Entrevista: Leisa Rayven

Em conversa com o Vai Lendo, Leisa Rayven, autora da trilogia ‘Starcrossed’, publicada pelo Globo Alt, falou sobre o amor pelo teatro e pela escrita, a liberdade da mulher na literatura e, claro, o carinho pelos fãs brasileiros e a vontade de visitar o país

Dos palcos para as páginas. Das páginas para a vida, para as nossas estantes e principalmente para os nossos corações. Quando Leisa Rayven decidiu virar escritora, mal sabia ela que iria nos transportar para um mundo sexy cheio de emoções e sentimentos. Autora da trilogia Starcrossed – que inclui Meu Romeu, Minha Julieta e Coração Perverso -, publicada pelo selo Globo Alt, foi no teatro que ela se descobriu, amadureceu e aprendeu que poderia assumir outros papéis em sua vida, como o de escritora. Com várias peças de sua autoria produzidas na Austrália, a literatura veio para complementar a personalidade artística. Com uma história no teatro, impossível não relacionar as duas realidades (dos palcos e da escrita) em seu trabalho, uma vez que ela traz esse cenário para os próprios livros. Para Leisa, incluir os palcos em seu universo literário foi algo natural e que lhe proporcionou boas lembranças.

“Em boa parte da minha vida, eu fui atriz e cantora profissional, mas sempre amei escrever”, declarou ela em entrevista exclusiva ao Vai Lendo. “Na minha carreira, escrevi várias peças de sucesso que foram produzidas e encenadas na Austrália, então, me sentia bastante confortável como escritora de peças. Mas nunca cheguei a tentar escrever um romance. Quando a ideia para Meu Romeu e Minha Julieta surgiu, eu sabia que só iria funcionar em livro. A regra de ouro para os autores é ‘escrever sobre o que sabe’, então, ambientar a história de amor desses personagens no mundo do teatro fez total sentido para mim. Eu realmente adoro escrever sobre uma escola de teatro, me traz lembranças maravilhosas sobre a época em que eu era uma estudante de artes dramáticas. Para mim, a maior diferença entre escrever um romance e uma peça é o fato de que, na peça, o diálogo é a única ferramenta que você tem para construir os seus personagens e o seu mundo. Não é necessário escrever descrições mais aprofundadas de ambientes ou ações. Tudo pode ser resumido ao que as pessoas falam uma para a outra. E isso é especialmente difícil. Agora, no que diz respeito a um romance, eu comecei com um diálogo e segui a partir dali. Inclusive, demorei um pouco para me acostumar a escrever todos esses extras, mas estou começando a pegar o jeito (risos). Sem dúvida, eu adoro escrever romances. Autores são como um grande teatro cheio de pessoas que representam uma só. Como uma autora, eu posso ser uma atriz, diretora, produtora e designer. Eu sou um pouco controladora, então, ter todo esse poder é incrível!”.

Com tanto talento e criatividade, de onde vem a inspiração? Leisa contou que a ideia para Ethan e Cassie surgiu ao assistir à versão de Romeu e Julieta de Baz Luhrmann (e, por isso, os títulos dos livros). Ela explicou, inclusive, que viu a necessidade de construir uma nova personalidade para Romeu para explorar e explicar  justamente o seu lado passional, a sua dificuldade de se relacionar. Estreando na literatura logo com uma trilogia, Leisa afirmou que não sofreu com a pressão de expandir o seu próprio universo, mas confessou o receio de não conseguir gerar tanta empatia nos leitores com um novo protagonista masculino, uma vez que Ethan caiu instantaneamente no gosto (e no coração) do público. E, para quem deseja saber se Ethan e Liam são “reais”, Leisa garantiu que os dois personagens são, sim, inspirados em alguém, mas não apenas em uma pessoa. Eles são, de acordo com ela, “mais uma combinação de quatro a cinco pessoas diferentes”. A única exceção, ela confessou, é Josh, de Coração Perverso, que foi basicamente inspirado em seu melhor amigo homem, Tod (apesar de ela não ter contado isso a ele).

“Eu estudei Romeu e Julieta tanto no colégio quanto na escola de teatro e sempre detestei o Romeu por ser tão inconstante, chorão e imaturo”, indicou. “Então, decidi criar uma versão moderna desses amantes. Eu queria explorar um Romeu tão afetado, tão machucado por um relacionamento fracassado que ficaria completamente aterrorizado de se envolver intimamente com uma mulher, outra vez. Qualquer mulher. Sobretudo alguém como Julieta, por quem ele ficou extremamente atraído. Quando comecei a pensar nessa nova versão do Romeu, não conseguia parar. Então, cada momento que eu tinha, eu escrevia. Cassie e Ethan consumiram o meu cérebro por quase dois anos, e eu acabei com dois livros muito longos, que foram editados até chegarem à versão publicada. E, quando eu assinei o meu primeiro contrato de publicação, era para três livros. Mas chegou um momento em que não sabíamos sobre o que seria esse terceiro nem se seria no mesmo universo de Ethan e Cassie. Foi durante a edição de Minha Julieta que meu editor na Macmillan New York deu a ideia de escrevermos sobre a Elissa, irmão do Ethan. Eu fiquei tão feliz de podermos ver mais da Elissa. Ela sempre foi uma personagem muito divertida de escrever e eu adorei explorar esse lado romântico e apaixonado dela com o delicioso Liam Quinn. Só não consigo dizer sobre quem eu gostei mais de escrever (ela ou Cassie). A minha maior preocupação ao escrever Coração Perverso foi a reação dos leitores a respeito de Liam. Será que eles seriam tão receptivos quanto foram com Ethan (o senhor Holt tem uma legião de fãs muito apaixonadas por aí)? Contudo, à medida em que as resenhas foram saindo, fiquei emocionada de ver que Liam também tem fãs apaixonadas. Alguns leitores, inclusive, preferem ele a Ethan, o que me surpreendeu prazerosamente. A jornada de Elissa e Liam é diferente da de Cassie e Ethan, mas os leitores parecem estar aproveitando a leitura da mesma forma, o que é maravilhoso”.

