Entrevista: Raffa Fustagno

Em entrevista ao Vai Lendo, Raffa Fustagno, a blogueira responsável pelos eventos da Menina, fala sobre viver a experiência inversa ao lançar o seu primeiro livro

Raffa Fustagno
Raffa Fustagno / Divulgação

Ela é responsável por aquele momento marcante na vida de um leitor quando encontra o seu autor preferido. Seus eventos são bastante conhecidos aqui, no Rio de Janeiro, bem como a sua trajetória no blog A Menina Que Comprava Livros, que mantém há seis anos. Agora, Raffa Fustagno vive, pela primeira vez, a experiência inversa. É ela que as pessoas querem ver e são os seus livros que as pessoas vão comprar, ler e resenhar. Em sua primeira obra, O Livro da Menina, publicado pela Babilonia Cultura Editorial, ela nos diverte com suas próprias histórias de eventos literários, encontros com ídolos, divide com os leitores opiniões sobre filmes, atores e ainda traz conteúdos interativos. Basicamente, o livro é o espelho de sua autora: carismático e divertido.

“Eu amo livros interativos”, declarou. “São uma mania; quando veio a moda comprei todos que lançaram e ainda os compro, então, fazer um livro sem interatividade acho que não teria a minha cara. A editora veio com as ideias, eu fui escrevendo do meu jeito e claro que teve um corte aqui ou um ajuste ali, mas a essência do que sou nesses anos de estrada (porque são seis anos de blog, mas atrás de autores eu vou desde 2005!) está toda lá. E eu não poderia ter ficado mais feliz quando vi as ilustrações do Cadu França. Ele parecia me conhecer há séculos. As atividades não foram fáceis de fazer, não, as palavras cruzadas, então, deram muito trabalho, e o teste também foi mudado umas três vezes. Nunca escrevi um livro com uma história só, o outro que tenho são crônicas, então, imagino que seja muito mais difícil, mas o desafio de manter o interesse do leitor no livro creio que seja o mesmo. Só acho que tem que ter uma memória maravilhosa para lembrar de detalhes quando você escreve uma longa história e ela dura meses ou um ano inteiro. Claro que ler me ajudou muito a compor cada página, minha média de livros lidos é de 5 a 10 por mês; ler sempre ajuda, faz bem para alma e para mente”.

raffa-fustagno-o-livro-da-menina-3

Formada em Jornalismo, por maior que fosse a sua paixão por livros, Raffa acreditava que a escrita seria algo referente à sua profissão. Por isso mesmo, com essa nova experiência, ela teve que lidar com a ansiedade dos escritores e disse esperar se aproximar ainda mais dos seus leitores, principalmente daqueles que a distância não permite ter um contato ainda maior.

“O convite (para o livro) surgiu através da Babilonia Cultura Editorial, minha editora”, explicou. “A Michelle (Strzoda), que é a editora, já tinha participado do evento da Menina duas vezes e em uma participação que fiz no Estação das Letras ela me fez o convite. Não fiquei nervosa durante nenhum momento da escrita ou da divulgação, mas confesso que me deu um frio na barriga o dia do lançamento, que imaginei que não fosse aparecer ninguém. Felizmente, 70 pessoas foram, o que me deixou muito feliz. Sempre tive vontade de escrever, mas me imaginei escrevendo matérias jornalísticas e, quem sabe, fazer um livro sobre algum dos temas das reportagens, algo que o Caco Barcellos faz brilhantemente, por exemplo. Mas meu livro é bem diferente, é sobre o blog, os eventos e meus encontros com autores e atores nesses seis anos de estrada. Espero que meu livro e suas histórias cheguem para outros estados, já que acabo ficando muito restrita ao Rio por causa dos eventos que faço na cidade. No blog eu chego mais longe e com o livro espero fazer o mesmo”.

raffa-fustagno-o-livro-da-menina-foto-1

Apesar da nova empreitada, Raffa não se mostrou receosa em estar no lugar que lhe deu o reconhecimento. Pelo contrário. A agora escritora se mostrou aberta às críticas e às resenhas, principalmente por saber que isso faz parte do processo e da sua nova realidade. Quanto ao público, ela ressalta que sempre há renovação, especialmente quanto se trata de eventos, mas que isso não é algo ruim. É apenas questão de interesse e identificação, segundo ela.

“Sempre tive muito respeito para falar de livros, ainda mais nacionais, porque o autor poderia ler e se magoar com o que escrevesse”, declarou. “Então, mesmo quando não curtia, eu não fazia uma resenha ‘esculachando’, como vejo blogueiros e, às vezes, até críticos especializados fazendo. O que é ruim para mim pode ser uma obra-prima para você e vice versa. Quando eu falo de filmes, sinto que tenho uma liberdade maior, porque é bem improvável que um ator de Hollywood, por exemplo, entre no blog e leia o que achei da produção. Leio todas as resenhas que saem e, por enquanto, têm sido boas, mas estou preparada para as críticas, apesar de saber que meu livro são crônicas com interatividade. Então, fica mais difícil decepcionar leitores, já que espera-se que eles já saibam o que encontrarão pela frente. Quanto ao público, o dos eventos também muda e isso é sempre. Tem gente que ia em eventos em 2011 que, hoje, nem está mais no mundo dos livros, tem gente que fez sucesso com seu próprio blog ou canal e não aparece mais – imagino que ache que não precisa mais participar. A verdade é que o público muda. Imagino que vá acontecer isso com o livro também, tem gente que vai se identificar com aquele momento e gente que vai achar que já passou daquela fase. A diferença é que para mim e para muitos não é fase, eu posso ter 60 anos e continuar indo a filas de autógrafos e correndo em Bienais para pegar senha. Ah, claro, também posso continuar entrevistando autores, mas, talvez, passe mais tempo sentada nos eventos”.

