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Tupinilândia, de Samir Machado de Machado | Resenha 

‘Tupinilândia’: uma aventura para chacoalhar as nossas lembranças e mostrar que nem tudo no passado é mágico

Um mundo perdido esquecido na minha estante. Por mais de três anos, Tupinilândia, de Samir Machado de Machado, publicado pela Todavia, ficou com a lombada virada para mim, sendo ignorado pelos meus olhos. Foi quando buscava um título nacional para ler que a obra se revelou. Não sabia muito bem o que esperar. Ao abrir o livro, percebi que não era apenas uma leitura. Estava me credenciando para viver uma aventura fantástica através da nostalgia, percorrendo um Brasil que nunca chegou a ser “o país do futuro” e terminando num lugar parado no tempo, debaixo das sombras.

Sinopse ‘Tupinilândia’ 

No Pará, década de 1980, em meio à floresta amazônica, existe um mundo de fantasia e exaltação da cultura nacional sendo construído secretamente. Batizado de Tupinilândia, o parque de diversões é um ambicioso projeto do industrialista João Amadeus Flynguer.  

Fascinado por Walt Disney, Amadeus busca criar algo grandioso em meio à reabertura do país. Um parque, nos moldes da Disneylândia, para celebrar a cultura brasileira. Um lugar fantástico, onde problemas não existam e que o público possa se deixar levar pela magia e diversão. Um grande sonho (ou melhor, obsessão) do seu criador. 

Durante o final de semana de testes, antes da inauguração, um grupo de militares da linha dura invade o local. Passados mais de 30 anos, Artur, um arqueólogo especializado em nostalgia e obcecado pelo mito de Tupinilândia, recebe autorização para mapear o parque. Entretanto, ao chegar com a sua equipe nas ruínas, descobre um terrível segredo.

Dois livros em um 

Tupinilândia é uma obra dividida em duas partes: Versão brasileira e Mundo perdido, respectivamente. Apesar da relação, são bem distintas e, em alguns momentos, há a sensação de serem livros diferentes. 

Em Versão brasileira, acompanhamos a idealização do sonho de Amadeus, os desafios de sua construção. A trama apresenta uma contextualização histórica que aproxima ficção da realidade. Ela é mais ufanista, mágica.  

Já em Mundo perdido, vemos a transformação deste projeto em um pesadelo. Aqui, os ares aventureiros ficam intensos, com muita ação. Tudo é mais insano, caótico e foge um pouco do real, beirando o absurdo. 

O cenário, Tupinilândia, é o mesmo nas duas narrativas. Os personagens centrais, entretanto, são outros (ainda que haja participações) e o tom do texto muda bastante. Inclusive, cada parte tem uma história completa. Com começo, meio e fim.  Contudo, mesmo distintas, as duas se complementam e, com a abordagem da nostalgia, fazem ainda mais sentido. 

O mito de Tupinilândia 

Uma das características que mais me impressionaram na leitura é a construção do mito em torno de Tupinilândia. 

Quando Samir Machado de Machado utiliza a linguagem jornalística no prólogo do livro, com um recorte sobre o João Amadeus Flynguer, é criada, logo na abertura, a sensação de que tudo é real. A reportagem escrita por Tiago Monteiro, personagem jornalista que posteriormente é contratado para documentar o projeto, colabora, e muito, para esta atmosfera.  

No decorrer da primeira parte, Versão brasileira, o autor também utiliza fatos reais para compor a sua história e, de certa forma, agrega um valor mítico à Tupinilândia. Afinal, muita coisa citada na obra realmente aconteceu. E, em se tratando do nebuloso período militar, tudo é possível. 

Como o parque foi construído em segredo, em lugar de difícil acesso e nunca chegou a ser inaugurado, fica aquele questionamento: será que Tupinilândia existe? 

Uma grande referência

Em Tupinilândia, tudo é uma grande referência. Tanto no parque de diversões, quanto no livro. Quando Amadeus criou o parque, a ideia era, como no original de Walt Disney, transportar o público para um local de completa imersão. Onde seria possível embarcar em uma aventura mágica, nostálgica e reconfortante. 