Divulgação

O sucesso dos livros de Leisa Rayven se deve principalmente à sua escrita detalhista, leve e sensível, que não apenas constrói e desconstrói o ser humano e expõe a sua fraqueza, os seus receios, inseguranças e sua capacidade de superação e, acima de tudo, de amar intensa e verdadeiramente, mas que é capaz de promover também um misto arrebatador de emoções e elevar a temperatura (literalmente). Ousada e sexy na medida certa, Leisa criou uma química alucinante e excitante entre seus protagonistas. A escritora exaltou o momento atual de liberdade criativa e sexual na literatura, principalmente das mulheres, e apontou que é mais difícil escrever cenas de amor do que de sexo, na verdade.

“Para mim, escrever uma boa cena de amor é difícil, enquanto cenas de sexo (mais respostas físicas do que emotivas) são mais fáceis”, disse. “Eu realmente tento me colocar no lugar da personagem quando eu escrevo cenas em que os personagens fazem amor e tenho esse hábito esquisito de fechar os olhos, porque eu consigo ver a cena claramente na minha cabeça. Como num filme. Quando eu escrevo essas cenas muito apaixonadas, eu preciso ter uma resposta emotiva visceral ao que está acontecendo ou então eu sei que as emoções na página serão superficiais e falsas. Se eu não sentir essas palpitações, essa quentura, enquanto estou escrevendo, minhas garotas vão acabar fingindo o seu prazer nos livros. Fico feliz de ver que a sexualidade feminina está sendo mais aceita na literatura. Eu acho que os livros de romance eram uma espécie de prazer secreto para algumas mulheres, mas, quando 50 Tons de Cinza quebrou todos os recordes de best-sellers, as grandes editoras perceberam que as mulheres têm um poder de compra enorme nesse universo literário, além de uma fome, uma necessidade fervorosa por histórias que a deixem excitadas, emocional e sexualmente. Eu sempre me incomodei com o fato de os livros Young Adults poderem ter inúmeras cenas de morte e de violência, mas absolutamente nenhuma cena explícita de sexo. Qual é a mensagem passada para as nossas jovens mulheres? Que violência é aceitável, mas prazer não? Isso é loucura. Eu gostaria de ver mais cenas realistas de sexo nos livros Young Adults para que as adolescentes tenham controle de seus próprios corpos e sejam totalmente educadas sobre o que elas devem esperar de um amante, em vez de aceitarem esse padrão conservador da sociedade de serem apenas uma ferramenta ou um canal para o prazer masculino”.

Foto: reprodução

Mesmo já tendo uma vasta carreira no teatro, foi na internet, de fato, que Leisa se descobriu escritora de romances. Ela, que começou a escrever com fanfictions, exaltou a segurança e a preparação que a internet lhe proporcionou. Para a autora, uma das principais vantagens foi justamente a formação de seu próprio público, que lhe acompanha desde as redes sociais até hoje. E, por falar em público, Leisa não escondeu o carinho e a gratidão pelos leitores brasileiros – que a tornaram best-seller por aqui – e garantiu que planeja visitar o país em breve.

“Escrever fanfiction me deu acesso a um ambiente seguro, no qual eu pude me expressar através da minha escrita”, explicou. “Eu não seria a escritora que sou hoje se esse não tivesse sido o meu ‘campo de treinamento’. Minhas primeiras fanfictions eram muito ruins, mas, depois de muita prática e milhares de palavras publicadas em sites gratuitos, minha técnica evoluiu e os maravilhosos e motivadores leitores que eu ganhei me deram coragem para tentar publicar a minha obra. Eu fico profundamente emocionada de alguns desses leitores que viraram meus fãs nas primeiras fanfictions ainda estarem comigo, apoiando o meus livros, o meu trabalho e literalmente serem também algumas das pessoas mais incríveis na minha vida. Eu também conheci alguns dos meus melhores amigos escritores nessa época, quando todos escrevíamos fanfictions juntos. Pessoas como E.L. James, Christina Lauren, Alice Clayton, Helena Hunting, Debra Anastasia, Shay Savage e muitos outros são amigos há anos. Nós todos começamos e batalhamos nesse mundo das fanfictions, e eu tenho o maior orgulho de ver tantos de nós nas listas de best-sellers ao redor do mundo. Eu acho que a internet, no geral, e as fanfics, em particular, definitivamente facilitaram para os autores encontrarem as suas vozes, isso sem falar o seu público. Anna Todd escreveu uma das fanfics mais populares de todos os tempos no Wattpad e rapidamente conseguiu um contrato de publicação. Acredito que os editores estejam mais dispostos a arriscar e a apostar em autores iniciantes que já chegam com o seu próprio público. Eles entendem que uma porcentagem das vendas desses autores famosos na internet é garantida, e isso, para mim, é um negócio certo. Hoje em dia, a internet permite que os autores falem diretamente com os seus fãs, o que é fantástico! Eu, por exemplo, fico encantada com a recepção dos meus livros no Brasil. Adoro os meus leitores brasileiros! São tão incrivelmente apaixonados e apoiadores. Visitar o Brasil é um sonho e está na minha lista de desejos para 2017! Teremos que esperar para ver o que acontece”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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