LER – Salão Carioca do Livro: um papo com Pedro Doria

Em conversa exclusiva com o Vai Lendo durante a LER – Salão Carioca do Livro, o jornalista Pedro Doria destacou o caráter transformador do evento na vida cultural da cidade e a nova experiência literária

Dentre as mais variadas experiências que a LER – Salão Carioca do Livro proporcionou aos seus visitantes, a oportunidade de poder esbarrar, conversar e ver alguns dos maiores nomes do Jornalismo e da Literatura certamente foi uma das melhores. E o Vai Lendo pode vivenciar isso em alguns momentos, como o encontro com o jornalista e escritor Pedro Doria, com quem tivemos o prazer de ter uma conversa exclusiva, um pouco antes de Doria seguir para o seu bate papo no espaço Café do Livro.

Colunista do jornal”O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e da “CBN” e autor de sete livros, Doria destacou a importância da realização do evento não apenas para fomentar a leitura entre a sociedade, mas também para reaproximar a população do Centro do Rio.

“A LER é super importante”, declarou Doria. “O Rio estava precisando de uma festa literária. E, tem mais, não é só existir o evento. É também o lugar em que o evento está acontecendo. Eu fiquei um tempo morando fora do Rio e uma das coisas que me chamou atenção quando eu voltei, em 2011, é como o CCBB e a casa França- Brasil encheram de fazer fila nos fins de semana. O carioca queria vir para o Centro. Ele procurava uma atividade cultural mais rica no Centro da cidade. E toda essa obra que envolve o MAR, o Museu do Amanhã, deu um novo significado para essa região toda, um peso cultural e transformou isso em passeio de fim de semana para a família. Isso é mágico. O barato é que tem respostas. As pessoas vêm. O lugar está cheio”.

pedroPara o jornalista, o evento ofereceu uma nova experiência literária ao reunir outras atividades, aproximando ainda mais os leitores dos autores e de suas obras.

“As pessoas estão vivenciando uma experiência, isso é demais”, comemorou. “Estava faltando colocar o livro no centro dessa atividade cultural. Nós temos percebido isso com mais frequência. O leitor quer o encontro com o autor. Quer conversar com o autor. E os autores estão percebendo isso também. Há esse retorno. É fundamental para os livros futuros que você comece a entender o que as pessoas querem. O que as pessoas buscam”.

Doria, que é também um dos criadores do Meio (startup que reúne tudo o que aconteceu de importante no dia em 8 minutos”, exaltou ainda o papel da internet no que diz respeito à acessibilidade da informação. Contudo, ele também apontou os desafios que a rede mundial de computadores impõe ao facilitar o acirramento da polarização política e ressaltou ainda que todas as revoluções tecnológicas passam por um momento de transição conturbado.

“A internet é um meio de comunicação extraordinário e barateou muito o acesso à informação”, explicou. “Hoje, alguém no interior da África tem acesso a mais livros do que qualquer pessoa dentro da biblioteca do congresso  americano, que é a maior biblioteca do mundo. É evidentemente que é uma revolução formidável. Mas nem tudo é necessariamente bom. Existe um processo de polarização política, de intransigência. Pessoas que não conseguem mais encontrar  um espaço de conversa porque são extremos diferentes, de posições ideológicas diferentes… E o acirramento dessa polarização, que é gerado um bocado pela internet, trava a democracia. A democracia se dá quando um cede e o outro também cede. Se você não está disposto a sequer ouvir o outro, ferrou! O convívio com opiniões distintas, esse é o principal desafio que a internet impõe hoje. Há acesso à informação. Há atividade. A internet é fundamentalmente um transformador. Eu acho que, pela história de todas as revoluções tecnológicas na comunicação, o mundo sempre termina melhor quando mais informação é difundida, mas o processo costuma ser muito conturbado ali no meio. E, nesse início, como em todos os outros inícios, nós estamos vivendo um momento desafiador”.

Com a crise econômica que ameaça e apavora todos os setores da sociedade, o jornalista apontou a necessidade de repensar a política de educação e principalmente descentralizar as gestões.

“É preciso urgentemente repensar a política de educação”, concluiu. “Isso quer dizer que você vai precisar fazer um plano de aumento de salários de professores, um plano de reforma da estrutura educacional. Os professores vão ter que passar por avaliações. E professores melhor avaliados deverão receber salários melhores. Eu provavelmente descentralizaria, daria mais independência para as prefeituras nas gestões. A gente está falando de um processo muito longo que vai ter efeitos só a médio prazo. Quando você fala especificamente de cultura, o dinheiro acabou em tudo. E cultura não vai deixar de ser afetada por isso. Haverá menos dinheiro para a cultura porque o dinheiro acabou para tudo. Agora, se ao final dessa revolução, no final dessa transformação, o patrimonialismo, a prática dos governantes de tratar coisa pública como sua for mais coibida, como parece que está sendo coibida, se isso não for a chama de um momento, mas se mostrar algo durável, para a cultura e para a educação vai ser espetacular. Para o Brasil vai ser espetacular. Mas ainda está um pouco cedo para dizer se essa coisa vai acontecer ou não”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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