Entrevista: Plácido Berci

Repórter fala ao Vai Lendo da experiência no Quênia, durante a cobertura das Olimpíadas Rio 2016, que resultou no livro ‘Nuvem de Terra’

Uma experiência transformadora. Uma oportunidade única, surpreendente e reflexiva. Um olhar mais atento, livre e verdadeiro sobre a África. Um sonho que se tornou realidade e também um livro. Em Nuvem de Terra, publicado recentemente pela Globo Livros, o repórter Plácido Berci compartilhou com os leitores todos os momentos e aprendizados dos seus sete meses como correspondente no Quênia, seis na capital Nairóbi e um na cidade de Iten, pelo projeto Passaporte SporTV, no ano da Olimpíada do Rio, em 2016.

Foto: arquivo pessoal

Em seu segundo livro – o primeiro, Paixão: Uma Viagem Pelo Futebol Inglês, foi lançado em 2015 através de financiamento coletivo -, Plácido já mostrava interesse em relatar as diversas nuances do país africano. Tanto que surpreendeu seus superiores ao optar por este destino para a cobertura do maior evento esportivo do planeta. E foi durante o seu dia a dia que Plácido também encontrou o formato e a essência do que seria a sua próxima obra literária.

“Durante o processo seletivo (para o Passaporte SporTV), eu já tinha vontade de ir para o Quênia”, contou Plácido em entrevista ao Vai Lendo. “Não queria ir para um país de primeiro mundo. Queria ter uma experiência num país com uma cultura diferente da nossa. A África sempre me encantou. Então, eu já estava com essa ideia de escrever um livro sobre o Quênia e, nos primeiros 30 dias, eu fiz um diário. O primeiro livro que eu fiz foi muito amador em termos de escrita e de publicação. Eu não conhecia o mercado. Com 30 dias, portanto, eu achei que o diário estava muito chato, colocando apenas os pormenores da rotina, e não chegava a lugar nenhum. Aí, comecei a fazer as crônicas dos bastidores. Porque, como eu estava a trabalho, é muito diferente de você ir para estudar ou apenas para conhecer. Era tudo muito diferente”.

Foto: arquivo pessoal

E foi justamente essa diferença que Plácido quis trazer em seu livro, desmistificando a imagem estereotipada e cheia de pré-conceitos que temos da África. Em Nuvem de Terra – Relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia, o repórter e escritor apresenta uma visão humanizada e extremamente verdadeira. E são tantas as experiências vividas que o processo, não apenas de escrita, mas também o de publicação da obra, assemelhou-se muito ao processo de adaptação do próprio Plácido durante a sua cobertura.

“O primeiro mês lá foi uma fase de muita curiosidade e de estranhamento”, explicou. “Ao longo do tempo, fui percebendo que a cultura era bem diferente da nossa e estereotipada. Não conhecemos nada sobre o Quênia e sobre os africanos, no geral. A maneira que eu achei de humaniza-los um pouco foi focar nos personagens que encontrei ao longo do caminho. O livro é em primeira pessoa, mas cada capítulo tem um personagem que conduz a história. Mas tem o meu motorista, por exemplo, que aparece no livro todo. Através dele dá para vermos o comportamento do queniano, o pensamento político dele, a cultura tribal. E, a partir do momento em que decidi que seria crônica, o desafio foi quando voltei porque eu tinha muitas crônicas escritas, mas estavam soltas. Elas não tinham uma ligação. O trabalho aqui no Brasil foi esse. Passei um ano tentando dar uma cara de história. Passar um pouco da reflexão que pessoalmente eu tive. Foi uma fase de adaptação que eu deixei claro. Uma fase de estranhamento, de curiosidade, encantamento e, por fim, talvez, uma fase de dúvida e de compreensão”.

Foto: arquivo pessoal

Foram seis meses de estudo e de preparação, que deram a Plácido exatamente a percepção das histórias que ele gostaria de contar e o possibilitaram escrever um livro que, para ele, pode, sim, ajudar a as pessoas a criarem uma nova consciência sobre pré-julgamentos e diferenças.

“Quando eu comecei a pesquisar, não existia praticamente uma biografia, nada que mostrasse os que os brasileiros falam sobre a África”, afirmou. “Eu queria ter essa visão do brasileiro sobre o continente. Queria mostrar a realidade. Relatar o que encontraria, não só o drama. Parti do zero, sem uma história pré-concebida. Como o trabalho era como repórter esportivo, todo mundo associa o Quênia como um país esportivo, voltado para o atletismo. Mas, quando cheguei lá, descobri que o futebol é o primeiro esporte. Mais do que o atletismo. A partir do momento em que eu fui conhecendo a cultura mais de perto, vi que não conhecíamos realmente nada. Então, foi fácil escrever nesse sentido porque era o que eu estava vendo e, com isso, você não cai no estereótipo. Eu acho que seria pretensão demais dizer que o livro desmistifica alguma coisa, mas ajuda. Ao longo dos capítulos, eu tento contar um pouquinho da história do Quênia, da cultura, da culinária. Quando fui para a Etiópia, as pessoas pensam apenas na fome. Mas a comida e a cultura de lá são uma delícia. É uma cultura diferente. Outro conceito de vida que não necessariamente envolve dinheiro. Tentei o tempo todo mostrar isso. Não é exatamente o que a gente pensa. A gente julga porque é diferente”.

