A vez dos autores independentes na Bienal do Livro Rio 2017

Em bate papo promovido no estande da Amazon, Thiago d’Evecque e Renata Cardoso falam sobre o seu processo de escrita de como trabalham o marketing na autopublicação

O sonho de todo autor é participar de uma Bienal do Livro. O problema é que nem sempre chegar até aí é fácil. Aliás, quase sempre, é um caminho árduo e cheio de obstáculos. O mercado ainda é muito fechado para novos autores. Mas, graças às ferramentas online – como o Wattpad – e à Amazon, agora, cada vez mais gente tem a chance de mostrar o seu talento e as suas obras, mesmo sem ter publicado por uma editora. Como é o caso de Thiago d’Evecque, autor de Limbo e do recém-lançado Abismo – Promessa de Fogo, e de Renata Cardoso, autora de Lusco-Fusco, que participaram de um bate papo sobre escrita e marketing no estande da Amazon, na Bienal do Livro Rio 2017.

Com sua mistura de mitologias, Thiago caiu logo no gosto do público. Responsável por todo o processo não apenas da escrita, mas também da divulgação da obra, ele falou um pouco sobre o seu trabalho:

Limbo é o meu primeiro livro”, explicou Thiago. “Escrevi quando participei de um desafio de escrever em um mês. Se eu consegui, qualquer um consegue (risos). Não sou nenhum gênio. Ele conta a história de um espírito que acorda nesse limbo e tem que enviar 12 almas heroicas para a Terra, que está próxima do apocalipse. E o livro traz um pouco de todas as mitologias. Agora, lancei um novo, também de fantasia, porém um pouco mais sombrio. Faz parte de uma série. É um pouco mais adulto. Diria que é para jovem adulto. Eu não tinha plataforma nenhuma quando comecei. Criei um site depois do livro, entrei nas redes sociais. Comecei a fazer o trabalho de marketing sem gastar dinheiro nenhum. O livro começou a dar certo na Amazon e muita gente pediu a versão física. E eu consegui fazer a versão física sozinho com o dinheiro que ganhei na Amazon”.

‘Limbo’, de Thiago d’Evecque, e ‘Lusco-Fusco ‘, de Renata Cardoso / Divulgação

Renata, por sua vez, pensou num outro formato de texto para o seu primeiro livro. Acostumada com contos, ela explicou que transformar a sua obra num livro inteiro foi um verdadeiro desafio narrativo. E já adiantou o seu próximo projeto.

“Comecei escrevendo livro infantil, depois, passei a escrever contos e resolvi publicar um conto na primeira edição do prêmio Kindle, o Lusco-Fusco, afirmou. Resolvi transformar num livro inteiro. É uma comédia romântica. Minha pegada é mais de humor. E foi um desafio para mim, que estava acostumada a escrever contos, escrever um romance inteiro. E eu queria escrever em outro formato, então, ele é todo em diálogo. Quase um roteiro. Tenho ideia de transformar em websérie. Tenho outro livro que vai sair, Cenas do Rio, em parceria com um fotógrafo. Escrevi um conto de humor baseado nesses locais do Rio. Lusco-Fusco fala sobre uma mulher que ficou viúva e, um mês depois da morte do marido, ele aparece dizendo que virou vampiro. Ela acha que está louca e fica procurando lugares para ver se está louca ou não. É um passeio por todas as esquisitices do mundo para tentar descobrir se ele é um vampiro ou não ou se ele deu um belo perdido nela (risos). A ideia é brincar com essas crenças e falar sobre essa questão do apego”.

Se, para quem se dedica integralmente, já é difícil a rotina de escrever todo dia, imagina para aqueles que precisam conciliar a escrita com outros trabalhos, além da vida pessoal. Renata, cuja formação é de uma área completamente diferente, apontou as dificuldades de se fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mas ressaltou que as facilidades proporcionadas pela internet facilitam bastante não apenas o processo, mas também a relação com os leitores.

“Eu sou engenheira”, disse. “Estava trabalhando na época em que publiquei pela primeira vez e comecei a me interessar muito pela literatura infantil, quando tive a minha filha, Carolina. Era uma brincadeira com ela. Comecei a escrever para ela e, na época, surgiu a oportunidade de publicar o livro. Não tinha Amazon naquele tempo, então, foi pelo método tradicional. Eu gostei muito, mas conciliar é bem difícil. Você tem que escrever nos intervalos. Eu usava a hora do almoço para escrever. Depois que eu comecei a ter smartphone, passei a escrever no celular. Comecei a fazer isso. Escrevi coisas pequenas, os contos no celular e usando os intervalos. Agora, eu tenho dois filhos. Fica ainda mais difícil, mas é muito gostoso. Adoro participar dos eventos. Com o livro infantil acabei de fazer um turnê pelas escolas. Com os pequenos é uma delícia porque tem o feedback deles. Com o romance é diferente, é tudo mais online. É diferente, mas é fácil e permite um contato que no meio tradicional você não tem muito, a não ser num evento como esse. No online a pegada é mais imediata, você vê os comentários na página, manda e-mail. Eu vibro quando recebo e-mail de alguém que leu o livro e sugere coisas. Eu não tinha essa experiência antes, acho super válido”.

