Deuses Americanos, de Neil Gaiman | Resenha

livro:
Neil Gaiman

Reviewed by:
Rating:
4
On 12/12/2016
Last modified:23/06/2017

Summary:

Gaiman mostra a sua genialidade numa narrativa densa e incômoda.

‘Deuses Americanos’: uma representação dura, mitológica e verdadeira da atualidade

Você acredita em destino? Qual é a sua crença? Aliás, em quê você acredita? Ou não acredita em nada? Em Deuses Americanos, relançado recentemente com a edição preferida do autor pela editora Intrínseca, Neil Gaiman não apenas nos questiona, mas provoca uma reflexão coletiva acerca acerca dos valores, ou melhor, da inversão de valores que rege a sociedade contemporânea.

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Na trama, Shadow está contando os dias para sair da cadeia, após cumprir a pena de três anos, e rever sua mulher, Laura. Até que, em sua última semana como presidiário, ele é surpreendido por uma notícia que iria mudar a sua vida para sempre. Já fora da cadeia, ele conhece o carismático e misterioso Wednesday – o melhor personagem e a melhor representação de TUDO o que Gaiman pretende expor – , que lhe faz uma proposta tentadora de trabalho, porém, sob a condição de Shadow se submeter a ele, sem maiores explicações. E é a partir dessa convivência que o sombrio e frio Shadow se vê obrigado a encarar os fatos de que o mundo que ele acha que conhece não existe e que há algo muito maior do que ele mesmo sequer poderia imaginar. E que os deuses não apenas existem, mas também influenciam os rumos da sociedade.

Deuses Americanos foi minha primeira experiência nesse vasto universo literário criado pelo brilhante Neil Gaiman. Mitologias me fascinam e, assim que li a sinopse, esperei ávida pelo livro para descobrir o ponto de vista do autor sobre o tema. E, nossa, como me supreendi. Fui catapultada para um mundo completamente arrebatador, eletrizante, agoniante, cruel e hipnotizante desenvolvido por Gaiman. Em minha humilde opinião – porque me sinto até intimidada para falar sobre uma obra do Gaiman, ainda mais essa – não é uma leitura fácil, ágil. É incômoda e, até mesmo, um pouco cansativa, em alguns momentos. No entanto, a narrativa de Gaiman é tão verdadeira, tão avassaladoramente detalhista que torna tudo muito mais fluido, porque você acaba se convencendo de que precisa entrar cada vez mais naquela história pitoresca e chegar até o final para descobrir até onde vai a criatividade mirabolante do escritor.

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Esqueça as tramas sobre mitologias. Aliás, esqueça tudo o que você sabe sobre os deuses. Porque Gaiman desconstrói todas as ideias que temos sobre mitos, crenças e religiões e expõe o lado mais egoísta, grotesco e incrivelmente humano das divindades. Shadow não é apenas um protagonista. É um anti-herói que amamos odiar e odiamos amar. Isso porque ele é desprovido de emoções, cético e desprovido de qualquer carisma. No entanto, é possível se identificar com Shadow. Sim, porque ele representa a nossa vulnerabilidade, o nosso lado cético e principalmente a nossa fragilidade. Mesmo sendo um sujeito grandão.

Por outro lado, os personagens secundários, em sua maioria, os próprios deuses das mais variadas religiões, são de uma riqueza criativa impressionante. Esses deuses nos representam. Todos. Os antigos e os novos. Por falar nisso, que sacada GENIAL de Gaiman, ao colocar a crença ou a falta dela como meio de sobrevivência desses seres mitológicos e, portanto, a justificativa para o sumiço de boa parte deles, uma vez que a sociedade atual não se prende a praticamente nada.

A crítica feita por Gaiman não é nada sutil, mas é impecavelmente bem construída e desenvolvida. Esses deuses nos representam, sim. E, mais do que isso, são criados por nós mesmos. Os novos deuses, que representam a mídia, a tecnologia e outras peculiaridades da sociedade atual, são representações clássicas do padrão contemporâneo, da superficialidade em que nós mesmos nos colocamos e vivemos. Um mundo em que o supérfluo é cultuado em detrimento daquilo que realmente importa. Um mundo – no caso, representado pelos Estados Unidos – que não é bom para os deuses. Justamente por ser um mundo que perdeu a fé. Seja ela qual for.

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Nesse mundo, os deuses perdem aquela áurea imaculada e se corrompem pelo comportamento humano. E criam uma guerra entre eles mesmos, que vem a corroborar a crítica construída no livro. Gaiman não se omite e não nos priva de nada. Nem de informações e muito menos de leveza. Ele escancara os buracos cavados em nosso caminho e mostra que o ser humano – e os deuses – prezam apenas por seus próprios interesses. Não há mais compaixão, amizade, lealdade, solidariedade. Hoje, vale mais o status, a posse e o poder. Deuses Americanos não explica, não responde e não é um livro para aqueles que esperam um final feliz ou uma redenção. Mas é um recado muito claro de Gaiman para aqueles que estão dispostos a encarar a sua realidade brutal. O melhor é que tudo isso é feito sem qualquer pretensão. Gaiman não procura ditar uma “verdade absoluta”, mas nos presenteia com a sua genialidade indiscutível.

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Gaiman mostra a sua genialidade numa narrativa densa e incômoda.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

4 comentários em “Deuses Americanos, de Neil Gaiman | Resenha

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