Resenhas

Piranesi, de Susanna Clarke | Resenha

‘Piranesi’: uma viagem repleta de devaneios e reflexões

Imagine-se abrindo os olhos e se vendo perdido(a) em um lugar que pode ser um tipo quase inexplicável — mas estou tentando explicar mesmo assim, porque sou teimosa — de torre labiríntica, com grandes salões em todas as direções. E, nesses salões, há estátuas retratando seres e cenas do mundo real de onde você veio, mas o qual parece ser um tipo de sonho agora. Foi mais ou menos isso o que eu senti quando comecei a ler Piranesi, da autora inglesa Susanna Clarke, trazido para o Brasil pela editora Morro Branco.

O livro se passa em um mundo alternativo, que ficamos conhecendo, através do protagonista, como Casa. E somos levados por ela, pelos seus salões, alguns nos quais as ondas do mar batem com violência em época de maré alta. Sob o ponto de vista de um homem, admiramos a descrição de suas estátuas diversas. Esse homem atende pelo nome Piranesi; nome esse dado a ele pela única outra pessoa que ele vê neste mundo também, a quem ele chamou de Outro — criativo, né?

Múltiplos questionamentos

A história é contada em primeira pessoa pelo Piranesi. Estamos presos à sua percepção deste mundo e de tudo o que o cerca. Vale notar que Piranesi ama a Casa, o que me fez começar a amá-la também. Mas, ao mesmo tempo, eu fiquei com a pulga atrás da orelha quanto a tudo no lugar: como ele funciona? Como foi criado? O que é este lugar? Aonde fica? E também por que apenas o Piranesi e o Outro estão ali? Quem é o Outro? Como o Piranesi foi parar ali, e a pergunta que mais me deixou curiosa durante o livro inteiro:

Quem, de fato, é o Piranesi?

Todas essas perguntas surgiram para mim logo nas primeiras páginas, o que manteve acesa a minha vontade de continuar a leitura. Na minha opinião, essa capacidade — de fazer surgir uma curiosidade que precisa ser saciada — é uma das características mais importantes em uma história.

Devaneios e reflexões

Piranesi me fez refletir muito. Eu me peguei, mais de uma vez, com o livro aberto, mas com a mente distante. Criando teorias. Tentando entender, por minha própria conta, o que estava acontecendo e o que a autora queria dizer com tudo aquilo.

Não vou compartilhar minhas reflexões aqui. Acho que cada um devia fazer a sua, unicamente pelo fato de que interpretações diferentes podem ser ainda mais enriquecedoras. Porém, se quiser conversar sobre, estou à disposição nos comentários ou nas redes sociais do Vai Lendo.

Piranesi e a Casa

Pela história, Piranesi vai nos contando tudo o que descobriu sobre a Casa e como ele consegue sobreviver sozinho nela. A forma como ele fala dela me fez enxergá-la como mais um personagem e, de certa forma, me apaguei a ela também. Mesmo quando as peças do quebra-cabeça que Clarke nos apresenta na forma de uma história começam a se juntar.

O próprio nome, tanto do protagonista quanto do romance em si — já que ambos são o mesmo —, também me chamou muito a atenção. O nome Piranesi foi atribuído ao protagonista pelo Outro. Ou seja, esse nome lhe foi dado, por outra pessoa, depois que ele foi parar na Casa . Na verdade, ele não se lembra do próprio nome, como de muitas coisas, o que deixa a história ainda mais misteriosa e, às vezes, um pouco assustadora.

Quem é Piranesi?

Primeiramente, achei Piranesi um nome muito sonoro e de tom enigmático, o que fez com que eu fosse pesquisar sobre ele. Acabou que me deparei com a história de um homem que se chamava Giovanni Battista Piranesi e seu filho – que continuou com o seu trabalho após a sua morte. Ele viveu no século XVIII e foi um tipo de artista de muitos talentos.

Mas o que interessa é que, ao pesquisar o nome e encontrar Giovanni, eu consegui criar um vínculo entre ele e o Piranesi da história de Clarke. Assim, consegui desvendar boa parte do que fez com que o Piranesi fictício fosse parar naquela torre labiríntica, e as minhas teorias começaram a tomar forma. Sem falar que as artes do Piranesi real são bem legais e algumas se relacionam com a história de Clarke.

Se você acha que ler um livro nada mais é do que virar páginas, estou aqui te provando que não é. Pelo menos, não quando a história é bem feita.

A enigmática capa

A capa foi outro elemento que despertou a minha curiosidade e me fez procurar por um significado para ela. Afinal, por que um sátiro tocando uma flauta doce estaria na capa, para todos os efeitos, minimalista do livro Piranesi?

Não consegui identificar uma ligação muito clara. Tudo o que eu tenho são ideias a respeito — talvez, algum tipo de ligação com o mito grego do sátiro Marsias. Mas não tenho certeza.

Aceita mergulhar por esta experiência?

Espero não ter viajado demais nesta resenha reflexiva. Se você tinha alguma dúvida sobre experimentar mergulhar em Piranesi ou não, espero ter te ajudado a tomar uma decisão. Pessoalmente, eu estou muito feliz por ter decidido abrir o livro e me aventurado nos salões da Casa, cuja Beleza é imensurável e sua Bondade, infinita.

Título: Piranesi | Autora: Susanna Clarke | Editora: Morro Branco | Tradutora: Heci Regina Candiani | Páginas: 256

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