LER – Salão Carioca do Livro: a crônica digital de Cora Ronai e Anderson França

No segundo dia da LER – Salão Carioca do Livro, Cora Ronai e Anderson França, o Dinho, debateram sobre a influência da internet e das redes na literatura, nas notícias e na sociedade

Inteligência, carisma, coerência e bom papo. Podemos definir assim a Crônica Digital que aconteceu nesta sexta-feira (24), no segundo dia da LER – Salão Carioca do Livro, com a presença da jornalista Cora Ronai e do escritor Anderson França, mais conhecido como Dinho na internet. Aliás, a influência da rede mundial dos computadores na literatura e no nosso dia a dia foi o tema principal da conversa, e a dupla defendeu as redes sociais como uma forma de aproximar o diálogo entre pessoas de diferentes lugares.

Cora Ronai e Anderson França/Foto: divulgação LER
Cora Ronai e Anderson França/Foto: divulgação LER

“Acho que, às vezes, a comunicação mais digital não é entre você que está num lugar e outra pessoa que está numa cidade ou país diferente, por exemplo”, declarou Cora. “Às vezes, é com você que está na Zona Sul e também quem está na Zona Norte, Zona Oeste do Rio. Acho que o Dinho é um espetáculo porque ele é uma ponte entre duas cidades. As pessoas falam mal da internet e das redes mas, se não fosse, essa conexão, eu não conheceria o Dinho, por exemplo, não teria esse prazer”.

“Eu sou o cara que viveu a vida toda na Zona Norte e, hoje, através das palavras, alcanço quatro milhões de pessoas”, completou Dinho. “É mais do que muito jornal por aí. E poder falar com pessoas de todos os lugares e posições é muito importante. O pensamento de todo mundo é válido, independente de lado. A gente propõe uma discussão de ideias”.

Por serem duas pessoas completamente ativas nas redes sociais e formadores de opinião, Dinho e Cora falaram também sobre os ataques dos chamados trolls e principalmente das dificuldades de se agradar todo mundo. Para eles, a bolha do mundo virtual reflete o comportamento real da sociedade e limita a capacidade de interpretação de texto das pessoas, influenciando, na maioria das vezes, nas informações transmitidas.

“Eu tenho uma leitura específica sobre essas bolhas”, indicou Dinho. “Eu apanhei muito por causa das críticas que fiz ao PSOL. Eu disse que eles não vencem nas Zonas Norte e Oeste. Disseram que eu estava errado, que era de direita. Aí, eu disse para esperarem para ver. Vieram as eleições e os dados do TRE informando onde eles foram eleitos. O Freixo foi eleito na Zona Sul, Centro e Tijuca. E o Crivella, em todo o resto. Então, eu tive um prazer quando publiquei isso. Tá vendo, é para a gente aprender. A gente tem que aprender com a classe trabalhadora. Eu sou escritor da classe trabalhadora, eu vivo aqui. Vocês não querem ouvir. A bolha que se cria na internet é um reflexo das bolhas que já existem fora da internet. Antes mesmo do Facebook. A política não pode ser feita de bolha, por exemplo. É para absorver todo mundo. É um reflexo da forma como a gente se congrega e reflete muito mais aqui fora, em como estamos convivendo, do que com a realidade do computador”.

Cora, por sua vez, ressaltou ainda a necessidade de as pessoas se abrirem a novas opiniões, novos pontos de vista e principalmente de checar as informações passadas.

“Eu tento estourar a bolha, mas é muito difícil”, ela afirmou. “É um equívoco tentar jogar a responsabilidade da eleição do Trump, por exemplo,  em uma ou duas companhias, como o Facebook. Eu não quero que essas companhias decidam o que eu vou ler. A questão das notícias falsas e da repercussão, a notícia só é repercutida por gente que já tem aquele ponto de vista. Ela reforça uma posição que a pessoa já tem. A internet não muda a opinião de ninguém. Não adianta inventar uma notícia falsa. A notícia verdadeira ruim não muda o voto de alguém, por exemplo. Mais do que tentar furar a bolha é tentar se desarmar na vida real. O online é consequência do real, como o Dinho disse. Eu acho que há uma coisa que funciona nos jornais e em toda a mídia, que é o fato de o jornalista ser o curador de notícia. Nenhum jornal nunca deu tudo o que tinha que dar, porque não tinha espaço. A internet tem o espaço, mas não tem tanto jornalista para filtrar o conteúdo. Já vi tanta interpretação de texto bizarra. A pessoa acaba lendo o que quer e vai interpretar aquilo do jeito que quer, mas a pessoa tem que saber checar a notícia. Mais do que lutar contra a notícia falsa é ensinar as pessoas a checar a notícia. Isso é tão simples”.

Foto: Vai Lendo
Foto: Vai Lendo

Sobre a transição da internet para as páginas do livro, Dinho declarou que foi uma jornada natural, a partir do convite que recebeu da Companhia das Letras para reunir as suas crônicas em uma única obra. O autor também apontou que com o seu livro, Rio em Shamas, ele trabalha a própria autocrítica e confirmou que a inspiração para suas crônicas vem do próprio cotidiano carioca.

“Quando eu critico a Zona Sul, algumas pessoas acham que é ao pé da letra, que se trata do Leblon, da própria Zona Sul”, disse ele. “O livro fala de uma determinada classe média brasileira que se descolou da realidade. Não tenho raiva do Leblon. Se pudesse, todo mundo seria Leblon, Ipanema… Só acho que existem coisas que acontecem lá que a gente precisa olhar para se questionar. Eu preciso fazer as minhas autocríticas e uso a Zona Sul para amplificar o que nós somos. Porque na Zona Norte também tem coisas engraçadas acontecendo. Eu já vi racismo na Zona Norte, por exemplo. A gente dialoga nas crônicas com esse carioca, com o maluco. Na Zona Norte, você é um cara, na Zona Sul, outro, na Zona Oeste, outro. É natural que o carioca seja esquizofrênico. Aí, eu vou nesse espaço. Por isso, não me sinto um escritor. Escritor mesmo era o João Ubaldo Ribeiro. Eu sou um pilantra. Eu vejo um RJTV e vou escrevendo uma crônica. A transição para o livro escrito foi mais por causa da editora e tem sido uma novidade, uma coisa incrível. Gente de todo lugar tem lido, é muito bacana”.

Por falar em crônica, Cora também defendeu que a crônica é “a internet antes da internet” e concluiu que a exposição excessiva nas redes atualmente é consequência da busca por uma identidade.

“A crônica é um texto relativamente pequeno sobre um fato cotidiano em primeira pessoa”, explicou a jornalista. “É o que acontece na internet. A crônica nasceu para a internet. É o textão do Facebook de hoje. Funciona muito bem hoje para a internet, e eu acho que vai continuar forte. É um gênero muito brasileiro. Sobre a exposição, eu tenho um pensamento. Nós, como humanidade, nascemos em pequenas aldeias e no nosso pequeno grupo original todo mundo sabe quem é todo mundo. Em cidade pequena isso fica muito claro e se perdeu na cidade grande. Mas a gente precisa disso, que as pessoas saibam quem a gente é. Esse excesso de exposição vem da necessidade que a gente tem de saber qual é o nosso lugar e das pessoas saberem o que a gente representa. É uma sensação de pertencimento que se perdeu no mundo urbano, e a gente tenta resgatar através da internet”.

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Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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