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A Metade Perdida, de Brit Bennett | Resenha 

24 julho, 2021 por

‘A Metade Perdida’: uma obra envolvente e reflexiva sobre apagar o passado e o racismo 

A Metade Perdida, de Brit Bennett | Resenha 

A edição 030 do Intrínsecos, clube de assinatura da editora Intrínseca, traz uma obra delicada, profunda e instigante. Em A Metade Perdida, de Brit Bennett, conhecemos a história das irmãs Vignes, gêmeas idênticas que, em meados dos anos 1950, aos 16 anos, fogem de casa no sul dos Estados Unidos. Enquanto Desiree se casa com um homem negro e é obrigada a retornar ao lugar de onde escapou, Stella é vista como branca, e o marido branco desconhece o seu passado.

Será que é possível apagar o passado e viver uma nova vida? O livro aborda como a cor da pele é determinante na vida de uma pessoa, mostra a tenuidade desta separação e o impacto social. Fala da busca por identidade, aceitação e a complexidade de se renegar as origens.  

Uma narrativa envolvente

Desde a volta da gêmea Desiree com a filha de pele mais escura, na abertura de A Metade Perdida, Brit Bennett consegue fisgar o leitor. Os olhares preconceituosos da pequena e fictícia Mallard trazem indignação aos olhos atuais, da mesma forma que despertam o interesse em compreender aquela sociedade. A própria cidadezinha sulista americana merece um olhar atento, já que o embranquecimento da população foi a base da sua fundação.

Tudo é muito envolvente! A sucessão de acontecimentos. Reflexões. Passado e presente se misturando. Personagens incríveis. Nada parece estar fora do lugar. A narração é impecável. Já no começo da trama, Brit Bennett provoca uma ansiedade no leitor para o grande reencontro das irmãs, ao mesmo tempo em que mergulhamos nos dramas de cada uma delas. Nada é tão simples. A cor é algo determinante. Infelizmente, até hoje.

Embranquecer

A tonalidade da pele é o ponto de partida para inúmeras reflexões e problemáticas abordadas em A Metade Perdida. Apagar um passado. Acabar com as origens. Embranquecer. É um tema delicado e atual.

Stella, a gêmea que sumiu no mapa, passa a viver como branca. Mas a que custo? Entre amor e ódio à personagem, acompanhamos as suas conquistas e traumas enquanto mulher branca. Em boa parte da narrativa, apesar da raiva que senti, compreendi as suas escolhas, me compadeci. Em outros, foi difícil tolerar, apesar de saber do contexto e de entender o seu posicionamento. O racismo acaba com o psicológico de qualquer um. Destrói pessoas. Apaga todo um passado, uma cultura.

Personagem trans

Apesar do tema central ser o racismo, A Metade Perdida, me marcou também na reflexão sobre a transexualidade. Nunca uma obra me tocou tanto no que tange o tema. Fiquei angustiado por alguém não se reconhecer no próprio corpo. Sei da importância da cirurgia, mas o texto me trouxe uma agonia que nunca havia sentido. Fiquei mal pelo Reese, um personagem que, no fim, parecia um amigo próximo.

Um livro, muitas reflexões

Uma boa história precisa envolver e, de alguma forma, tocar o leitor. Mudar a sua percepção de mundo, trazer reflexões. A Metade Perdida cumpre maravilhosamente o seu papel. Com personagens cativantes e um texto belíssimo (apesar de duro, expondo as mazelas do racismo), Brit Bennett constrói um drama familiar que aborda preconceito, separação e os impactos de se apagar o passado na busca por um futuro com mais possibilidades.

Título: A Metade Perdida Autora: Brit Bennett | Editora: Intrínseca | Tradutora: Thaís Britto | Páginas: 336

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