Thiago, que é jornalista, destacou as diferenças entre os textos e reiterou que o importante é escolher um assunto pelo qual se interessa para conseguir manter uma boa rotina de escrita.

“Eu estava sempre escrevendo alguma coisa, mas a escrita de ficção é diferente do texto jornalístico, é muito melhor”, declarou. “Eu escrevi no mês em que tirei férias. O processo criativo é bem diferente para cada autor. Eu tenho que escrever um pouco todo dia, senão esqueço a história, os personagens. Para conciliar com o trabalho é um pouco mais fácil porque eu não tenho filhos, mas é cansativo. O principal é escolher a história que você vai quer escrever e vai te dar vontade de escrever um pouco todo dia. Senão, vai ser difícil, principalmente quando chegar cansado do trabalho. Você tem que se sentir próximo da história. Ou escrever quando você puder”.

Além das dificuldades diárias, há também a questão do bloqueio criativo, que atinge basicamente boa parte dos escritores, de todos os gêneros e em todos os formatos. O importante é saber como lidar com ele e transformá-lo em produtividade. A partir daí, Renata e Thiago também deram boas dicas para trabalhar no marketing dos livros digitais.

“Sempre tenho o bloqueio da página 50 (risos)”. confessou Renata.”Eu tenho uma crise de identidade, me dá um branco. Aí, tem que parar um pouquinho, ler outras coisas e depois voltar, reler e voltar a fazer. Não fica corrigindo até voltar ao final. Se tem uma ideia na cabeça, segue reto. Depois, você corrige. Porque você sempre acaba se questionando. Em relação à divulgação, eu tenho o Facebook e fiz promoções. Teve um retorno melhor. Tem gente que faz newsletter. Eu trabalho muito na Amazon, coloco o livro grátis lá e nas promoções.  Só de colocar de graça você vê resultado. Quando eu coloquei, de repente, deu um pico, mais de 500 downloads. Pensei: nunca mais vou vender nada. Mas então dá mais comentários. E, com comentários, o leitor gasta uns cinco reais. É um investimento de marketing”.

“O conselho da Renata, de escrever até o fim, é o mais importante que existe”, atestou Thiago. “A primeira versão do seu livro só precisa existir. Quando acabar, você corrige. Eu tenho muito bloqueio. Fico muito desmotivado enquanto escrevo pensando que ninguém vai gostar. Mas depois passa e você começa a ver que está bom. Falo com a minha namorada, ela me ajuda muito. E, aí, continuo escrevendo. A promoção gratuita da Amazon é realmente muito boa. É um investimento para o futuro. É bom para você lançar uma série, por exemplo. O primeiro gratuito o leitor tende a comprar. Também entrei em contato com blogueiros. E, com isso, acabou ficando em primeiro lugar nas vendas.  A Amazon, às vezes, faz umas promoções.  Eu não tenho muita disciplina para fazer uma página de Facebook. Tento usar mais o Instagram e o Twitter”.

E, com tanta criatividade, quais são as inspirações? De onde vem tanta ideia para criar novos mundos, seres sobrenaturais e situações tão divertidas e surpreendentes?

Mais voltada para o humor, como ela mesma confirmou, Renata busca muito na fonte de grandes nomes da crônica nacional e também no audiovisual.

“Eu sou fanática pelo Veríssimo, pelo Mario Prata, por João Ubaldo, eu amo literatura nacional”, concluiu ela. “Essa que tem pegada de crônica, humor, é a minha influência. Eu estou circulando muito no meio de roteiros de humor, webséries. Mas a maior referência, hoje em dia, são as séries de TV, o audiovisual influenciando na literatura. Para mim, os dois estão muito ligados, atualmente”.

Já Thiago absorve do RPG e dos games, principalmente, as referências para embarcar na sua própria fantasia.

“Minhas influências são muito nerd”, garantiu. “Gosto de videogame, de mangá, desenho japonês. Passei a vida toda jogando. A ideia da minha narrativa realmente foi lembrar o videogame. Cada capítulo tem um chefe que precisa ser vencido. Mas minhas influências têm muito de filme e de série também. Sempre gostei muito de ler e de ver filmes de fantasia. Na literatura, gosto demais do Terry Pratched. Ele usava muito a fantasia para fazer sátiras do mundo. Assim como o Douglas Adams. Tudo o que for de fantasia. Nunca li muitos clássicos. Eu gosto do que escrevo. Não conseguiria escrever outra coisa”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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