Entrevista: Marcia Rubim

Em entrevista ao Vai Lendo, Marcia Rubim fala sobre a sua paixão pelo sobrenatural, o fim da sua série ‘Adeus à Humanidade’ e o amor pelo livros, que surgiu da infância

A paixão que veio de berço. Que saiu das histórias que ouvia para os livros que passou a escrever. A afinidade com o sobrenatural que a tornou muito viva na mente dos leitores. De um simples prazer ao profissionalismo, Marcia Rubim, autora da série Adeus à Humanidade, conquistou uma legião de fãs e mostrou que o gênero não se limita apenas às obras estrangeiras.

“Meu contato com o mundo literário veio mesmo muito cedo”, contou Marcia ao Vai Lendo. “Meu pai era professor de matemática, mas amava ler de tudo e vivia nos incentivando a fazer o mesmo. Para se ter uma ideia, quando ele faleceu tivemos que doar uma biblioteca com um acervo de cerca de 7 mil livros…Eu sempre tive o hábito de bolar histórias, embora nunca sequer tivesse pensado em publicá-las. Em 2010, a trama de Adeus à Humanidade me veio inteirinha à mente. Escrevi sem qualquer propósito maior, mas acabou virando um vício tão grande que os amigos começaram a perceber minhas ausências. A partir daí, choveram pedidos para ler a obra. Concordei, mas descrente com os elogios, afinal, eles eram meus amigos, não iriam me criticar. Até que resolvi fazer um teste com uma pessoa que não gostava de ler. Se ela conseguisse terminar a história, mesmo que devagar, eu acreditaria. Pois bem, ela não só leu tudo (e rápido) como devorou o restante da série, e ainda me pediu dicas de livros no mesmo estilo literário. Ou seja: criei um novo leitor para o mundo. Foi aí que a ficha caiu e percebi que eu realmente tinha essa veia de escritora, que as minhas palavras tinham o poder da transformação. De lá para cá, não parei mais. Sou escritora de corpo e alma”.

Foto: Facebook da autora/Divulgação
Foto: Facebook da autora/Divulgação

Com influências que vão desde Anne Rice, André Vianco, PC Cast, Stephenie Meyer até Pedro Bandeira, Jane Austen, Norah Roberts e, “até mesmo o humor escrachado de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)”, Marcia se diz uma romancista eclética que “também escreve sobrenatural”. Com o lançamento do último volume da coleção, Renascer Para a Eternidade, ela afirmou que o mais difícil é realmente desapegar dos personagens e de todo o mundo novo construído. E, para aqueles que já se preparam psicologicamente para a leitura e o turbilhão de emoções que a autora provoca, Marcia avisa que o novo livro é tão intenso quanto os demais e anuncia uma novidade da narrativa.

Se, por um lado, regozijo pelo dever cumprido, por ter agora espaço para alçar novos voos, por outro, é um tanto doloroso”, declarou. “Convivemos muito tempo com os mesmos personagens, então ter que nos despedir deles soa à perda. Só mesmo sendo um escritor para entender isso (risos)! O que posso adiantar para o público em relação ao último livro da série é que ele é tão intenso, emotivo e surpreendente quanto os demais. Sei que costumo deixar os leitores tensos durante a leitura. Meus livros são como uma montanha-russa, com muitos altos e baixos, mas, em geral, não sou má no final. E ainda existe um diferencial neste livro, que será protagonizado pelo personagem que os leitores mais amam, que é o Dr Richard Hacket, e não pela Stephanie. Vale a pena conferir!”.

Como todo trabalho literário que possui mais de um volume e requer cuidados e atenção redobrados, Marcia ressaltou os desafios de se escrever uma série, principalmente no que diz respeito à sua publicação e principalmente ao tempo transcorrido entre o lançamento de uma obra ou outra, que pode prejudicar a fidelização do leitor, de acordo com ela. Para a escritora, é preciso que haja um esforço de todas as partes para que os livros nacionais alcancem os padrões de investimento e de visibilidade das obras internacionais.

