Velhos são os Outros, de Andréa Pachá | Resenha

book:
Andréa Pachá

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Rating:
5
On 30/11/2018
Last modified:05/12/2018

Summary:

Uma visão bastante verdadeira, profunda e reflexiva sobre a terceira idade. Mais do que para os idosos, um livro para todos.

‘Velhos são os Outros’: histórias bem humoradas e reflexivas sobre a velhice

Envelhecer. É difícil aceitar certas limitações. O corpo já não é mais tão ágil quanto antes. A mente pode pregar peças. Apesar de tudo, no avanço da idade, o que mais pode afligir as pessoas não são essas dificuldades, mas a perda da liberdade. Encarar a desconfiança do outro. Deixar de tomar as suas próprias decisões. Inspirada nos julgamentos de inventários, testamentos e curatelas, a juíza Andréa Pachá escreveu uma série de crônicas, reunidas na obra Velhos são os Outros, publicada pela editora Intrínseca. Com muita leveza e bom humor, o livro fala sobre a delicada relação com os mais velhos e a resistência que temos com o envelhecimento.

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Para quem não conhece, a juíza Andréa Pachá atuou por quase 20 anos à frente de uma Vara de Família, cuidando de casos de divórcios, pensão, guarda e convivência familiar. Desta experiência no tribunal, resultaram os livros A Vida não é Justa (2012) e Segredo de Justiça (2014), que posteriormente foram adaptados para a televisão na série Segredos de Justiça, do Fantástico (TV Globo). Pachá tem um talento único para transformar a vivência como juíza em textos profundos, que tocam o leitor.

O novo trabalho da autora, Velhos são os Outros, reflete o desafio da juíza em comandar uma Vara de Sucessões. Agora, Andréa explora as dificuldades das famílias em lidar com o envelhecimento de um ente querido e como a nossa sociedade – e nós mesmos – lida com o passar dos anos. É muito reflexivo. São histórias retratando dramas familiares que, apesar de complexos, são contados com muita leveza e bom humor. Narrativas que mostram as inseguranças, medos, perdas e alegrias daqueles que conseguiram ter o privilégio de completar muitos anos de vida.

A  escrita de Pachá é bastante objetiva e envolvente. Bem longe daquele linguajar cheio “juridiquês”, difícil de entender, esperado dos profissionais de Direito. Pelo contrário; ela traz o texto muito mais próximo do público. É bem mais humano. Até mesmo nas explicações sobre como funciona a lei (para situar, a autora consegue informar, de forma clara, sem atrapalhar a fluidez da narrativa).

Velhos são os Outros mescla crônicas com depoimentos de pessoas da terceira idade. Estes relatos são um respiro para as tramas que ocorrem ao redor do tribunal e possibilitam colocar o leitor no lugar dos idosos. Por mais que a autora apresente muito bem a perspectiva, os dilemas, as dificuldades e os sentimentos dos mais velhos, é bem mais interessante quando ela dá oportunidade para eles se expressarem. E, levando em consideração uma das principais mensagens do livro, é fundamental dar voz para eles, que acabam sendo pouco ouvidos.

Por mais que possa parecer, Velhos são os Outros não é uma leitura para idosos. Eles certamente vão se identificar e rir de certas situações. Entretanto, acredito que justamente quem ainda não teve o privilégio de chegar lá é que vai ficar mais tocado e reflexivo com a obra. O livro desmistifica o envelhecimento, ao mesmo tempo que coloca o leitor na pele do idoso. É uma obra que nos mostra, nos faz compreender como é difícil lidar com todos te julgando e acreditando na sua incapacidade.

Serei sincero: Velhos são os Outros mudou o meu olhar sobre os mais velhos. É divertido, tocante e profundo. As histórias são críveis e muito próximas da nossa realidade. É impossível não se identificar. Terminei a leitura compreendendo um pouco mais sobre o árduo processo de envelhecimento e os respeitando ainda mais.

Uma visão bastante verdadeira, profunda e reflexiva sobre a terceira idade. Mais do que para os idosos, um livro para todos.

Daniel Lanhas

Apaixonado por histórias, tramas e personagens. É o tipo de leitor que fica obsessivamente tentando adivinhar o que vai acontecer, porém gosta de ser surpreendido. Independente do gênero, dispensando apenas os romances melosos, prefere os livros digitais aos impressos, pois, assim, ele pode carregar para qualquer lugar.

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