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FLIPOP 2020: Resumão do primeiro dia

13 julho, 2020 por

*com Juliana d’Arêde

A FLIPOP 2020 começou e, por motivos de forças maiores, é toda online. Nós, do Vai Lendo, fizemos um apanhadão com a programação e mais informações do evento aqui. Com esse post, a nossa cobertura começa e, se você não conseguiu ver alguma das mesas, ou está sem tempo para assistir a tudo, não se preocupe porque o resumão do primeiro dia do evento já chegou.

Mesa #1 – Criatividade em Tempo de Crise

Flipop 2020 - Dia 1 - Mesa 1

A primeiríssima mesa da FLIPOP 2020 debateu sobre um tema que fala com diversos profissionais: a criatividade em meio a pandemia, quarentena e isolamento. Entre os participantes estavam os escritores Vitor Martins, Giulia Paim e Otávio Júnior, com mediação do também autor Felipe Castilho. O bate-papo levou cerca de duas horas e trabalhou questões importantes para o dilema que é se manter criativo tão pressionado e fora da sua zona de conforto.

Como disse Castilho, “quem tá produzindo agora, tá documentando o ano zero” e perguntou como foi entrar nesse período que afeta o processo criativo dos palestrantes. Vitor falou sobre a dificuldade de entrar em uma nova rotina para a criação, enquanto Giulia compartilhou que ela vivia uma fase de transição pessoal e a quarentena interrompeu tudo. Por outro lado, Otávio levantou a questão da quarentena dentro de uma comunidade no Rio de Janeiro, onde as pessoas estão tão próximas umas das outras. 

A criatividade, no momento, para eles é um tema que precisa de precaução. Isso porque pode se tornar uma cobrança de produtividade surreal para uma hora dessas. Paim enfatiza a necessidade de terapia para ficar bem e conseguir produzir com a mente mais aliviada. Castilho perguntou se o “novo normal”, a pandemia e o isolamento já entraram na escrita deles. De um lado, Paim admitiu que alguns dos seus contos já tratam do tema; de outro, Vitor falou sobre o engavetamento do seu projeto Fred&Fred, que já tinha sido anunciado no início do ano, e disse que está trabalhando numa nova história; por fim, Otávio debateu a importância das janelas – uma alusão ao seu livro Da Minha Janela – nos tempos de hoje, uma vez que só conversamos por telas de computador e celulares.

A pandemia fez com que eles desbloqueassem alguma habilidade secreta? Em geral, os autores afirmaram que notaram movimentações internas. Vitor mostrou que vivemos um momento de observação do mundo fora da nossa bolha, Otávio conversou sobre como as pessoas estão afirmando que serão “seres humanos melhores” e “amarão mais” e questiona: elas já não amavam antes? Não eram boas pessoas antes?. Giulia trouxe, no entanto, a conquista de habilidades internas, como o aprendizado de não se cobrar tanta produtividade, de se amar mais e, para sua surpresa, cozinhar.

O debate terminou com o levantamento da necessidade de enxergar o escritor, o agitador cultural, como uma profissão real pela sociedade. “Ser escritor é uma profissão muito difícil. muito gratificante e maravilhosa, mas muito difícil”, disse Paim. Em alusão ao que Vitor Martins disse, produzir livro no Brasil é muito caro, muito difícil e com pouco acesso. “As editoras têm que dar vários pulos para o seu negócio sobreviver.Eu queria pedir que as pessoas comecem a enxergar o livro mais como um produto também, não para desumanizar, mas da mesma forma como se enxerga um filme ou uma música”, complementou. 

Confira aqui a mesa na íntegra.

Mesa #2 – Mediação de leitura dentro e fora da escola

Flipop 2020 - Dia 01 - Mesa 2

A importância de se propagar a literatura. Do mediador como figura de estímulo à leitura em tempos atuais, especialmente agora, em meio a uma pandemia. A segunda mesa do primeiro dia da FLIPOP defendeu a leitura democrática e desmistificou os pré-conceitos e estereótipos literários num bate papo com o professor de literatura brasileira da Unesp João Luís Ceccantini, a mediadora de leitura Patrícia Kanno e o ator e booktoker Tiago Valente, com mediação da jornalista e também professora de literatura Tatiany Leite, do canal Vá Ler Um Livro.

“Não existe não leitor. A pessoa só precisa encontrar aquele livro que foi feito para ela ler”. Foi assim que Ceccantini resumiu a importância do mediador, exaltando ainda a função dos livros como agentes sociais. “Num momento como esse que a gente só vê ruído, todo mundo pulverizado, perdido e isolado, o livro é uma maneira de ficarmos bem sozinhos, de olharmos para dentro, para nós mesmos, mas também de não ficarmos sozinhos nunca, de podermos conversar e conhecer todas as épocas”.