O maior desafio nem é escrever e, sim, conseguir lançar todos os livros, porque, se ocorrer qualquer problema com uma editora, é complicado para outra aceitar o que já foi publicado anteriormente”, explicou. “Além disso, o interstício grande entre um lançamento e outro também age como um fator negativo. Salvo exceções, não temos uma perspectiva de publicações sequenciais com datas definidas. Quando uma série de fora chega aqui, na maior parte das vezes, já foi finalizada lá, então, é mais fácil prender a atenção de um leitor, não deixar que o burburinho em torno do livro se apague. Por isso, a concorrência aqui acaba sendo desleal. No mercado editorial, acredito que a mudança tem que ser feita por ambas as partes, tanto do autor como da editora. O autor tem que compreender, de uma vez por todas, que é necessário se especializar, fazer uso das técnicas de escrita, investir em cursos na área. Tem que entender que o livro é um produto (e não seu bebê) e que para que ele seja publicado é preciso ter nele todas as qualidades que o tornem vendável. Por outro lado, acredito que as editoras também deveriam investir mais em divulgação, em propaganda. Há que se pensar que os livros estrangeiros que aqui chegam já passaram por todo esse processo. Sem um investimento maior nesse sentido, dificilmente chegaremos a um patamar semelhante aos de fora”.

Foto: divulgação
Foto: divulgação

Autora de um gênero mundialmente reconhecido e com best sellers de autores estrangeiros renomados, Marcia também exaltou o crescimento do gênero no mercado nacional, especialmente entre escritoras mulheres. Ela, que contou já ter sofrido preconceito dentro do mercado, apontou ainda que é preciso acabar com as comparações entre os livros e conscientizar não apenas os leitores, mas os profissionais do meio, que a variação dentro dos gêneros sempre existiu, no entanto, era pouco divulgada.

As mulheres vêm se destacando em praticamente todos os segmentos da sociedade, então nada mais natural que isso aconteça também na literatura”, afirmou. “O brasileiro ainda sofre o que costumamos chamar de ‘síndrome de país colonizado’, então é comum querer imputar aos daqui o estigma de copiadores, como se unir vampiros e romance fosse algo exclusivo da Stephenie Meyer, por exemplo, e não uma variação de sucesso de um tema que já existia.  Os romances eróticos são um exemplo clássico. Já existiam nas bancas e sempre venderam muito, mas uma autora americana foi amplamente divulgada e se sobressaiu, então, quase todos os livros escritos aqui no mesmo gênero acabam sendo julgados como uma cópia do dela, e não uma variação de algo que sempre existiu, como acontece lá fora. Mas, graças a Deus, tenho percebido uma leve mudança nesse sentido e acredito que isso tenha a ver com a quantidade de boas obras que têm sido colocadas no mercado”.

Muito bem recebida pelos leitores, Marcia recebeu também um prêmio literário escolhido pelo público. Essa relação, inclusive, segundo ela, é fundamental para o seu próprio desenvolvimento como escritora. Agradecida por todo o carinho, ela destacou também a importância de participar de eventos literários para estreitar ainda mais os laços com seus fãs e principalmente ajudar a formar novos leitores. Para quem já está com saudades da sua escrita, Marcia tem uma ótima notícia: duas de suas obras já estão com a agência literária Increasy.  Pátria Chamada Amor é um romance contemporâneo emotivo – “daqueles que você torce pelos personagens do início ao fim” – que aborda questões sociais difíceis, porém, com sutileza. Já o outro livro possui o título provisório Maneki-Neko – Sorte ou Azar… no Amor? e é um “chick lit cheio de mistério, romance e cenas hilárias”. Mas e o sobrenatural? A autora garantiu que espera finalizar em breve uma nova obra desse gênero que já começou a escrever.

A Bienal, por exemplo, é uma experiência fantástica”, disse. “É lá e em outros eventos que temos a oportunidade de conhecer as pessoas que, até então, não passavam de um retrato escrevendo mensagens carinhosas. Nada como receber essa troca! Sem dúvida, qualquer evento literário é crucial para formar novos leitores. É bem diferente entre uma pessoa ler uma simples sinopse e ouvir do próprio autor o que existe de emocionante na sua obra. Em termos comparativos, seria como o mostrar um trailer para quem está em dúvida se quer ver um filme ou não. A emoção é diferente. Recomendo que todos possam experimentar a sensação de ir a uma Bienal. Eu adoro!!! O prêmio, por outro lado, foi uma grata surpresa, assim como todo esse carinho recebido dos leitores. Muitos deles viraram grandes amigos! Particularmente, adoro essa interação, ouvir o que eles pensam. Os anseios, as dúvidas, as sugestões, as críticas, as histórias paralelas… Tudo isso é muito importante para que o escritor cresça profissionalmente, para que encontremos o caminho certo a seguir. Aproveitando, deixo aqui meu muito obrigada a todos que me ajudaram a concretizar esse sonho!”

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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