LER – Salão Carioca do Livro: Pam Gonçalves, da internet às livrarias

No bate papo com os leitores, Pam Gonçalves falou sobre o processo de escrita de seu primeiro livro solo, as dificuldades e expectativas, e deu dicas aos novos autores

O último dia da LER – Salão Carioca do Livro foi marcado por inúmeras atividades e bate papos dos mais variados, um dos pontos principais do evento, ao longo de seus quatro dias. O Espaço Jovem foi um dos mais concorridos devido à presença de alguns dos autores mais populares atualmente, tanto nas páginas quanto nas mídias. Boa parte, aliás, surgiu na internet e formou um público cativo e dedicado. Entre eles, Pam Gonçalves. Com milhares de inscritos em seu canal, a booktuber fez sucesso indicando livros até publicar o seu próprio, Boa Noite, lançado pela Galera Record. Durante a conversa com os leitores, Pam falou sobre essa transição do canal para a sua obra literária, as dificuldades no processo de escrita, bem como o cuidado com o tema delicado abordado em seu livro, e deu dicas para quem deseja ingressar no mercado editorial.

Foto: página oficial da Pam
Foto: página oficial da Pam

Com uma narrativa própria, Boa Noite se destaca ao trazer o debate sobre o abuso sexual nas faculdades brasileiras, além do uso de drogas e outros percalços dos jovens. Para escrever o livro, Pam ressaltou a preocupação em levantar o assunto de maneira direta e objetiva, porém, sutil.

“Eu fui reunindo informações sobre abuso sexual em faculdades brasileiras”, explicou ela. “Quando eu fechei o contrato com a editora, já sabia que iria escrever sobre isso. Eu queria escrever sobre isso porque falta a gente falar sobre esse assunto. Muitas vezes, esse é um tema que fica fechado dentro da própria faculdade. Eu não passei por essa experiência, então reuni muitas reportagens sobre esses casos, pesquisei muito. O que eu tenho mais de experiência é no dia a dia dos personagens. Um dos meus maiores medos era que ficasse superficial ou deturpasse a experiência da pessoa. Que prejudicasse quem já passou por isso. Eu aproveitei justamente a oportunidade de falar com os jovens brasileiros que estão indo para ou já estão na faculdade. Falar sobre o que é a faculdade e principalmente debater o que não é debatido na sociedade. O fato de sofrer abuso sexual é desmerecido porque acham que vai manchar o nome da faculdade, por exemplo. Mas, se a gente se unir, a gente consegue debater sobre isso e combater. Eu queria que as mulheres soubessem que elas são capazes e podem fazer o que quiser e mudar uma realidade”.

Pam, que começou em 2009 em um blog, já havia lançado outro livro pela Galera Record, mas em parceria com outros três booktubers – O Amor nos Tempos de #Likes -, destacou as diferenças entre os processos de escrita dos dois livros e ressaltou que com o seu primeiro livro solo ela precisou aprender a lidar com as críticas e as pressões do mercado editorial.

“Os dois processos foram muito diferentes porque o primeiro livro eu escrevi com amigos próximos”, afirmou. “Era divertido e nós passávamos por tudo juntos. Dividíamos as responsabilidades. A escrita de Boa Noite foi mais solitária. Eu tinha que lidar com prazos e fui consultando meus amigos e outros autores que já tinham passado por essa experiência. Eu relutei muito para escrever porque tinha medo de como seria a recepção. Eu sempre falei dos livros dos outros e agora falariam sobre o meu. Foi um trabalho em conjunto com a minha agente. Foi bem difícil. Eu sou muito difícil para lidar com críticas porque quero fazer tudo ao máximo para não ter crítica ruim, mas é claro que acontece. E eu tive que aprender a lidar e a saber aproveitar essas críticas negativas. Ainda estou me acostumando, mas é difícil”.

Foto: divulgação
Foto: divulgação

Focada no lançamento dos livros entre 2015 e 2016, Pam admitiu que pretende reformular o seu canal no Youtube, acrescentando mais dicas sobre escrita. Sobre o sucesso na internet, ela exaltou a participação e o carinho do público formado, ao longo da sua trajetória,destacando a importância de o autor estar presentes nas redes sociais para se fazer conhecido. No entanto, a agora escritora também apontou o lado negativo da exposição quando as pessoas passam a cobrar por certas atitudes e opiniões que fogem do seu controle.

“Eu estou num processo de repensar o canal, porque esse ano me dediquei mais aos livros”, declarou. “Não acho que vai mudar muita coisa, só incrementar o conteúdo. Eu continuo indicando livros, mas estou incluindo vídeos sobre escrita porque tem muitos leitores que também sonham em escrever. A internet é fundamental. Por eu já ter esse público foi um pouco mais fácil porque eles já me conheciam. Qualquer autor que quiser publicar tem que criar um público na internet. Apesar de as editoras estarem procurando mais autores nacionais, eles observam quem tem mais potencial de retorno. O Wattpad ajuda muito. As editoras estão olhando o Wattpad também. O lado ruim é que com o canal a responsabilidade aumentou. No começo, eu só queria divulgar livros, mas chegou num momento que não dava mais, e as pessoas ainda acham que eu tenho esse dever de mostrar todos os livros, mas eu não consigo. Não tenho esse poder todo. Eu sempre tentei indicar os livros que eu gosto. É difícil as pessoas aceitarem que eu não vou indicar todos os livros e eu lidar com isso”.

Foto: Vai Lendo
Foto: Vai Lendo

Por outro lado, Pam também enalteceu a abertura que a internet deu aos jovens para eles se comunicarem melhor entre si e se encontrarem.

“Ter contato com pessoas que gostavam das mesmas coisas que eu foi essencial porque eu me sentia numa bolha quando era adolescente”, concluiu. “Ter encontrado um porto seguro nessas comunidades virtuais. Depois, esse público me proporcionou conhecer autores que eu tanto amava e conversar com eles sobre livros e publicar o meu livro. Eu escrevi um livro, as pessoas estão lendo e recebendo as mensagens, me agradecendo e se inspirando. Isso é espetacular.

E, para aqueles que sonham em ser escritores, a dica da Pam é persistir até o fim e, acima de tudo, concluir as suas histórias.

“Trabalhe muito na sua história, escreva, termine o seu livro. De qualquer jeito porque você sempre vai mudar na revisão. Para conseguir uma editora é essencial fazer o seu público porque eles procuram alguém que já tenha essa experiência. Faça com que esse público tenha engajamento para que eles comprem o livro. E sempre pesquise muito antes de aceitar propostas de editoras e agentes literários. Procure profissionais sérios. As editoras querem publicar. Estão atrás de autores nacionais, mas estão peneirando. Não desista e tenha paciência”.

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Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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