Samir Machado de Machado consegue não só criar um universo minimamente detalhado, como inserir várias referências a outros produtos da cultura pop. Nada parece estar ali por acaso. Com isso, o autor fisga o público pela nostalgia, irônica e intencionalmente a temática do livro.  

É nítido que há também uma apropriação/referência na forma como a narrativa é desenvolvida. O leitor é tomado por aquela sensação de “já vi esse filme”. Entretanto, até os clichês parecem necessários para a consolidação da obra. Ao mesmo tempo, Samir apresenta algo original e bastante criativo. 

Um universo mágico

Ler Tupinilândia não é apenas embarcar em um livro de aventuras, mas viver uma experiência. A descrição do parque é de uma riqueza absurda. Eu fechava os olhos e me via percorrendo aquele lugar. Testemunhando aquilo tudo. Tem até mapa! O autor não apenas descrevia os cenários, como também as atrações e as sensações provocadas. Samir criou um universo mágico inteiro (com personagens à la Mickey Mouse, revistinhas, produtos licenciados e até moeda local), garimpando elementos culturais brasileiros e ressignificando-os. 

Tempos sombrios

A construção de Tupinilândia é a exaltação dos novos tempos e da cultura brasileira, oriundos da redemocratização do Brasil. Todavia, sua abertura é ameaçada por um grupo linha dura do governo militar. Não quero me alongar aqui, para evitar spoilers, entretanto, a segunda parte do livro é, digamos assim, distópica. E, como toda distopia, num primeiro olhar, parece uma insanidade fantasiosa, mas que pode estar bem mais próxima da realidade. 

Tupinilândia é de 2018, contudo, ler a obra no atual governo tem outro significado. A segunda parte do livro faz muita referência a um filme de ação da década de 1980. Tem muito tiro, porrada, bomba, efeitos especiais e vilão totalitário extremamente estereotipado. Caso tivesse lido no lançamento, acharia válida a referência e condizente com a proposta, mas não levaria a sério. Seria simplesmente uma aventura. 

Hoje, em tempos sombrios, confesso que foi um pouco assustador ver personagens fictícios bem parecidos com pessoas próximas. Bem como pensamentos absurdos, antes ironizados, sendo proferidos na maior naturalidade e convicção.

Reflexões sobre a nostalgia

Embarcar por Tupinilândia foi uma experiência divertida. Fiquei fascinado por inúmeros aspectos. A obra, além de ser uma aventura, proporciona boas reflexões.  

De todos os temas apresentados, confesso que a nostalgia foi a que mais despertou a minha curiosidade. Inclusive, estudei sobre para fazer o meu trabalho de conclusão da graduação. Por isso, talvez, eu tenha ficado tão absorvido pela narrativa. 

Samir Machado de Machado soube trabalhar a nostalgia, que é a espinha dorsal da narrativa, com maestria. O autor conseguiu ressignificar o passado na construção de um produto do entretenimento, Tupinilândia. Além disso, criou também uma identidade ufanista nacional, discutiu a nossa percepção sobre as memórias e, principalmente, evocou esse sentimento saudosista no leitor.  

Tupinilândia não só provoca uma volta no tempo, mas também uma reflexão sobre o que queremos para o hoje e o futuro. A obra chacoalha nossas lembranças. Mostra que nem tudo é magia. E que devemos ter cuidado ao exaltar em demasia o passado.

Título: Tupinilândia | Autor: Samir Machado de Machado | Editora: Todavia | Páginas: 448

Apaixonado por histórias, tramas e personagens. É o tipo de leitor que fica obsessivamente tentando adivinhar o que vai acontecer, porém gosta de ser surpreendido. Independente do gênero, dispensando apenas os romances melosos, prefere os livros digitais aos impressos, pois, assim, ele pode carregar para qualquer lugar.

Um comentário

  • Samir Machado de Machado

    Que resenha adorável! Obrigado pelas palavras gentis, e fico feliz que tenha apreciado a leitura.

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