Para bom entendedor, um ‘obrigado(a)’ ao revisor

No Dia do Revisor, uma matéria especial sobre esses profissionais imprescindíveis, porém e infelizmente, ainda pouco valorizados

Imajine ler um testo xeio de erros. Chega a doer a vista, não? Um texto correto, coerente e fluido é fundamental para o bom entendimento da história e para sua absorção por parte dos leitores. Tanto que são os erros que mais chamam a atenção e nos saltam aos olhos. Um erro que pode comprometer todo o trabalho. Por isso mesmo, os revisores são imprescindíveis no processo de publicação de um livro. E, no dia em que celebramos – merecidamente – esse profissional tão importante para o mercado editorial, preparamos uma matéria especial para mostrarmos um pouquinho dessa rotina.

Renata Dib, revisora da editora Sextante / Divulgação

O trabalho de um revisor é minucioso, exige bastante atenção e paciência, principalmente porque é esse o profissional responsável por fazer a última checagem do livro – já na prova diagramada -, depois de passar pelo tradutor (no caso de uma obra estrangeira) e posteriormente pelo copidesque. Assim, cuidado redobrado e muita desconfiança são pré-requisitos para a função, de acordo com Renata Dib, revisora da editora Sextante. Mas, ela ressaltou, é importante saber lidar também com aqueles errinhos que, volta e meia, acabam passando despercebidos.

“Acho que dois grandes desafios (do profissional) são continuar desenvolvendo o treinamento do olhar e saber aceitar que um livro sempre terá um errinho”, explicou Renata ao Vai Lendo. “O processo inteiro de produção do livro é bastante complexo; às vezes, o revisor pode ter deixado passar o erro, às vezes ele pode ter apontado o erro, mas, na hora de bater as emendas (as correções no texto), o erro acaba ficando e sendo publicado. É chato, a gente fica mal, mas tem que erguer a cabeça porque é uma realidade do nosso trabalho. O principal cuidado e uma expertise é sempre desconfiar. De tudo! Olhar uma palavra e pensar: opa, essa palavra aqui não tem hífen mesmo? Vou checar (porque também a gente não é dicionário ambulante, né?). Ou então ver uma frase estranha e apontar para o editor ou para a editora: mas foi isso mesmo que o autor quis dizer? Não está fazendo sentido. Rechecar as datas, eventos históricos, citações… Vai que o autor errou e esse errinho passou batido no processo? E, é claro, pode ter um erro de diagramação também. A palavra não estar hifenizada, uma linha estar muito apertada… Ah, às vezes também implicamos com muitas palavras repetidas no mesmo parágrafo. Enfim, sempre desconfiar e estar atento!”.

Essa desconfiança foi também o ponto exaltado por Rebeca Bolite, editora de livros trade e revisora da Intrínseca. Para ela, inclusive, essa desconfiança aliada a uma curiosidade aguçada – bem como o conhecimento de língua portuguesa, claro – ajuda o revisor a ser prevenir de certas lacunas.

“Acredito que, antes de tudo, o revisor é uma pessoa que duvida e, por isso, pesquisa”, afirmou. “Claro que ser bom em português é importante. Mas, mesmo que não tenhamos os livros de gramática todos decorados, o importante mesmo é sempre desconfiar de tudo. Por exemplo, ao bater o olho em uma regência, pesquisar nos livros a forma correta (ou ir lá só para ter certeza de que já estava correto). Soma-se a isso a importância do conhecimento geral. Devemos estar sempre informados e curiosos com relação a todos os assuntos, desde história recente a regras de física, bandeiras dos países e nomes de diretores de cinema. Por isso, quando a nossa própria bagagem não dá conta, a desconfiança supre essa lacuna. Então, repito. Acredito que conhecimento da língua é fundamental, claro, mas desconfiança e curiosidade acerca de tudo são indispensáveis”.

Como se não bastasse a pressão de ter que entregar um livro praticamente impecável, os revisores precisam lidar ainda com a questão dos prazos e também dos diferentes estilos narrativos. E, nas horas vagas (quando sobra alguma), saber também encarar os questionamentos – e, em alguns casos, a vaidade – dos autores. Rebeca, que cuida de títulos como Cinquenta Tons de Cinza e de grandes autoras internacionais, entre elas Liane Moriarty, Jojo Moyes, além de livros de negócios, destacou a parceria entre esses profissionais e as editoras para que haja uma conciliação, nesse sentido.

“Não é fácil manter a qualidade quando existe a pressão do tempo”, destacou. “Mas os profissionais das editoras e os revisores trabalham juntos no sentido de tornar os prazos os mais adequados para ambos. O editor é o mediador fundamental entre os revisores e os autores nacionais, pois ele é o responsável por filtrar as alterações e encaminhá-las ao autor. Daí em diante é uma negociação, em que nem sempre há concordância entre as partes, mas certamente chega-se a um consenso que favorece a obra. No caso das traduções, dificilmente há a figura do autor estrangeiro no processo de revisão. Mas, mesmo assim, é necessário em muitos casos que o revisor tenha o conhecimento da língua original e entendimento do estilo, do assunto, para que a voz do autor, o ritmo da narrativa ou até questões técnicas não se percam”.

