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Piano Mecânico, Kurt Vonnegut | Resenha

30 novembro, 2020 por

‘Piano Mecânico’: um clássico da ficção científica que dá o que pensar

Piano Mecânico, de Kurt Vonnegut, publicado aqui no Brasil pela editora Intrínseca, definitivamente não foi o que eu pensava.

Para mim, foi um livro de fácil leitura, mas interpretação difícil — é o tipo de obra que você termina de ler e precisa ficar um tempo pensando na história até chegar à conclusão de que não entendeu nem a metade do que o autor queria mostrar. Pessoalmente, eu acho livros assim um barato — as pessoas ainda falam assim?

Em Piano Mecânico, eu diria que o foco da história está na sociedade e na forma como ela mudou nessa distopia. Pelo que entendi, o livro se passa no futuro e existe um nível hierárquico social bem específico, que é estabelecido pelo Q.I.

Só com isso eu já comecei a pensar: vish…

Mas é isso aí. Todo mundo tem que passar por testes que medem o Q.I., e é o resultado que define se a pessoa se tornará um dos membros dos Ruídos e Fedidos — pelo nome, já dá para notar que não é boa coisa, né? —, e fará parte da parcela maior, menos afortunada e “descartável” da sociedade, ou se ela será um engenheiro.

Os engenheiros que mandam em tudo. Todo mundo quer ser engenheiro, porque são eles que gerenciam as indústrias e as máquinas. Por que as máquinas são importantes? Porque estamos falando de um tempo em que tudo quanto é tipo de máquina foi inventada para substituir o trabalho humano.

É aí que entra o dilema: os humanos estão perto de se tornarem descartáveis. Esse é o grande problema que a história nos propõe. E, se quiser saber como isso é resolvido, eu sugiro que vá ler o livro — e, depois que ler, venha conversar comigo sobre, porque eu estou bem a fim de uma conversa, antes que a minha cabeça exploda.

Apesar do foco na sociedade, temos um protagonista, o dr. Paul Proteus — te desafio a falar esse nome cinco vezes e rápido —, um engenheiro brilhante e muito promissor. Inicialmente, achei que ele fosse o pior protagonista que eu já tinha visto. Até que comecei a entender que o foco da história não era no Paul especificamente, mas em como a sociedade e as regras criadas para ela o atingiam e o faziam mudar. Paul nada mais é do que um fantoche — nisso ele é muito bom, porque praticamente tudo o que acontece está fora do controle dele. E, mesmo quando é algo que ele quer que aconteça, não é por mérito dele. E ele simplesmente aceita tudo isso, chegando a ser irritante.

Acho que o intuito é justamente causar essa irritação. Foi assim — enquanto xingava o Paul — que parei para pensar e percebi o que eu acho que foi a intenção do autor com esse livro. É claro que eu não vou falar o que é, porque senão perde a graça.

Todos os outros personagens são bem montados e contracenam muito bem com Paul, sendo cada um deles bem diferente dele — justamente como uma forma, eu acho, de mostrar as várias faces dessa sociedade. Temos o tipo agressivo, que toma as atitudes; temos o tipo absolutamente satisfeito com tudo e temos um ambicioso e aproveitador, que tenta alcançar o topo de qualquer maneira e às custas dos outros.

Outro fator que eu observei desde o início foi na forma como as mulheres são retratadas. Não há nenhuma mulher engenheira na história. Na verdade, há apenas duas mulheres com papel um pouco mais relevante, que são completamente o oposto uma da outra, mas eu diria que ambas ocupam um espaço bem secundário na sociedade em questão. Achei uma boa crítica — espero que tenha sido uma crítica, pelo menos.

A despeito de, depois que consegui entender — pelo menos, eu acho que consegui entender —, ter achado o livro fenomenal, a história é bem parada. Quase não tem ação. Mas os diálogos são excelentes e me fizeram não sentir falta de ação.

Acho legal também comentar sobre o título, que em inglês é Player Piano e faz mais sentido do que o título em português. Eu ainda não consegui entender a ligação de “piano mecânico” com a obra em si.

Sobre o final, é absolutamente incrível e irônico — isso é tudo o que eu vou dizer, senão vou falar demais.

Quanto ao trabalho da editora, a única ressalva que tenho é sobre a revisão. Vi muitos erros que eu acho que não deveriam acontecer, o que é estranho, considerando que a editora não costuma fazer isso. Mas gostei muito de todo o resto.

Apesar de não ser o que eu estava esperando e de não ser propriamente uma leitura prazerosa, Piano Mecânico se revelou uma história com muito potencial para reflexão. Acho que aprendi coisas boas com esse livro.

Título: Piano Mecânico | Autor: Kurt Vonnegut | Editora: Intrínseca | Tradutor: Daniel Pellizzari | Páginas: 496

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