Coleção Ruído: o erotismo poético de Gabriella Ardore

Em meio à elegância dos seus versos, Gabriella Ardore toma a liberdade de se despir avassaladoramente para os leitores com ‘Glossário de Leveduras’, que integra a Coleção Ruído, da editora Raiz

Prazer ardente, urgente. Carne queimando, ansiando, desejando. Palavras proferidas de encontro ao mais puro êxtase com uma sensualidade elegante e uma necessidade gritante de se libertar, de se encontrar. Sexo é tabu? De forma alguma. Sexo é poesia. O erótico é entrega, ausência de julgamentos e excesso de emoções. É dessa forma que a escritora Gabriella Ardore pensa a literatura erótica em Glossário de Leveduras, que integra a Coleção Ruído, da Editora Raiz, com lançamento marcado para o dia 8 de novembro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, Zona Sul do Rio.

Abrindo mão de qualquer obscenidade, o texto de Gabriella excita, chacoalha, esbanja sexualidade com uma sensibilidade lúdica. É escrita latente, pungente. Que transcende as páginas e arrebata o inconsciente. A autora não se omite ao falar da urgência, dos anseios avassaladores do ser humano.

“Eu não me preocupo tanto com escolha de palavras perfeitas”, declarou Gabriella em entrevista ao Vai Lendo. “Ao contrário, essas danadas que me dominam. Deixo correr a caneta em papel branco. O papel branco me atordoa, pede preenchimento. Estéreos não fazem meus tipos, minha liberdade nem permite. O que me deturpa é vontade de voar. O voo do peito até a caneta dá forma a esses pensamentos urgentes. São mesmo urgentes e bem maiores que eu”.

Se as páginas remetem a uma total entrega da autora, é porque Gabriella se abre totalmente à experiência de explorar todas as nuances de sua mente e da sua escrita. Para ela, o objetivo final é o júbilo do leitor, após o mergulho profundo em seus próprios devaneios.

“Difícil para mim é me manter calçada”, explicou. “Gosto de sentir as temperaturas mudando, as marés subindo. E é bem verdade que prefiro a pele a tecidos. Cresci em meio à natureza quase intocada e isso me fez amar o puro, os cheiros do vento e ciclos da Lua. Tudo refletido nos meus escritos. Não me sinto mal em me despir nas narrativas. Meu desejo é o mergulho do leitor. Completamente nu de julgamentos e medo: a total entrega”.

Gabriella é mais uma a desmistificar a resistência, os pré-julgamentos destinados ao gênero, especialmente em relação às mulheres. Ela destacou a importância de permitir ao leitor ser livre, ao longo de toda a leitura.

“O que tenho recebido de volta das pessoas são relatos de surpresas com admiração”, ressaltou. “Não considerei preconceito. O que me dizem é que, nos meus contos e poemas, têm conseguido sentir o instigante e o erótico com elegância. Eu quero que o leitor imagine, seja o pintor da tela, mas ajudo na intensidade e na direção das pinceladas. Não escrevo para este ou aquele, a cena é sua, liberta!”.

Poeta em essência, Gabriella pensa em versos e escreve com a alta. Por isso mesmo, ela exaltou a luta e a resistência dos autores independentes, que seguem, de acordo com a escritora, se libertando e, juntos, voam atrás do mesmo sonho.

“Acho que, quando temos uma paixão com essa cara de destino, forte e visceral, é lindo ver que ela pode ser vivida, tocada, sair de sonho e até virar sonho maior ainda”, disse. “Não é preciso engavetar, terminar. Tornar possível o pulsar de outro quando abre, folheando um amor que virou livro… E, mais uma vez, eu falo de ser livre, porque esta coleção (Ruído) permite bater asas. Este mercado maiúsculo que tanto se almeja pode não dar chance a verdadeiros prazeres de fruta no pé. Sabores intensos e inesquecíveis podem não estar encaixotados nas grandes feiras. Acho maravilhoso poder abocanhar desta forma, com ruído de mordida em pêssego cheio de suco. Não é irresistível?”.

Avessa a conceitos pré-determinados, Gabriella agradeceu ainda a possibilidade de se mostrar integralmente como autora, através da obra que será lançada pela editora Raiz, e declamou a sua gratidão por poder dividir a sua intimidade literária com outras pessoas.

“Não me permito rótulos, nem perco tempo com isso”, concluiu. “A editora me trouxe à tona a vontade de mostrar. Ela me fez acreditar que outros podem se emocionar com minhas percepções e desejos. É uma editora que sente tudo junto com o autor. É viva, tem paixão pela leitura e pelo brilho da palavra. Isso me chamou a atenção. Proximidade íntima com a obra que é cheia destas proximidades. A personalidade forte da Raiz me incentiva a abrir a janela para que mais gente queira entrar, se embole nas cortinas e seja levado, ou levada”.

Mesmo com tanta liberdade, Ardore não está livre dos fracassos e desafios de uma mente provocadora. Contudo, essa mesma mente também se expressa em fracassos ardentes, como você pode conferir na pequenas amostra que ela nos ofereceu:

Não me traga tão terrena
à vida de arrepender,
quando erro, meu fracasso
trago na ponta do laço
mais vontade de viver.
A paixão que me arrebata
é razão em nada inata,
Raiz para sorver.
Profano aos ruídos
que os ouvidos despertem.
E larguem aos mais sentidos
erros de amor que os acertem.

 

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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