Entrevista: Clarice Freire

Em entrevista ao Vai Lendo, Clarice Freire, autora de ‘Pó de Lua’ e ‘Pó de Lua nas Noites em Claro’, esbanjou sensibilidade e inspiração ao falar sobre poesia, literatura e os encantos da noite, da madrugada e, claro, da luz da Lua

A delicadeza dos traços e dos versos que transmitem a essência de sua criadora. Foi na luz da Lua que Clarice Freire, autora pernambucana de Pó de Lua, publicado pela editora Intrínseca, buscou a inspiração para a sua primeira obra, que encantou e sensibilizou milhares de leitores. Tanto que, agora, ela nos oferece a oportunidade de desbravarmos as longas horas da madrugada numa emocionante jornada de autoconhecimento, em Pó de Lua nas Noites em Claro, lançado este mês, também pela Intrínseca. Em entrevista ao Vai Lendo, Clarice declarou a sua paixão pela poesia e pelas ilustrações, falou de suas inspirações e comentou sobre as diferenças entre os primeiro e segundo livros.

Em Pó de Lua nas Noites em Claro, Clarice resolveu misturar prosa e poesia, o que não ocorreu em sua primeira obra (que reuniu diversos textos da autora), criando uma linha narrativa que dedicou uma hora a cada capítulo, da meia-noite ao amanhecer. A escritora também apontou a evolução em seus próprios traços que ajudam os leitores a acompanhar o longo e mágico passeio da protagonista.
Poó de lua e Po de lua nas noites em claro

“Essa é maior diferença: a forte presença da prosa no segundo livro – o que não existia no anterior”, explicou. “O Pó de Lua era uma junção de diversas poesias que seguiam uma linha de sentimento, por assim dizer, de acordo com as fases da Lua. Cada Lua tinha sua característica, e as poesias seguiam este mesmo norte. No Pó de Lua nas Noites em Claro, misturei a prosa com a poesia desenhada para contar uma história. Construí uma linha narrativa em torno de uma personagem que se lança na noite em busca de si mesma e, na madrugada, encontra os moradores que ali estão, internos ou não. Outro ponto diferencial importante está no traço. Apesar de não ter perdido meu estilo de sempre, investi muito no desenho nesses últimos dois anos, gastei mais tempo com as imagens, pois queria que elas falassem por si mesmas nesse livro também”.

Como uma poetisa que detém uma relação de cumplicidade com as próprias palavras, Clarice tem uma explicação simbólica e profunda sobre a sua relação com a noite – quando, segundo ela, consegue ter o seu momento necessário de introspecção e de reflexão – e principalmente a sua ligação com a Lua, que lhe traz uma história própria cheia de significados.

“Na verdade, eu acredito que não existe o dia ao invés da noite”, ponderou. “Essa foi uma das minhas conclusões ao terminar tanto o primeiro quanto o segundo livro – especialmente o segundo, que tem a noite tão abertamente como fio condutor. Não existe noite sem dia nem dia sem noite, por isso, o Noites em Claro termina com capítulos chamados ‘Os primeiros raios do Sol’ e ‘Sentimentos dourados’. Toda noite amanhece e isso é importante de se lembrar. A Lua tem uma história muito específica para mim. Ela não possui luz própria mas, mesmo sendo ‘apenas pó’, reflete a luz de outro e faz com que as noites não sejam escuras. Ser como a Lua é uma missão belíssima de se ter. Foi o que pensei quando ouvi isso pela primeira vez.  E sobre as madrugadas, acho que são ideais para quem precisa encontrar consigo mesmo. As ruas se calam, as pessoas também. Então, nos deparamos com o silêncio, com as vozes que gritam no nosso interior, mas que não podem ser ouvidas no barulho do dia. Acredito que no silêncio e na calma se escuta a poesia. É quando consigo criar, rezar, desenhar, parar. Existe também muito mistério na noite, muito espaço para a imaginação. É um momento essencial e vital para mim”.

Pp de Lua Noites em Claro Foto Intrinseca facebook
Foto: Divulgação/Intrínseca

A relação com a poesia e com as ilustrações começou cedo, literalmente em casa, quando Clarice, ainda pequena, observava seus pais – a mãe desenhava e o pai, escrevia poesias -, que tiveram influência direta no seu trabalho. No entanto, ela, que também é publicitária, confessou nunca ter imaginado que, um dia, seus textos sairiam da internet para os livros. Sim, pois foi através das redes sociais que o público teve o prazer de conhecer Clarice e suas inspiradoras criações. E olha que, se dependesse dela, nem isso aconteceria. Segundo a autora, sua escrita era para ela apenas uma forma de expressar os seus próprios sentimentos.