Renata – que, apesar de ser formada em Publicidade, trabalha na área editorial há cinco anos e já revisou livros de autores como Harlan Coben, Nora Roberts, Nicolas Sparks, Diana Gabaldon, Christiane F., entre outros -, por sua vez, também é assistente editorial na Sextante e, portanto, conhece bem os dois lados do processo. Por isso mesmo, ela disse saber exatamente o peso desse prazo para os profissionais e para a editora.

“Falando como assistente, temos um prazo para fechar o livro e, a partir disso, pensamos no tempo que cada tarefa deve levar”, detalhou. “Falando como revisora, a partir desse prazo que é passado, eu divido as páginas por dia para cumprir a data que está sendo pedida. Como eu trabalho no outro lado, o da cobrança, eu sei como o atraso atrapalha. No início, eu ficava tensa com qualquer livro, porque é uma responsabilidade grande, você sente mesmo a pressão. Revisei um livro recentemente de uma cronista nacional (que eu amo!) que foi um verdadeiro desafio. Ela usa muita gíria, estrangeirismo. Tivemos que fazer algumas escolhas de padronização. Foi um trabalho bem difícil, mas é sempre prazeroso, ainda mais tendo a oportunidade de colaborar no livro de uma autora que você gosta e admira bastante”.

Com tanta pressão e responsabilidade, é de se esperar que o trabalho seja, pelo menos, reconhecido devidamente não apenas pelos leitores, mas também e principalmente pelo mercado, certo? Nem tanto. Infelizmente, revisores e tradutores acabam ganhando um espaço menor que os demais profissionais – um erro para o qual a indústria começa a esboçar uma correção, especialmente no que diz respeito à tradução. Para os profissionais de revisão, contudo, ainda é necessária uma valorização maior.

“É da cultura do mercado que o tradutor receba mais destaque, mas a maioria das editoras atualmente credita os revisores na página de créditos, que, em geral, fica na página 4 do livro”, apontou Rebeca. “Quanto mais gente entender a importância da revisão no processo editorial, melhor será para esses profissionais que ainda ficam um pouco fora do palco”.

Assim como Rebeca, Renata ressaltou necessidade de conhecimento do processo editorial para que o trabalho dos revisores seja, de fato, reverenciado.

“Acho que isso acontece pela falta de conhecimento do processo editorial mesmo”, declarou. “O básico, que todo mundo sabe, é que para um livro estrangeiro chegar aqui no Brasil ele tem que ser traduzido. Então, é óbvio que todos sabem que existe a figura do tradutor. Mas poucas pessoas sabem da figura do copidesque e do revisor. Às vezes, tem até autor nacional que manda um livro e acha que já está pronto, é só mandar para gráfica e já podemos lançar no mês seguinte (risos)”.

Como se não bastassem os desafios do dia a dia dos textos, os revisores também precisam lidar com as diversas mudanças e atualizações na linguagem – ainda mais com a internet! Além dos olhos sempre implacáveis dos leitores mais atentos e críticos. Mas esses profissionais, aqui representados por Rebeca e Renata, possuem muita propriedade e segurança – e também aquele jogo de cintura – para transitar nesse vasto e criativo mundo das palavras, sabendo, claro, que todos somos passíveis de erros.

“Bons revisores conseguem transitar bem entre a linguagem mais formal e a linguagem coloquial”, reiterou Rebeca. “Faz parte do trabalho. Cada livro é uma caixinha de surpresa nesse sentido. De qualquer forma, ninguém é perfeito ou infalível. Erros vão acontecer, e a Intrínseca está sempre atenta aos leitores que mandam e-mails com os problemas que passaram. Colocamos numa lista de erratas e tudo é corrigido na reimpressão seguinte”.

Portanto, o bom revisor é aquele que, além de saber escrever e desconfiar, sabe também ouvir. Ouvir o autor, ouvir os leitores. É um trabalho árduo, difícil e desafiador, mas extremamente importante. Os revisores nos ajudam a entender aqueles mundos fantásticos, personagens inesquecíveis e tramas inspiradoras.

“Primeiro de tudo, sempre tentamos entender o tom do livro e do autor”, concluiu Renata. “É importante respeitar o estilo do autor. Não podemos sair simplificando a linguagem ou usando gírias se o livro original não seguir esse mesmo estilo, mas sempre fazemos adaptações que estão mais próximas da nossa realidade, quando a gente acha que cabe. Afinal, a nossa meta é que a leitura seja o mais prazerosa possível, sem ruídos, que seja uma experiência gostosa para o leitor. Recebemos muitos e-mails com correções, alguns educados e outros, nem tanto. Quando o leitor tem razão, já fazemos a mudança para a reimpressão. Se for uma questão opcional e puramente de gosto do leitor, muitas vezes optamos por não fazer. Mas o feedback do leitor é muito importante para melhorarmos cada vez mais”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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