Foto: arquivo pessoal

Com apenas três anos de formado, em 2016, a oportunidade de desbravar o Quênia sozinho e fazer todo o trabalho geralmente realizado por uma equipe foi, de fato, uma grande realização e, ao mesmo tempo, um enorme desafio. No entanto, mesmo com as diferenças culturais, Plácido ressaltou que teve uma recepção bastante positiva durante praticamente todo o tempo em que permaneceu lá. Mais do que isso, exaltou as mudanças de percepção de vida que a viagem lhe proporcionou.

“A ideia do projeto é essa de você viajar sozinho”, afirmou. “Você é responsável por todo o processo jornalístico. Então, aprendi a fazer câmera, edição. Como você viaja com esse intuito profissional, que é um teste, você vive isso integralmente. Posso contar nos dedos as folgas em sete meses. Você se sente inseguro no começo. Sabe que está tendo que provar o seu trabalho. É uma responsabilidade cultural e profissional muito grande. Eu fiquei muito feliz de saber que iria para o Quênia e, ao mesmo tempo, bateu medo. Porque, na hora que concretiza, você pensa se vai dar conta. Então, profissionalmente, mudou muita coisa porque eu já tinha essa experiência de filmar, tinha um canal, mas era muito amador. Lá tivemos um ritmo de produção muito alto, muito pesado. Vendo depois as primeira e última reportagens, percebo uma evolução brutal. Você vai se encontrando ao longo dos sete meses, vai descobrindo o seu perfil como repórter. Hoje, estou há um ano e meio na reportagem do Rio. Tenho certeza de que, se eu tivesse chegado sem essa experiência, estaria uns cinco anos atrás de produção. Pessoalmente falando, me transformou muito. Passei a dar valor a muita coisa, mudei um pouco o meu estilo de vida. Eu era um cara um pouco consumista, gastava com coisas materiais. Voltei bem diferente nesse aspecto, valorizando outras coisas. Evoluí muito nessa questão financeira, mudei como pessoa, passei a dar valor à simplicidade. Uma coisa interessante, até por ter sido tudo intenso, quando voltei tive um impacto maior na adaptação aqui do que lá. Quando cheguei aqui e voltei a ser só mais um numa realidade que a gente já está acostumado, e fazendo o trabalho do dia a dia, comecei a questionar muita coisa. Mas aí tem aquele momento de compreender as coisas novamente e, depois de um certo tempo, você percebe que isso tudo também tem valor. Você não precisa mudar o mundo todo dia. Pode começar com um livro, por exemplo”.

Foto: arquivo pessoal

Bom, tendo em vista as respostas dos leitores, pode-se dizer que Plácido já conseguiu mudar bastante coisa. Acima de tudo, ele ajudou todos aqueles que já leram o seu livro a chegarem à mesma conclusão. Conclusão essa que não deveria ser difícil de perceber, mas, graças a obras como Nuvem de Terra, aos poucos, as pessoas começam a absorver e principalmente a entender melhor.

“Tenho ficado bastante feliz com os feedbacks de pessoas conhecidas e também de muitos desconhecidos nas redes”, concluiu. “Até uma palavra recorrente que usam é que Nuvem de Terra é um livro emocionante. Essa é a palavra. Fico muito feliz porque é a prova de que o livro é bastante verdadeiro e conseguiu passar a emoção que senti a cada momento. É uma experiência muito humana, não é pretensiosa e é bem descritiva da realidade que encontrei lá. A conclusão é de que somos iguais. O que difere é a história e a geografia. De um modo geral, eles só são diferentes porque foram criados de outra maneira, num outro contexto. A partir do momento que deixamos de lado esse preconceito, percebemos muitas semelhanças. A mesma proximidade que eu senti tentei mostrar no livro e as pessoas podem perceber. Isso acaba ajudando a desmistificar esses pré-conceitos. As pessoas começam a ficar curiosas para buscar e entender. Talvez, esse seja o grande mérito. E nem foi a intenção do livro, mas, como foi escrito em primeira pessoa e traz a minha jornada jornalística, acho que também tem até uma certa mensagem de que, se você quiser viver essa aventura, é possível. Depende do esforço e do foco. Não é tão impossível. Dá para viver uma aventura”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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