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Só os Animais Salvam, de Ceridwen Dovey | Resenha

10 fevereiro, 2020 por

Só os Animais Salvam: várias almas contam suas histórias

Eu esperava algo um pouco diferente quando peguei para ler o livro Só os Animais Salvam, de Ceridwen Dovey, publicado no Brasil pela Darkside Books.

Esperava contos muito emocionantes — eu ainda não sei explicar por que, mas histórias envolvendo animais sempre acabam emocionando a maioria das pessoas, muito mais do que histórias de gente mesmo. Eu sinceramente não sei o motivo, e essa é uma discussão filosófica que não convém ser discutida aqui. Mas o que eu tive ao ler Só os Animais Salvam foi uma antologia cheia de contos muito, muito tristes — naturalmente, eu me afoguei em lágrimas a cada conto que lia. 

Apesar de não ser o que eu esperava, foi uma experiência muito boa. Não me diverti lendo e nem curti a leitura propriamente falando — e isso é um ponto negativo —, mas aprendi alguma coisa — ainda não sei o quê, mas me sinto muito diferente depois de ler esse livro.

Só os Animais Salvam é uma antologia com 10 contos. Todos eles homenageiam de alguma forma autores que escreveram histórias sobre animais — isso não sou eu que estou dizendo, até mesmo porque nem sou uma especialista em histórias sobre animais e nem autores que tenham isso como tema, mas está escrito no próprio livro, em uma nota, duas páginas antes do início do primeiro conto. E cada conto é focado na alma de um animal — isso não quer dizer que os animais estão todos mortos ao contar as histórias, só que são eles os narradores. E, apesar de ser possível reconhecer que animal está falando, ao mesmo tempo, a narrativa de Dovey é extremamente humana, e acho que foi justamente isso que me causou certo desconforto, porque eu fiquei próxima demais dos narradores animais — isso não é bem um problema, mas eu não gostei da sensação.

Os contos seguem, além disso, uma linha cronológica, começando em 1892, com o conto Ossos, narrado por um camelo, e terminando em 2006, com o conto Psitacófila, narrado por um papagaio. Ou seja, temos contos que se passam na Primeira e Segunda Guerras, Pearl Harbor etc — e para esses eu aconselho a preparar o seu coração, porque são histórias muito fortes. Cada conto também vem marcando o local onde ele se passa e isso é bem útil para interpretá-lo.

Não vi nenhum conto que não criticasse o ser humano de alguma forma, que não mostrasse o seu lado feio. E, sinceramente, terminei o livro sentindo um pouco de vergonha da minha espécie.

Não é o tipo de livro que se lê mais de uma vez na vida e também não acho que seja um livro feito exclusivamente para os amantes de animais. Eu diria que é justamente o contrário. É um livro que pode ser melhor aproveitado por quem não gosta de animais — talvez, essas histórias os choquem um pouco e os façam mudar de ideia; seria até muito bom se isso acontecesse. Quem já ama animais vai, assim como eu, chorar muitos litros e se sentir um monstro no final de tudo.

Eu ainda não sei se gostei ou não do livro. Achei a experiência muito boa, aprendi alguma coisa, senti ainda mais, mas não curti a leitura, porque nenhum dos contos têm o tipo de história que dá para ler com um sorriso no rosto.

Mas é um bom livro. Eu diria que é até um ótimo livro — e, se a Dovey tem o coração fraco como eu, não consigo nem imaginar como terá sido a experiência de escrever essas histórias.

Quanto ao trabalho da editora, está excelente. Eu não vi nada de errado, a capa está linda, o interior do livro está lindo e está tudo muito bem feito. Eu queria, inclusive, falar bem das dimensões do livro, porque está no tamanho perfeito para colocar na bolsa. Excelente trabalho, Darkside! 

Eu só sei que terminei de ler esse livro chorando muito, abraçada com o meu cachorro, pedindo perdão a ele por qualquer coisa que eu possa ter feito.

Por falar nisso, você, que tem um bichinho, agora é um ótimo momento para dizer a ele eu te amo. E, você que não tem um bichinho, eu te encorajo a sair e a dar um abraço no primeiro animal abandonado que vir pela rua.  

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