‘Cobain’: uma homenagem de fã para fã

Coletânea traz 25 contos inspiradas em músicas da banda Nirvana para comemorar os 25 anos de lançamento do álbum ‘Nevermind’

‘Cobain’ / Divulgação

As letras que transcendem o tempo, os palcos, ouvidos e os corações e chegam até as páginas. Pelas mãos de quem não apenas admira o talento de compor, o artista, e sabe reconhecer os verdadeiros significados de cada canção, mas principalmente como representá-las em textos. Muita emoção, criatividade e rock’n’roll. Coisa de fã, que só quem é fã mesmo entende. Como Sérgio Tavares, finalista do Prêmio Brasília de Literatura, que, junto com Alessandro Garcia, escritor finalista no Prêmio Jabuti, e André Timm, editor do Doi Mil Toques lançou, no ano passado, Cobain, uma coletânea de 25 contos inspirados em canções da banda Nirvana para comemorar os 25 anos de lançamento do álbum “Nevermind” – que marcou a geração dos anos 90 -, completados em setembro de 2016. Os textos são de autoria de 25 autores contemporâneos que, claro, também são fãs da banda.

Além de conhecer e gostar da banda, Sérgio explicou que buscou, acima de tudo, a qualidade literária na hora de escolher aqueles que participariam da antologia. Diversidade, inclusive, foi a tônica da publicação – lançada em formato digital na Amazon -, que reúne desde autores consagrados, muitos reconhecidos com prêmios importantes (Sesc, São Paulo, Jabuti…), com escritores iniciantes que já foram bem recebidos pela crítica especializada. Outro fator importante, indicou Tavares, foi procurar escritores de diferentes partes do país. E o resultado, segundo ele, não poderia ter sido melhor, uma vez que, dentro da complexidade e da profundidade das letras escritas por Cobain, os escritores – cada um com a sua característica narrativa própria – conseguiram se apropriar dessas composições e dar a elas um novo sentido com seus próprio textos.

“Apesar de conhecer o estilo de cada um desses escritores, uma das minhas maiores curiosidades era ver como eles iriam construir seus contos a partir das letras”, disse Tavares ao Vai Lendo. “O fazer ficcional é muito íntimo e o autor está livre para dar a forma que quiser à sua ideia, ainda que se abasteça de elementos externos a ela. O caso é que todos estavam diante de uma interpretação, de pontos de partidas que não eram seus. E, mais complicado, com o material de um compositor que trabalhava muito com a sonoridade, cujo sentido dependia muito mais de uma liberdade metafórica, de subentendimentos, de um apanhado de memórias ou de fatos que ele ouviu e sobre as quais a realidade imperava. De modo que jogar uma luz criativa sobre esses esconderijos do Kurt era o que mais me entusiasmava. E, ainda que eu seja suspeito, tenho de dizer que os autores foram muito bem em suas escolhas. Temos desde contos que extraem referências diretas das canções até aqueles em que a música empresta apenas o título. Outra coisa que é interessante apontar é quanto ao gênero. Há uma multiplicidade, que vai do humor ao nonsense, passando pela ficção científica e pelo relato memorialista”.

Mesmo não sendo músico, Tavares apontou o que, para ele, são as principais diferenças entre as músicas escritas por Kurt e os textos narrativos, exaltando a liberdade criativa que a música oferece aos artistas e principalmente a capacidade do vocalista do Nirvana de saber aproveitar todas essas camadas de inspiração em suas canções.

“O que percebo é que, na música, o ritmo tem uma influência direta na escolha e na colocação das palavras, em como os versos irão contribuir para o compasso, para a sonoridade”, explicou. “Se fosse uma coletânea poética, certamente haveria uma aproximação maior com a cadência, a flexão das frases das músicas. Já o texto em prosa é totalmente livre dessas amarras estruturais, o que permite o diálogo mais amplo ou mais breve. A criatividade é o que impera nesse encontro. Como disse há pouco, o Kurt fazia, de suas composições, um tipo de quebra-cabeça bizarro governado por sentimentos obscuros, traumas, delírios, uma visão melancólica e abismal da vida. Tem canções em que apenas um verso se repete insistentemente. ‘School’ é uma delas, e a escritora Débora Ferraz soube extrair dessa reincidência inspiração para compor um conto em que uma pessoa tenta deixar um lugar e nunca consegue. A música é a expressão artística mais bem aceita à inspiração, pois oferece muitas camadas, do ritmo a pequenos trechos da composição. No caso das letras do Kurt, até naquilo que visivelmente não está lá”.