Tiago, por sua vez, ressaltou a importância dos influenciadores literários, no sentido de apresentar novas vertentes da literatura. Por isso mesmo, ele destacou o cuidado com a curadoria das obras que indica em seu perfil no TikTok.

“Eu falo sobre livros no TikTok. É uma forma de indicar e trazer a leitura para as pessoas que assistem, na maioria, jovens. É importante mostrar, hoje em dia, que é muita informação chegando a todo instante, é muita série, música, mas também muita notícia. Quando a gente vai indicar um livro para a pessoa e fazer essa mediação, a importância é mostrar que, além de tudo o que acontece, também tem a literatura. Que o livro também pode ser um jeito interessante de passar o tempo, de conhecer coisas novas, novas realidades. Quando eu faço a curadoria, eu tomo muito cuidado porque a gente sabe como a internet influencia a vida das pessoas. Esse cuidado é importante. Eu sempre penso nisso, em indicar obras que sejam relevantes, mas não no sentido de alta literatura, canônicas, mas porque, de fato, têm algo a dizer, a acrescentar na vida da pessoa que vai parar pra ler um livro que você indicou”.

Para Patrícia, o mediador atua como a ponte entre o leitor e o livro. Ela ainda compartilhou a sua experiência de, pela primeira vez, mediar um clube do livro totalmente online e exaltou as possibilidades que o mundo virtual oferece na potencialização da literatura.

“O livro sozinho nem sempre chega aos leitores. O mediador tem a função de fazer a ponte entre o leitor e o livro. É assim que eu entendo ele. Em tempos atuais, eu tive dois clubes de leitura sociais com jovens. O clube de leitura é um espaço em que você faz a mediação. É tudo muito vivo, muito orgânico. E, de repente, não dá pra fazer mais porque estamos isolados. No meio da pandemia, de tudo isso, veio o convite para eu fazer a curadoria num grupo de bebê, e eu pensei: por que não fazer online? Aí, eu comecei a fazer online. É muito rico porque você tem contato com várias pessoas, tem a chance de conhecer pessoas que você não conheceria, é um grupo diverso, muito plural. Você consegue ouvir várias vozes e realidades. Mediar num universo digital foi uma surpresa agradável. O clube de leitura digital tem me dado muita alegria. Tô aprendendo muito. Às vezes, ficamos só no analógico e no mundo virtual existem tantas coisas legais em relação à divulgação do livro. Tem uma potencialização sobre a literatura”.

Sobre formação de novos leitores e clássicos, Ceccantini concluiu de forma taxativa: “o leitor tem o direito de gostar e não gostar do que bem entender”. “Como professor de literatura, ninguém mais do que eu e meus colegas ama os clássicos, mas achar que só eles formam leitores é uma bobagem. O caminho do leitor é múltiplo. É ai que vem um pouco do sentido lúdico. Você vai ler porque aquilo te tocou, vai mexer com a sua curiosidade. Se é um bom livro, ele não vai estar sozinho. Vai dialogar com toda uma tradição de todos os livros que foram escritos. Nada de visão fetichista. A literatura é uma coisa viva. É tão gostoso conversar sobre livro como sobre música, filme”.

Mesa necessária e sensata que você pode – e deve – conferir na íntegra aqui.

Mesa #3 – Uma Linguagem para Todes

Flipop 2020 - Dia 01 - Mesa 3

A última mesa do primeiro dia da Flipop 2020 debateu a necessidade de mudarmos a nossa linguagem para diminuir a exclusão que ela essencialmente traz há séculos. Com participação de Hailey Kass, Koda Gabriel e Pri Bertucci, mediada por Naná Deluca, a mesa trouxe informações muito importantes e necessárias para a nossa sociedade ser mais inclusiva e assertiva.

Uma das coisas que chamam atenção, além da predileção masculina da língua, está na inclusão dos deficientes visuais em tais mudanças. O início do movimento foi caracterizado pela mudança das vogais o e a por x ou @. Porém, nos leitores automáticos, muito usados pelos deficientes visuais para ler, as palavras que os continham não eram lidas de forma correta e interrompiam o texto. Por isso, mais recentemente, eles foram substituídos pelo e. Por isso, todes.

Pri destacou que todo esse processo não vai mudar de uma hora para outra e lembrou de um conceito que estudou: a paciência histórica. A mudança de um idioma vem com o passar do tempo e, claro, o uso crescente de novas modalidades e modificações das palavras. Assim, eles lutam por uma transformação que, talvez, não vejam em sua vida, mas será muito importante para toda a comunidade LGBT e outras mais parcelas da sociedade que se veem excluídas pelo nosso português.

Foi uma mesa muito interessante e você pode ver tudo nesse link.

Especial FLIPOP 2020

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