência extremamente sensível e delicada, Andréa não se omite ao apontar as necessidades de um mercado que precisa acompanhar o desenvolvimento e a renovação de seu público.

“O mercado editorial tem que estar atento às novas formas de entrega de conteúdo ao leitor, pois oferece a oportunidade para autores independentes, como no caso da coleção Ruído, colocarem suas obras disponíveis em todo o mundo, não dependendo exclusivamente das grandes editoras”, indicou. “A tecnologia e a globalização nos permitem ultrapassar os limites geográficos e os da língua. No Brasil, ao se editar um livro ou e-book, no caso em português, o mesmo poderá ser adquirido em qualquer país do mundo, mesmo onde a língua nativa não seja o português. Acredito que o mercado editorial deva estar atento às novas tendências e às mudanças comportamentais do novo leitor, seja este multidisciplinar, curioso, autônomo, independente, que preza as relações sociais. O novo consumidor já não se limita a adquirir um livro em apenas uma plataforma ou mídia, ele adquire o conteúdo, a história e não mais o livro impresso. Para mim, o mercado editorial tem muitos concorrentes que vão além da internet. A indústria de entretenimento está aí para provar. Pensar fora da caixa é um processo saudável e necessário. Oxigena o mercado tradicional e nos possibilita ver alternativas que, em um primeiro momento, não víamos. Por mais diferente que as alternativas possam parecer, quebrar paradigmas nunca foi tarefa fácil. Sabemos que sair da nossa zona de conforto pode trazer um pouco de resistência, mas é necessário.”.

Por falar em resistência, Andréa exaltou a luta e a união dos autores independentes, cada a um a seu modo e dentro do seu próprio gênero. Acreditar, sonhar e realizar. Voltar a ser criança e imaginar um mundo melhor, encontrar o seu lugar, se redescobrir.

“Considero o movimento dos autores independentes um alternativa ótima, pois proporciona maior autonomia ao autor para gerenciar melhor o que deseja para a sua obra. Aumenta o seu poder de decisão e de escolhas. O ruído já foi criado quando comecei a divulgar o projeto e a proposta da Editora. Todos querem conhecer o escopo do projeto e sua funcionalidade. Sentem-se atraídos pelo novo. No fundo, todos querem publicar, deixando de seguir adiante por conta das respostas negativas das editoras tradicionais e o famoso discurso de estar sem verba, muitos propostas a serem avaliadas, fica para o próximo ano… Ter o seu livro publicado independentemente da forma como o conteúdo será entregue é mágico. Todos querem uma oportunidade. A Raiz surgiu com esse intuito. Afinal, nos são oferecidas tantas coisas iguais. Tantas leituras e projetos iguais. Se já criarmos uma leva de autores que tentem novos caminhos, não apenas aqueles já expostos em prateleiras de livrarias, acredito que desocuparemos as caixas das mesmices. Assim são as meninas do meu livro ‘… estavam longe da sem-gracisse’. Em Árvore de Sol, Marilu e Francis são amigas que leem, que se expressam pelo texto, que escutaram desde cedo as histórias contadas pela mãe. Brincam de adivinhar quem é quem numa determinada história. Brincam na realidade de estimular ideias. Talvez, tenha chegado a hora de brincarmos de dar oportunidade para novos autores que acreditam que o eterno possa durar apenas um segundo e, por conta disso, o público tem pressa. ‘Oh, puxa! Oh, puxa!’, eu espero não estarmos muito atrasados”.

Em nossa eterna busca por conhecimento, aliás, pelo autoconhecimento, tentamos, nos esforçamos, erramos. Erramos muito e temos dificuldade em aceitar isso, em aprender com os nossos erros. Desde crianças. Inclusive, se tem algo que mantemos desde a nossa mais tenra idade é o querer. A ânsia de desbravar, de conquistar. Mesmo tropeçando – e olha que os tropeços são muitos -, enxugamos o rosto e persistimos. A realização, entendemos anos mais tarde, está em nós mesmos.

“Ouvia muito quando estava nas feiras literárias em que participava o termo ‘autor independente'”, lembrou. “Comecei a me acostumar e a gostar desse título, mas o que faz um autor independente? Escreve por conta própria e publica digitalmente? Aos poucos, fui entendendo que esse conceito vai além da mera publicação. Ser autor independente, hoje, requer conhecimento do mercado editorial, te possibilita procurar as oportunidades oferecidas e principalmente escolher o que melhor se encaixa ao meu texto. Como independente, escolhi uma editora que trabalhasse os meus objetivos, que me desse espaço para opinar, sem censurar, que me deixasse livre para fazer escolhas. A Raiz privilegia o processo de criação. Onde as partes envolvidas se sentem confortáveis, gerando cumplicidade, harmonia. Desde pequenos nos é ensinado a acertar, comemorar, ter vitórias. O que fazemos quando nem tudo sai como planejamos? Será que nossos pais, escola, amigos, em algum momento, nos ensinam essa tarefa? Por que nos é trabalhoso seguir em frente? Perguntas que provavelmente terão inúmeras respostas. Não importa os caminhos que tomemos. Se tivermos constância nos propósitos alcançaremos o que quisermos. Procuro ter uma visão otimista da vida, mesmo que, às vezes, seja difícil. Filha de pai médico e apaixonada por crianças, não pensei duas vezes em escolher medicina como carreira. Seria pediatra. Meu mundo despencou quando não vi meu nome na lista de aprovados no vestibular. Como assim? Merecia ter passado. Mas, hoje, sou contadora de história para crianças internadas na pediatria do Hospital da Lagoa. Não sou pediatra, mas, de alguma forma, estou perto desse universo que tanto desejei”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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