Entrevista: FML Pepper

Em entrevista ao Vai Lendo, FML Pepper fala da inspiração para a trilogia ‘Não Pare!’, seu novo livro, ‘Treze’, e como se divide entre duas profissões

FML Pepper / Site oficial da autora

Quem disse que os sonhos não se transformam em realidade? Se for na forma de um livro, então, melhor ainda. Que o diga a autora FML Pepper, da bem-sucedida trilogia Não Pare!, publicada pela editora Valentina. Se, hoje, Pepper é capaz de transportar milhares de leitores para as mais variadas dimensões, muito se deve às páginas que ela “devorou” e que transformaram o seu próprio mundo. Com uma imaginação fértil, talento de sobra e muita criatividade, Pepper se prepara agora para outra aventura: uma nova história, intitulada Treze, em uma nova editora, a Galera Record.

Treze já não é um Young Adult, é New Adult com elementos paranormais”, contou Pepper em entrevista ao Vai Lendo. “Bem no meu estilo, com muita ação, muita aventura e muito romance. Vai ser um livro único. Único mesmo. História de uma ladra ateia. Uma ladra que não acredita em nada. Que vai passar por uma experiência sobrenatural que vai arrancar o chão dela. A história é bastante acelerada. Eu acho que ela vai surpreender. Eu estou muito apaixonada por ela, apesar de ser suspeita para falar”.

Abordar o sobrenatural não chega a ser um desafio. Foi através do gênero, inclusive, que Pepper caiu nas graças dos leitores ao apresentar a morte de uma maneira quase irreverente. Até mesmo charmosa, digamos assim. Na trilogia Não Pare!, a autora trouxe uma história de amor intensa, trágica, com todos aqueles elementos capazes de arrebatar os corações e tirar o fôlego. A ideia de falar sobre a morte, ela contou, veio do best-seller A Menina Que Roubava Livros, de Markus Zusak, que a instigou a pensar no tema de uma maneira natural.

“Não tive receio em abordar este assunto”, garantiu. “Na verdade, a minha intenção nunca foi querer abordar o tema da morte para os jovens. A ideia veio enquanto eu lia o livro A Menina que Roubava Livros, que é narrada pela Morte. Então, eu me senti muito atraída por aquela ideia. Caramba, que coisa legal! A morte teve sentimentos. Eu fiquei imaginando… Apesar de ser um assunto tão delicado, acho que ficaria tão delicado se a gente imaginar que a morte é muito carismática, interessante. Gera curiosidade. Qualquer que seja a sua idade. Você não sabe. De repente, esbarrou com ela no ônibus, ali numa praça e aquela pessoa veio para buscar outra. Quem não garante que isso não existe? Enfim, ninguém pode garantir, e eu criei todo o meu imaginário, todo o meu mundo em cima disso e curiosamente algumas coisas foram ficando mais arrumadinhas com o tempo. Baseado na morte que vinha te buscar, você sabia a que clã esta pessoa pertencia. E, baseado no clã, você saberia que tipo de morte a pessoa teria”.

Apesar da responsabilidade de criar todo um mundo novo de forma que ele ficasse crível e fosse aceito pelos leitores, Pepper não se mostrou intimidada. Sua maior preocupação, no entanto, era tornar toda a experiência agradável para o público. Fácil certamente não foi. Num mercado em que somente agora os autores nacionais estão, enfim, ganhando o espaço que merecem – e olha que ainda tem muito caminho a ser percorrido -, a autora se destacou num gênero tradicionalmente ligado aos homens. O preconceito, contudo, foi vencido pelo reconhecimento de sua escrita e capacidade de envolver.

“O processo da trilogia Não Pare! foi demorado”, afirmou ela. “Foram quase quatro anos desde a gravidez do meu filho até eu concluir. Até estar completamente pronta. Eu tive que basicamente ir me aprofundando no mundo. O meu maior desafio foi criar olhos para o meu leitor. Quando eu decidi criar um mundo novo, eu quis fazer tudo da melhor forma possível para que não ficasse muito enfadonho para o leitor. Queria que aquele mundo fosse sendo pincelado, esculpido aos poucos. Gente, eu acho que o escritor tem a obrigação de ser os olhos do leitor. Dar a ele a cor, o sentimento. Muitas vezes, a história passa sem sentimentos. Se a história é contada em primeira pessoa, puxa, é tão bom estar dentro do coração daquele personagem. Sentir suas dores, suas alegrias. E, para mim, isso sempre contou muito e foi o maior desafio. No início, senti preconceito, sim. E não foi dos autores. Foi dos próprios leitores. Por incrível que pareça. ‘Que isso! Mulher escrevendo fantasia no Brasil?’. Não eram capazes de imaginar que eu poderia escrever um história com o foco feminino, mas com guerreiros que pudessem se apaixonar e ter uma pegada feminina, mesmo em um universo com bastante ação. Eu senti. Mas curiosamente foi uma grande vitória. Os próprios leitores foram posteriormente quebrando esta muralha. E, quando eu fui vendo, eles se tornaram os meus soldados, né? Os meus leitores. Esse reconhecimento do público é praticamente surreal. Ainda preciso me beliscar. Às vezes, não acredito. Acredito numa força superior que vem me ajudando o tempo todo”.