Por falar em eventos, Raffa exaltou a evolução dos eventos da Menina, ao longo dos anos, mas apontou também as dificuldades e obstáculos em realizá-los, uma vez que tudo é feito basicamente por amor e sem maiores recursos. E destacou a emoção ao ser ela mesma a convidada para um evento literário como autora.

“Eu amo mediar encontros, mas é uma doação imensa”, contou. “Quem nunca fez evento, talvez, não imagine que precisamos ler o livro inteiro, montar brincadeiras, gastar com táxi, com brindes… Sim, muitas vezes – senão todas as vezes-, no evento da Menina, eu tirei do meu próprio bolso. A única coisa que peço é que as pessoas compareçam, porque sem público eu fico em casa. Entrevistar autores é algo que começou no terceiro evento da Menina ( estamos indo para 27ª edição) e deu certo, tanto para os autores que são divulgados quanto para os leitores que conhecem novos escritores e ainda podem sair com livros. Ou quando já os conhecem, têm a oportunidade de ver os autores de pertinho e garantirem seus livros autografados. Para mim é um imenso prazer levar autores ao evento e só o que quero é que a livraria lote. Fico muito feliz entrevistando-os, mas claro que exige dedicação porque nem sempre a agenda bate, nem sempre eles aparecem na data combinada, e improviso é tudo nessa vida. O evento que mais me marcou foi o de abril de 2015 porque recebi a Thalita Rebouças e eu sou fã dela de carteirinha. Foi o que, até o momento, teve o maior público, com 180 pessoas. Meu primeiro evento como autora foi na Primavera Literária, agora em novembro, e eu nem acreditei quando vi que quem me entrevistaria seria a Simone Magno. Perdi as contas de quantos bate-papos eu a vi fazer em Bienais e, agora, estar sendo entrevistada por ela era tipo ‘oi, isso está acontecendo? É verdade?'”.

o-livro-da-menina-raffa-fustagno-4

Com alguns anos de experiência, Raffa ainda falou sobre a importância dos blogueiros e booktubers para o mercado editorial, destacando a determinação e a força de vontade para que o trabalho seja levado a sério, mesmo com a rotina puxada.

“As editoras sabem a importância que temos”, afirmou. “Não por acaso, fazem ações em parceria o tempo inteiro. Quando um blogueiro ou booktuber fala bem de um livro, é muito mais fácil que aquele seguidor que obviamente ama livros compre o exemplar do que a resenha sair em uma revista onde os interesses dos leitores são diversos e que, de repente, eles acabem nem comprando o livro. No momento, infelizmente não estou trabalhando, mas a vida inteira foi dividindo o trabalho intenso com preparar brindes paro evento, esperar o horário de almoço para mandar email pedindo apoio para editora, ir ao banheiro para responder o inbox do autor que topou a data do evento que você o convidou…Para ter ideia, eu escrevi o meu livro durante a Rio 2016 e eu trabalhei no projeto. Era intenso. Eu trabalhava de domingo a domingo, entrava cedo e saía tarde e mal dormia, voltava para casa e escrevia. Fiz quase um cosplay de zumbi de The Walking Dead. Mas se me comprometo com algo eu cumpro. Um exemplo é que, antes do evento, eu aceitava receber livros de autores nacionais querendo divulgar seu trabalho, mas hoje eu não consigo, então, só me comprometo com aqueles que estão com data marcada no evento da Menina. E na vida pessoal, meu marido é o cara mais incentivador do universo, ele acompanha, tira fotos e vibra com minhas conquistas”.

raffa-fustagno-o-livro-da-menina-foto-2

Com uma criatividade ilimitada e o talento para se comunicar, Raffa já confirmou que possui um novo projeto literário, além de uma ideia que surgiu em sua última viagem.

“Tenho algo escrito em formato de crônicas sobre relacionamentos”, concluiu. “É um projeto antigo que até publicaria porque dei boas risadas outro dia. Na época, até que não tiveram muita graça, mas, hoje em dia, acho bem bizarro como eu me colocava em situações ridículas por amor. Não falo de relacionamentos no blog, mas sempre toco no assunto nos eventos quando algum livro do autor convidado envolve o tema. E ainda não comecei, mas estou com algumas ideias na cabeça de uma história que surgiu na minha última viagem à Atlanta e que, contando para algumas pessoas mais próximas, eles acharam legal…Quem sabe não vira um livro?”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.