Entrevista: Charlie Donlea

Durante a sua passagem pelo Brasil, Charlie Donlea conversou com o Vai Lendo sobre o sucesso dos thrillers e os limites (ou não) para surpreender os leitores

A capacidade de nos deixar sem palavras com apenas algumas frases e páginas. O talento para criar narrativas com tanta veracidade que chega a ser difícil de acreditar que tudo aquilo não aconteceu ou que é somente fruto da sua grande imaginação. O fato é que o norte-americano Charlie Donlea veio para escrever o seu nome na história dos thrillers. Autor dos sucessos A Garota do Lago, Deixada para Trás e do recém-lançado Não Confie em Ninguém, todos publicados pela Faro Editorial, Donlea marcou presença na Bienal do Livro de São Paulo deste ano – e também passou por Rio de Janeiro e Salvador – e pôde constatar que também caiu – e muito! – no gosto dos leitores brasileiros (a gente que o diga!).

Fã de documentários criminais, Donlea credita à curiosidade do ser humano o sucesso desse gênero literário. Para o escritor, os thrillers mexem com a mente dos leitores principalmente quando dizem respeito a casos não resolvidos.

“Eu acho que os crimes são tão populares porque muitos dos casos não são resolvidos, despertando o interesse das pessoas”, declarou Donlea em entrevista exclusiva ao Vai Lendo, durante a sua passagem pelo Rio. “Elas querem ler os livros, ver os documentários para saber o que aconteceu. E felizmente a ficção me dá a possibilidade de determinar o final, dar uma conclusão. Nos Estados Unidos especialmente, os jornais estão cheios de casos reais que não foram resolvidos e viraram um mistério. Os mistérios atiçam a curiosidade das pessoas. Todos os meus livros partem para esse lado da curiosidade”.

Autor best-seller de um gênero bastante concorrido e com tantas obras e escritores renomados, Donlea tem consciência dos inúmeros desafios que o aguardam ao longo da narrativa para conseguir fisgar a atenção dos leitores. Para ele, um bom thriller é aquele que fisga o público a ponto de as pessoas ainda falarem sobre ele após a leitura. Isso e, claro, uma boa edição.

“Antes de qualquer coisa, você precisa ter um bom editor que irá cortar tudo o que não for necessário”, ressaltou. “Porque você precisa manter um bom ritmo, com um início alucinante, o meio ainda tão eletrizante e um final arrebatador. O meu objetivo é sempre manter o leitor preso até o final. E conseguir envolver o leitor dessa forma é o grande desafio. Tudo começa com uma boa história, aquela sobre a qual as pessoas vão querer falar assim que acabarem de ler. Quando você termina um livro e não aguenta de ansiedade para falar sobre ele com outra pessoa, esse boca a boca faz toda a diferença na trajetória da obra. Se você chega à última página e não vê a hora de começar outro livro ou simplesmente não tem vontade de falar sobre ele com outra pessoa, não dá para competir. Precisamos do boca a boca, de um bom livro, para enfrentar a concorrência ou conviver com ela”.

Uma das principais características das obras de Donlea – e também um dos seus maiores trunfos – são os detalhes. A narrativa minuciosa, sem pontos soltos e com descrições tão bem elaboradas elevaram o nível de suspense e de veracidade de seus livros, surpreendendo até mesmo os leitores mais céticos. Seu trabalho de pesquisa é tão complexo que ele próprio chegou a passar mal ao acompanhar uma autópsia. O processo de escrita, ele afirmou, é meticuloso e absolutamente mutável. A ideia é obter o foco total do leitor. Se há limites para isso? Nenhum.

“Eu geralmente tenho uma ideia do que quero fazer”, explicou. “Eu escrevo as 100 primeiras paginas, depois volto e leio tudo de novo e mudo algumas coisas. Então, eu reescrevo essas 100 primeiras páginas e mudo o primeiro esboço, o meu foco. Em Deixada Para Trás, eu mudei e, quando dei o livro para o meu editor, ele disse que tinha adorado, mas não tinha nada a ver com o primeiro esboço porque o livro mudou muito. Normalmente, eu tenho um foco, mas a história costuma mudar bastante enquanto eu escrevo. Surpreender o leitor é difícil, porque os leitores de thrillers são muito espertos e estão sempre tentando resolver o livro. Uma coisa que eu tento fazer, sem querer dar spoiler para os meus próprios livros, é chamar a atenção do leitor para alguma coisa, enquanto outra está acontecendo ao mesmo tempo e surpreendê-lo no fim. Essa é uma ferramenta que eu gosto de usar. Não há nada que não se possa fazer para surpreender o leitor. Não há limites. Tudo pode acontecer”.

Na verdade, o maior obstáculo dessa liberdade criativa atualmente é a tecnologia. Mais precisamente, apontou Donlea, o celular.

“Precisamos sempre arrumar uma maneira de desabilitá-lo nas histórias, encontrar uma forma de o aparelho ficar sem serviço, de acabar a bateria ou de alguém esquecê-lo”, brincou. “Porque um celular permite a você instantaneamente ligar para a policia, tirar fotos, se salvar (risos)! Então, estamos sempre buscando uma maneira de prevenir que os celulares, a tecnologia, ajude os protagonistas para podermos aumentar o suspense. Desabilitar o telefone é realmente um desafio”.

Se já é difícil surpreender o leitor de thrillers, imagina o autor. Mas o público brasileiro cumpriu a tarefa com louvor e deixou Donlea bastante surpreso com a recepção que teve no país. Foram muitos autógrafos, fotos, conversas e trocas de experiências. Para os mais ansiosos, uma ótima notícia: ele terminou o seu novo livro um pouco antes de desembarcar por aqui, com previsão de lançamento nos Estados Unidos para junho de 2019. E no Brasil? Podem ficar tranquilos que a Faro também já está cuidando de tudo!

“Foi tudo tão maravilhoso aqui”, disse. “A Bienal, os autógrafos, a Faro, Salvador, Rio; sou muito grato por tudo isso. Por ter leitores aqui que leram os meus livros, que já querem saber sobre o próximo. Foi um momento muito especial. Não existe uma fórmula específica para fazer um thriller. Mas você tem que escrever um bom livro, captar a atenção do leitor desde a primeira sentença. Manter e trabalhar essa atenção no meio e surpreendê-lo no final. Se o seu livro não fizer isso, provavelmente não vai ser bem sucedido. Se o seu livro fizer tudo isso, ainda assim, ele pode ter algum sucesso. Mas nunca desista. Eu escrevi muitas coisas que nunca foram publicadas. Se eu tivesse desistido, nenhum desses livros teriam existido, ninguém saberia quem eu sou, não haveria lista de best-seller. Você precisa aguentar e não desistir”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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