“Meu trabalho inicial é extremamente despretensioso”, contou. “Minha única intenção ao escrever e desenhar sempre foi desafogar a mente, respirar, colocar pra fora a ebulição de dentro – questão de sobrevivência. Optei inicialmente pela internet porque fui obrigada (risos). Meus amigos de agência (trabalhei muito tempo em agências de publicidade) acharam meus desenhos no lixo e me mandaram criar um blog para não perder minhas ideias. Acabaram criando para mim, pois eu era extremamente analógica. Depois, fui pegando gosto por usar a plataforma, pelo contato direto com os leitores e pelo apelo visual que ela poderia me dar – mesmo sendo fiel ao meu trabalho. Também foi lá que perdi o medo de expor o que escrevia. Postava só depois de lapidar tudo com meu pai e Marcelino Freire, meu primo (também uma inspiração). Isso foi essencial. Meu pai estava sempre escrevendo poesia e seus livros, enquanto eu brincava em casa. Minha mãe vivia desenhando, especialmente com nanquim e aquarela. Para estar com os dois, eu brincava de escrever poesia e desenhar. Eles, obviamente, estimulavam essa atividade de todas as formas. Costumo dizer que meu cérebro deve ter juntado palavra e imagem na primeira infância e nunca mais conseguiu separar, o que me deu uma poesia visual ou palavras desenhadas”.

Lançamento 'Pó de Lua nas Noites em Claro'/Foto: Américo Nunes/Intrínseca
Lançamento ‘Pó de Lua nas Noites em Claro’/Foto: Américo Nunes/Intrínseca

Ela, que cita ainda o traço de Tim Burton e textos de autores como Cecília Meireles, Manoel de Barros, Drummond, Fernando Pessoa, entre outros como suas inspirações, destacou o aumento da força da poesia entre os jovens. Para Clarice, apesar de ainda haver certa resistência ao gênero, é possível observar uma transformação em curso, porém, ela também indicou a necessidade de se incentivar as artes desde cedo.

“Acho fantástico ver que a poesia tem ganhado essa força, especialmente entre os jovens”, comemorou. “Isso também tem acontecido com o Pedro Gabriel, autor do Eu Me Chamo Antônio (também publicado pela Intrínseca), que já caminha para o seu terceiro livro, e outros. Nunca esperei nenhum sucesso, mas, desde que o meu trabalho começou a repercutir, de certa forma, comemoro pelo todo, não somente por mim. Fico muito feliz de ver a literatura ganhar força em um espaço tão rápido e cheio de conteúdo como o das redes sociais. Isso mostra que existe interesse e que os artistas nacionais só precisam ser incentivados para terem condições de mostrar cada vez mais a arte. Nosso país está repleto de gente boa.  Esse cenário do mercado editorial vem se transformando. Do contrário, eu e outros jovens autores que têm trilhado um belíssimo caminho, talvez, não estivéssemos publicando. Mas acredito, sim, que é preciso incentivar mais, buscar mais. Em outros países, artistas são incentivados a investir na arte desde cedo, seja ela qual for. Aqui o cenário é bem mais complicado”.

Foto: página oficial 'Pó de Lua'
Foto: página oficial ‘Pó de Lua’

Quando perguntada sobre ser uma inspiração para jovens escritores, Clarice dedicou o sucesso à própria literatura, que, de acordo com ela, permite cada vez mais aos leitores conhecer e ter um contato próximo com novos autores e gêneros. Sempre inspirada e agradecida, ela exaltou o apoio do público e destacou a importância dessa relação com os fãs não apenas para o trabalho, mas também para a sua vida.

“Já ouvi de diversos jovens escritores que, depois de conhecerem o meu trabalho, conseguiram criar mais e até mesmo publicar”, comemorou. “Sinceramente? Isso não tem preço. Não sou eu a inspiração, acredito, mas a literatura. E, quando ela é abraçada de bom grado pelo público, é uma conquista de todos os escritores que sonham trilhar este caminho. Espero que isso só aumente, cresça e permaneça! Minha relação com os leitores, a meu ver, é fantástica. Recebo muitas poesias! Desde o lançamento do meu primeiro livro, tive o privilégio de encontrar meus leitores em turnês pelo Brasil, e o nosso contato passou a ser físico, além do virtual, o que também é maravilhoso. A internet possibilita o fim das distâncias. Por meio dela, posso saber em tempo real o que cada um sente ao ler o que publico. Ao vivo, é uma troca de carinho e gratidão. Sou uma pessoa melhor por causa deles”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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