Resenhas

O Último Adeus, de Cynthia Hand| Resenha

‘Último Adeus’: a dor da perda. Um vazio instigante.

“Desculpe, mãe, mas eu estava muito vazio” é tudo o que está escrito onde normalmente fica a sinopse da história no verso do livro O Último Adeus, de Cynthia Hand, publicado no Brasil pela editora Darkside Books. E serviu tão bem quanto uma sinopse propriamente dita. Essa frase está muito presente em toda a obra. Eu gosto dessa característica da Darkside de estar sempre inovando na apresentação do seu material. Gosto muito disso e é por isso que eu sou uma grande fã dessa editora.

Mas admito que foi bem difícil conseguir uma conclusão do que eu achei do livro. Acho que deixo claro o motivo no decorrer da resenha.

A história é contada por Alexis Riggs – Lexie –, uma garota de 18 anos, no terceiro ano do ensino médio, amante ferrenha de matemática – a ponto de me deixar um tiquinho irritada, junto com sua mania adolescente de ser naturalmente irritante de vez em quando – e que sonha com um futuro brilhante e cheio de números – falha-me Deus, isso prova que a menina é louca.

Brincadeirinha. Pessoal de exatas, calma.

Quero dizer, ela sonhava com um futuro brilhante, até o dia em que seu irmão mais novo, Tyler – Ty –, se mata na garagem da sua casa. A partir dessa perda, a vida de Lexie parece girar em torno da dor que isso lhe causa e à sua família – já meio complicada, uma vez que o seu pai os abandona para viver com outra mulher e tanto a Lexie quanto o Ty, quando vivo, parecem não conseguir perdoá-lo por isso.

Enfim, a história é contada pela própria Alexis, que está devastada pela perda e saudade do irmão, pelo fato de ele ter se suicidado; está desamparada sem o pai e a mãe – esta última está meio que pior do que ela –; está confusa pelo motivo de ele ter se suicidado e – talvez o mais devastador – está cheia de culpa. Ou seja, o livro é bem deprimente.

Francamente, não é o meu tipo de livro. Eu gosto de Literatura Fantástica – fantasia, ficção científica e terror – pura. E esse livro é uma ficção, ou seja, a história foi inventada pela autora, mas eu não diria que ele faz parte da literatura fantástica – na verdade, até me surpreende um pouco que a Darkside o tenha publicado, porque eu nunca diria que esse livro faz o tipo da editora.

Mas isso não quer dizer que não seja um bom livro – quem sou eu para dizer isso, afinal?

É um livro muito bem escrito, com um tema muito válido e interessante – a perda de um ente querido e o suicídio adolescente, que são temas reais, é algo que vemos no mundo. Então, mesmo eu, que não sou chegada a esse tipo de história, não pude simplesmente abandonar a leitura.

Sem falar que a autora teve que ter coragem para escrever sobre isso – eu, pelo menos, acho que nunca conseguiria escrever um livro sobre isso nem se eu quisesse e tentasse muito.

De início, enquanto lia as primeiras 40 páginas, com a Lexie falando do buraco no peito dela e sua incapacidade de ser feliz e etc, eu cheguei a achar que ia ser um martírio ler esse livro e que eu acabar deprimida…

Até que ela vê o fantasma do irmão.

Foi nessa parte que eu pensei: “AGORA SIM!!! Agora estamos chegando ao que interessa”. Então, eu comecei a pensar em vários meios de a autora continuar a história – minha ideia mais comum e também a mais desejada era que o fantasma do irmão começasse a assombrá-la e a coisa se transformasse em uma história de terror e por aí vai…

Só que não foi nada disso – e admito que fiquei um pouco decepcionada, porque eu estava a fim de tremer de medo com uma boa história de fantasmas. Se quiser saber o que foi, sugiro que leia o livro.

Apesar de, como eu já disse, não ser o meu estilo de leitura, acho que a autora soube bolar bem a história de forma que impeça o leitor curioso – como eu – de abandoná-la. Por exemplo, ela não diz logo de cara porque o Ty se matou – até mesmo porque quem está narrando é uma personagem que também não sabe o motivo –, ela dá pistas, diz como e quando aconteceu, mas nunca o motivo. Tem também a questão da culpa da Lexie, sobre a qual ela também não revela nada, só no final. E, é claro, tem o fato de o leitor – exceto os leitores-coração-de-pedra, que não se apegam aos pobres personagens – querer saber como a Alexis e a família complicada dela ficam no final, lidando com tudo isso. Como eles conseguem lidar com essa tragédia?

Achei meio impossível não me colocar no lugar deles e isso me fez querer ler até o final.

Na verdade, tenho que admitir que chorei até quase me desidratar quando cheguei ao fim.  Se você não é um leitor-coração-de-pedra, sugiro que arrume uma caixa de lenços e beba muita água – embora eu seja suspeita para falar, porque eu sou chorona, né. Mas, enfim, melhor prevenir do que chorar até secar ou até se afogar com suas próprias lágrimas – o que acontecer primeiro.

Quanto ao trabalho da editora, está beirando a perfeição – exceto pela revisão, que deixou um pouco a desejar, especialmente para um livro que nem é extenso. A capa está fenomenal – eu achei incrivelmente criativa e coerente com o foco da história. A diagramação está tão excelente quanto a capa – as letras estão em azul, já que parece ser um relato que a Alexis escreve no diário que o psicólogo lhe deu e as artes nas mudanças de capítulo deram todo um charme. E tem a fita, a fabulosa fita, a fitinha sagrada – aquela fitinha de cetim que era muito comum em edições antigas, usadas para marcar a página. Todo livro – de capa dura, pelo menos – deveria ter uma fita para marcar página, na minha opinião – é de uma elegância sem igual.

Então, eis o que eu achei: é um livro cuja leitura não é fácil, não se trata de uma história feliz. Mas é muito interessante e o leitor pode sentir que algo lhe foi acrescentado depois de terminar. É um tema do mundo real e muito chocante. Foi bem bolado, bem escrito e muito bem apresentado pela editora. É por causa disso que eu, mesmo admitindo que esse não é o meu tipo de história e que eu não adorei, vou dar cinco estrelas. Porque sinto-me no dever de reconhecer um trabalho muito bem feito.

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