Para aqueles que gostariam de colocar literalmente as mãos na coletânea, Tavares afirmou que o objetivo era fazer uma homenagem ao álbum que pudesse chegar ao maior número possível de leitores e, portanto, o e-book gratuito foi a melhor maneira de tornar a obra mais acessível. No entanto, ele não descartou que o projeto possa ser lançado em formato impresso, caso alguma editora tenha interesse. Tavares também disse acreditar que a iniciativa – que entrou na lista de mais vendidos da Amazon – pode, sim, ajudar a formar novos leitores, diversificando o público literário-musical.

“O importante é que o plano inicial foi cumprido e entregamos uma coletânea bem-feita, com textos de qualidade à altura da banda na qual se inspira”, declarou. “Acionando o meu botão de otimismo, penso que a presença da música pode influenciar aqueles que não têm o hábito da leitura de, pelo menos, darem uma folheada no livro. Coletâneas de contos inspirados em canções não são muito comuns. Geralmente, a música ganha destaque na literatura por meio das biografias. O caso é que o conto, por si só, já é um gênero marginalizado, de pequenos grupos de adoradores. E, nesse caso, a diversificação cabe num estojo de lápis de cor. O que novamente mostra a força da banda e a qualidade do texto, ao encararmos a repercussão da coletânea”.

Com poucas obras nesse estilo lançadas no mercado editorial, Tavares destacou ainda a “alternância de estilos e formatos” de Cobain, como o diferencial da coletânea, capaz de agradar e atingir não apenas o seu público-alvo.

“Lembro-me de duas excelentes coletâneas de contos inspirados em músicas, que precederam a Cobain: Como se não houvesse amanhã, baseada em faixas da Legião Urbana, e O livro branco, em canções dos Beatles”, contou. “De maneira prática, não vejo diferença entre essas e a Cobain, ou qualquer outra que parta dessa premissa. O que conseguimos foi criar uma alternância de estilos e formatos que tornou a antologia orgânica, atraente. Sendo fã do Nirvana ou não, os contos devem agradar pela qualidade, pelos méritos que estão em si sem precisar ser reflexo de algo. E a Cobain cumpre muito bem esse propósito, sendo um painel muito rico da nova literatura brasileira, e não uma resposta para nada. Não somos fãs que resolveram homenagear o Nirvana em texto, mas escritores que usaram de seus talentos literários para homenagear o Nirvana”.

Álbum ‘Nevermind’ (Nirvana) / Divulgação

E, por falar em fã, Tavares recordou o exato momento em que o álbum “Nevermind” modificou toda a sua concepção sobre música. Com carinho, ele falou também sobre como a banda esteve presente em toda a sua adolescência e praticamente mudou a sua vida. Por isso mesmo, ele confirmou, Cobain foi uma maneira de agradecer por todo esse impacto positivo e não de buscar qualquer outro tipo de reconhecimento que não fosse o amor pela banda e a sua importância.

“O ‘Nevermind’ foi a primeira vez que a música fez sentido para mim”, concluiu. “Lembro que meu avô assistia ao Fantástico, quando passou uma matéria sobre o movimento grunge que revolucionava a música nos Estados Unidos. Eu passava na sala nessa hora e, de repente, começou a tocar os acordes inicias de ‘Smells Like Teen Spirit’. Eu fiquei paralisado, aquilo foi como um nocaute para mim. Lembrando que estamos falando do começo dos anos 90, quando não existia internet doméstica, quando as revistas de música eram os únicos meios de se conhecer as bandas. Meses depois, pedi de aniversário o ‘Nevermind’. E cada faixa sonorizou um momento, um cenário da minha adolescência. No ano seguinte, o Nirvana veio tocar no Hollywood Rock e, como eu tinha 14 anos, minha mãe teve de me levar. Foi o primeiro grande show da minha vida, ainda que, diante da loucura que foi aquela noite, as lembranças são recortes que pertencem muito mais à memória afetiva. O ‘Nevermind’ fez com que eu me importasse com música, transformou a minha maneira de pensar, de agir, aproximou-me de pessoas que, até hoje, fazem parte do meu grupo de amigos. E, acredito, em maior ou menor grau, teve o mesmo impacto na vida dos outros autores, de toda uma geração. A Cobain é uma maneira de agradecer, de retribuir. E o que tem o ímpeto da gratidão não carece de reconhecimento”.

Leia ‘Cobain: 25 contos inspirados em 25 anos do álbum Nevermind + Bonus Tracks‘, disponibilizado gratuitamente na Amazon. 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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