Trilogia ‘Não Pare!’, de FML Pepper / Site da autora

Mesmo acreditando em outras forças, Pepper ressaltou a importância de o autor fazer a sua parte, estar presente em todas as áreas, especialmente online. E disso ela pode falar com propriedade, uma vez que, antes de ter a sua série publicada pela Valentina, ela foi conquistando o seu espaço como autora independente no meio digital. Para ela, a grande diferença entre os processos é o fato de, através do digital, o autor ter total controle sobre a sua obra e, ela atestou, receber mais pelo seu trabalho. Já no que diz respeito aos livros físicos, Pepper destacou o alcance das livrarias.

“No digital você é responsável por todas as etapas”, detalhou. “Então, o autor que mergulha nas águas do mundo digital, da produção independente, tem que ter aquele jeito de autodidata, tem que ser um autônomo. Ele vai ser responsável por tudo, praticamente. Escrever, publicar, fazer a capa, escolher capa, passar por tudo. Não que não vai ter ajuda. É claro que pode ter ajuda, mas você é o responsável. Tem um lado muito legal porque vai ficar exatamente do jeito que você quer. No digital você também ganha mais. Se no físico você ganha 10% do preço de capa, no digital você pode ganhar até 70% do valor de capa, o que é fabuloso. Já no meio físico tem uma coisa fundamental: você abrange as livrarias. Você vai aonde está o povo. Então, isso é muito curioso. O meio físico é que acaba te dando uma cara. Mas é fundamental estar online. Quem não estiver presente no meio digital está perdido. O autor que não está na internet, nas redes sociais está perdido. É a nossa forma de conversar. Obviamente, temos aquelas raras exceções. Mas, para os meros mortais – e eu me coloco nesse grupo -, para começar a ser conhecido você tem que conversar com os seus leitores, e essas plataformas são as melhores. Então, se transformaram também em grandes vitrines. Elas são vitrines. E essas vitrines estão abrindo o mercado editorial para os novos autores. Antigamente, você não tinha como. Agora tem. Coloca o livro lá na Amazon, como foi o meu caso”.

Para quem ainda não sabe, Pepper, além de escritora, também é dentista. E, mesmo com uma rotina completamente atribulada e duas profissões totalmente diferentes, dedicação e satisfação não faltam! E, ainda que hoje ela seja reconhecida por suas obras, Pepper garantiu não criar expectativas, muito menos pretende abrir mão de qualquer função.

“Minha rotina é louca”, declarou. “Totalmente louca. De manhã, tenho os compromissos com o meu filho. Depois, pego o carro e vou para o consultório, onde eu fico das 13h até as 20h. Eu tenho uma tarde e meia para escrever. Sou escritora de uma tarde e meia por semana. E mais de madrugada, quando eu tenho insônia. E alguns horários vagos. Então, é muito louco. Consultório, pacientes, casa. Eu amo odontologia. É minha outra profissão em que sou bem-sucedida. É muito mais complicado. Quando você tem outra profissão não tão bem-sucedida, fica mais fácil abrir mão. Quando você gosta de uma profissão, e é bem-sucedida, e arruma outra profissão e gosta dela também, está apaixonada por ela, como faz? A escrita representa prazer. Satisfação e desafio. Porque, com certeza, eu não me iludo. Eu posso ter tido a sorte de ter uma ideia muito boa. Quem me garante que as minha próximas ideias serão assim tão boas quanto a primeira? Talvez, não seja. Eu não me iludo com isso. Stephen King, por exemplo, tem no conjunto da obra dele muitos livros bons e outros, nem tantos. E eu acredito que isso aconteça com um autor que ponha a cara a tapa, que não para. Diferente de um autor que só escreve uma trilogia e nunca mais vai escrever . Nunca mais vai colocar a cara a tapa para escrever outros livros, ver se outros livros vão ser sucesso. Nem sempre a gente faz sucesso em tudo, como na vida! Nem sempre a gente tem sucesso em tudo, mas não é por isso que você vai colocar qualquer obra no mercado. Escrever rapidinho”.

No que depender do público, Pepper não precisa se preocupar. Sempre bem recebida em eventos literários, a autora exaltou a possibilidade de estar próxima de seus leitores e trocar experiências.

“Estar com eles é maravilhoso”, concluiu. “É a hora que eu mais curto. Porque o autor é muito sozinho, muito solitário. Você fica escrevendo aqui e tal. E, mesmo por meios digitais, você é muito solitário. Você está do lado de cá e o leitor, do lado de lá. É nesses eventos que você vai lá e abraça. Pega e a pessoa fala ‘eu vou te matar! Como é que você faz aquilo com a personagem?!’. Você vê a pessoa ainda mais apaixonada pela sua personagem do que você. Isso é tão incrível. Tão surreal que eu não tenho palavras”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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