Paula Hawkins fala sobre o seu processo criativo na Bienal do Livro Rio 2017

Autora britânica do best seller ‘A Garota no Trem’ falou ainda sobre feminismo e suas inspirações

Jeito sério e fala objetiva. Exatamente como as suas histórias. A britânica Paula Hawkins, autora de A Garota No Trem e Em Água Sombrias, surpreendeu o público no bate papo realizado neste sábado (2), durante a Bienal do Livro Rio 2017, ao falar sobre o seu processo criativo e feminismo.

Com dois livros abordando temas delicados, como violência doméstica e abuso de álcool e de drogas, Paula se destacou pela veracidade de suas personagens, que chegam, inclusive, a gerar um certo incômodo.

“Eu gosto de personagens que eu posso ver à minha volta o tempo todo”, declarou ela no Encontro com Autores. “Eu gosto de falar sobre as pessoas que conhecemos. Que podem ser nossas irmãs, amigas. Eu me interesso por vidas comuns que deram errado. É sobre esse tipo de vida que eu escrevo. Personagens com os quais  as pessoas podem se conectar. As pessoas podem até não gostar deles, mas conseguem ver algo em comum. Conseguem se imaginar em suas histórias”.

Essa preocupação em retratar a realidade nua e crua, digamos assim, se reflete diretamente em seu processo criativo e principalmente na sua escrita. Por isso mesmo, segundo ela, a preferência por narrativas em primeira pessoa. O maior desafio, no entanto, é conseguir se desvincular ao final de tudo.

Eu gosto de primeira pessoa porque acho que é mais imediatista, e o leitor consegue criar uma conexão mais rápida com o personagem”, explicou. “Mas isso também quer dizer que eu, como escritora, preciso me imaginar, achar uma maneira de viver aquilo que meus personagens estão vivendo, e algumas dessas coisas são terríveis. Eu escrevi sobre uma mulher que perdeu um filho. Isso é algo tenebroso de se imaginar, de se colocar no lugar dessa mulher. E te suga. Então, eu acho que é por isso que, quando eu termino um livro, não quero mais pensar nele por um bom tempo. Eu coloco tudo de lado, porque você acaba se envolvendo muito emocionalmente com esses personagens. Mas eu também acho isso importante. Você tem que viver os seus personagens, mesmo se for escrever em terceira pessoa. Tem que viver a vida deles por um momento ou imaginá-las para torná-los reais”.

E, se nos livros, Paula tem essa capacidade extremamente sagaz de envolver os leitores em suas tramas cheias de reviravoltas, muito se deve também às habilidades adquiridas ao longo dos anos como jornalista.

“Eu fui jornalista financeira por 15 anos”, afirmou. “Tem muitas habilidades que você aprende como jornalista que são muito úteis como escritora, como observar pessoas e aprender com elas. Você escuta as pessoas, mas aprende também o que elas estão escondendo, as verdades que elas não querem contar. Aprender a ler nas entrelinhas é uma das habilidades mais importantes. Porque é isso o que você faz durante a escrita. É isso o que você aprende quando está entrevistando as pessoas”.

Dona de uma personalidade forte, Paula reiterou a sua preocupação em desenvolver temas importantes do universo feminino, ainda que isso não seja algo premeditado.

Eu não sento e simplesmente penso em escrever um livro sobre feminismo”, disse. “Minhas crenças e preocupações acabam me levando naturalmente para essas histórias”. Particularmente, Em Águas Sombrias é um livro feminista, e eu me interesso por questões de gênero. A violência doméstica no Reino Unido, por exemplo, não está piorando, mas também não melhora. É um problema consistente há décadas, e eu me preocupo com isso, principalmente num mundo em que dizem que não precisamos mais do feminismo e que fizemos tudo o que tínhamos que fazer. Eu acho isso um absurdo. Ainda temos muito o que fazer nesse sentido. E felizmente eu acho que um dos meios que temos para falar sobre isso é imaginarmos nós mesmos nessas situações. A ficção é onde podemos explorar essas questões intimamente”.


Tão misteriosa e, até mesmo, arredia quanto suas histórias, Paula evitou dar maiores detalhes de seu próximo livro, apesar de confirmar que já está trabalhando numa nova obra. O que ela garantiu, no momento, é que, claro, será um thriller. E, para alegria de seus fã, esse é um gênero que ela não pretende abandonar tão cedo.“Estou trabalhando em algo novo e ultra secreto”, concluiu. “Está muito cedo para começar a explicar. Obviamente, será  um thriller e terá muito sangue, muita morte. Espero escrever para o ano que vem. Não tendo a pensar muito no futuro. Penso sempre no próximo livro que vou escrever. É possível que, algum dia, eu escreva um livro de outro gênero, mas não tenho muitos planos para isto, neste momento.Eu sou muito ambiciosa e quero que meus livros sejam mais complexos, mais interessantes, mais profundos e mais pesados. É nisso que eu foco. É nisso que quero trabalhar! E é neste ponto que estou agora”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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