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Livro nacional é ruim? | Reflexão Literária

10 julho, 2020 por

Livro nacional é ruim?

A minha faculdade era perto de um shopping. Nos primeiros períodos, quando as matérias ainda eram tranquilas, eu costumava ir até lá, comprar um café no Starbucks e passear pela Saraiva de lá. Eu sentava em um dos seus poucos bancos e pegava alguma coisa para ler. Em uma dessas ocasiões, eu ouvi de uma menina aparentemente um pouco mais nova do que eu – nos meus dezenove, vinte anos – dizer que “literatura nacional não é boa”. Ela conversava com um amigo sobre um livro que estava na entrada da livraria, mas ela não pretendia lê-lo porque não via potencial de qualidade na literatura do nosso país.

Aquilo me marcou. De vez em quando, a voz dessa menina ecoa pela minha cabeça e eu reflito sobre o absurdo que é. Infelizmente, no entanto, é uma opinião ainda de muitos dos insuficientes leitores do Brasil. Recentemente, ela retornou à minha memória quando Memórias Póstumas de Brás Cubas foi lançado nos Estados Unidos e esgotado no mesmo dia.

O viralatismo literário

Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-lata” para se referir à constante e quase intrínseca posição de inferioridade que o brasileiro se coloca em face aos outros países do mundo. Nada no Brasil funciona ou presta, não é? Essa ideia é tão profunda na nossa identidade que desvalorizamos histórias, conquistas ou produtos antes mesmo de conhecê-los. 

The Posthumous Memoirs of Brás CubasEm junho deste ano, a editora Penguin lançou uma nova tradução do clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas, de autoria de ninguém mais, ninguém menos que Machado de Assis, nos Estados Unidos. A história do defunto Brás Cubas narra sua vida inteira com sarcasmo, honestidades incômodas e detalhes que impressionaram os leitores da época e ainda impactam os de hoje. Tanto que, um dia após o lançamento nos Estados Unidos, o estoque de exemplares físicos da tradução de Flora Thomsom-DeVaux na Amazon e na Barnes & Noble já havia se esgotado. No mesmo dia, a The New Yorker publicou um artigo sobre o livro, no qual afirma que Brás Cubas é “um dos mais inteligentes, um dos mais divertidos e, portanto, um dos mais vivos e permanentes livros já escritos”.

Os estadunidenses viram numa obra brasileira o que nós teimamos em ignorar. Viram beleza, talento e qualidade. Para a maioria de nós, Machado é somente um autor chato que nos obrigam a ler nas escolas. E, sim, talvez a maior parte dos adolescentes não esteja preparada para enfrentar a escrita do autor. Ainda assim, com a abordagem certa, é possível fazer a experiência muito mais divertida. Brás é um narrador um tanto hilário e sua história de vida é contada de uma maneira tão inesperada e sem escrúpulos que surpreende e vicia.

Uma marolinha de exportação

Esse comportamento dos leitores dos EUA não se resume a Machado. Alguns Young-Adults têm sido comprados para publicação por lá. Livros como Você Tem a Vida Inteira, de Lucas Rocha, e Quinze Dias, de Vitor Martins, serão publicados em inglês. O primeiro, inclusive, ganhou uma recomendação do icônico Jonathan Van Ness, integrante do programa da Netflix “Queer Eye”. Outros autores, como Raphael Montes, já têm suas obras publicadas em outros países; Eduardo Sphor e Daniel Galera também são publicados internacionalmente. Isso sem falar de nomes consagrados, como Jorge Amado, Clarice Lispector e Guimarães Rosa.


Eu te pergunto então: se há tantos amantes da nossa literatura mundo afora, porque teimamos em apreciar e valorizar somente o que vem de lá? E, ainda, quanto mais famosos os livros são aqui, mais chamamos atenção de agentes e editores internacionais, viu?

Pelo fim do viralatismo

Nós já não somos um país com um elevado número de leitores e o mercado editorial, apesar de bem estabelecido, não é tão incentivado como em outros países. Aparentemente, cada vez menos pessoas leem em ônibus, metrôs e trens. Tudo bem, isso entra em uma conversa sobre tecnologia que não cabe aqui. Mesmo assim, será que não valia a pena parar e pensar sobre isso? 

As obras brasileiras têm qualidade, os escritores, talento, e as editoras, produções primorosas. Vamos tomar um momento e investir em autores nacionais. Vamos apoiá-los, lê-los, fazer propaganda deles e falar com orgulho quando gostamos de um livro deles – mandar todos os amigos lerem. 

Eu espero, de coração, que a menina da Saraiva tenha mudado de ideia, que algum livro nacional tenha feito seu coração vira-lata se apaixonar pela literatura brasileira. Eu sei que isso aconteceu comigo. Fica aqui minha esperança.

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