Resenhas

Eu Devia Estar Sonhando, de Michel Bussi | Resenha

Normalmente, eu gosto de escrever sobre livros que eu achei bons. Livros sobre os quais eu quero que o mundo conheça e converse comigo sobre o quanto amamos essa história. No entanto, desta vez, eu vou falar sobre uma história que não me agradou e vou explicar o porquê. Eu Devia Estar Sonhando, de Michel Bussi, publicado pela editora Arqueiro, foi pura decepção.

Contudo, o livro começa com uma premissa incrível. Olha só. 

Nathalie, uma comissária de bordo francesa, percebe que está vivendo um deja vú muito intenso. Há duas décadas, em 1999, ela fez uma ordem de voos que mudou completamente a sua vida. Ela conheceu um grande amor. O tempo, no entanto, passou e, em 2019, mostrou que prega peças, porque decidiu que ela faria a mesma ordem de voos e, inclusive, com a mesma equipe. 

Até aí nada, não é? Uma coincidência bizarra, mas só isso. Ela, porém, começa a perceber pequenos detalhes que mostram o quanto aquele período, lá em 1999, foi importante para ela. E o amor que ela enterrou há tanto tempo volta com a força de um vulcão para assombrá-la. Ela decide entender o porquê disso tudo visitando todos os lugares pelos quais passou na primeira vez. Será que é algo mágico? Ou alguém armou essa viagem pelo túnel do tempo para ela? 

Preciso começar explicando porque odiei esse livro pela escrita do autor. Michel Bussi também escreveu O Voo da Libélula e Ninféias Negras (também publicados pela Arqueiro), conhecidos thrillers. Eu Devia Estar Sonhando seria uma tentativa de romance misturado ao que ele estava acostumado a escrever. Mas tudo o que eu senti que saiu dali foi uma baita confusão, numa tentativa falha de thriller com um romance nada envolvente. Inclusive, muitas resenhas no Skoob falam sobre o constante estado de confusão da protagonista durante a narrativa, para lançar um final bem ruim que joga respostas do nada para o leitor. 

Até aqui temos: uma ideia boa, uma execução bem ruim. Se fosse só isso, não seria tão desastroso. Mas piora. A escrita de Michel Bussi soou o tempo todo muito arrogante para mim, contudo, esse não foi o pior defeito dela. A pior parte foi o jeito que ele fez uma personagem mulher falar sobre outras mulheres e sobre si mesma. O livro todo é na terceira pessoa com um narrador onisciente, ou seja, que conta para nós o que o personagem sente e pensa. Assim, nós sabemos o tempo todo como Nathalie reage. E é assustadoramente machista.

Nós somos lembrados o tempo todo como ela é mais velha, como sua beleza não é mais como antes e isso é tratado como um problema, um obstáculo, e não como uma condição normal da vida. Além disso, a sororidade feminina foi pelo ralo no livro. Nathalie critica outras mulheres e as estereotipa de acordo com o que elas vestem e fazem, sem nem conhecê-las, o tempo todo. 

E, por fim, – aqui vem um spoiler, mas não posso deixar de incluir nessa resenha -, ao final do livro, ela é culpada pelo fracasso profissional do amante de décadas atrás. Meu querido, ela ficou 20 anos longe do cara. VINTE ANOS. Se ele não conseguiu ser um músico famoso, não é culpa dela. Sim, eu entendo que há o coração partido, mas, mesmo assim, no livro fica bem claro que ele não tenta crescer o suficiente (seja pela personalidade, seja pela falta de oportunidades) e, no fim, a culpa é de quem? Da mulher. 

Todo o livro é surreal e incomoda muito, principalmente as leitoras mulheres. 

Título: Eu Devia Estar Sonhando | Autor: Michel Bussi | Editora: Arqueiro | Tradução: Carolina Selvatici | Páginas: 384

 

 

Apaixonada por música, cinema, séries e literatura, história mundial e andar de bicicleta. Sonha em ter muitos carimbos em seu passaporte, mas por enquanto escreve sobre o que leu, viu e gostou no Anatomia Pop.

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