Coleção Ruído: a objetiva prolixidade de Marcela Sperandio

Com poesias e textos curtos, Marcela Sperandio fala muito sobre a essência humana em ‘Outra Que Não Eu’, que integra a Coleção Ruído, da editora Raiz

A palavra objetiva em meio à prolixidade de sentimentos. A dicotomia que separa a escritora dela mesma. O real e o lírico que se misturam e, ao mesmo tempo, defendem a sua própria individualidade. A capacidade de imergir na complexidade da essência feminina com a simplicidade e a delicadeza de um texto bem colocado. Marcela Sperandio, autora de Outra Que Não Eu, que integra a Coleção Ruído, com lançamento previsto para o dia 8 de novembro, pela editora Raiz, fala com a autoridade de quem se alimenta daquilo que escreve, trazendo a leveza de um nome que chega para renovar a poesia contemporânea.

Engana-se, contudo, quem pensa que suas poesias saem tão naturalmente quanto os pensamentos que permeiam a sua mente. Esse é um processo longo e introspectivo, que a própria Marcela precisa analisar para transcrever nas páginas, ainda que em poucas palavras.

“Rabiscar o papel em branco sempre é um desafio!”, declarou em entrevista ao Vai Lendo. “Se pensar demais, posso acabar não conseguindo dar o primeiro traço, escrever o primeiro e muito menos passar para a segunda linha. Por isso, com o tempo, desenvolvi algo no desenho que levei para escrita que é, antes de mais nada, deixar o fluxo trazer as palavras, fazer o inconsciente emergir. O principal é não deixar barreiras entre mim e o meio e, assim, ir plasmando o que surge. Apenas depois venho lapidando. Na maioria das vezes, o ritmo é algo que surge mesmo sem o sentido. Ou então o que surge são associações sonoras e/ou semânticas. Existem poemas que faço com conceito pré-determinado. Nesses, costumo separar palavras chaves, como num brainstorm de palavras soltas e, depois, ir montando os versos. Depois que o papel está rabiscado e cheio de informação, venho cortando tudo, enxugando ao máximo o que conseguir e reorganizando os versos. Muitas vezes, após anos, vejo que ainda dá para cortar mais! Acho que os poemas vêm desse lugar escuro, sombrio e desconhecido, do inconsciente”.

Em Outra Que Não Eu, Marcela conta facetas, envolve com identidades e mostra sem expor. Apenas sente e escreve. Busca. Apaixonada e incessantemente. Tanto que, em seu primeiro livro, Estranha de Mim, os títulos se espelham. Dialogam. Tentam ajudar o leitor a desvendar o profundo, a alma. Para a escritora, a poesia traz do passado a habilidade de comunicar, de transmitir, e, portanto, consegue explicitar e se aprofundar em nossos mais profundos sentimentos.

Acho que a poesia é de uma dimensão mágica, talvez, pela sua origem”, explicou. “Tem qualquer coisa misteriosa que retumba no peito. Acho que evoca os primórdios da humanidade, quando o conhecimento era passado oralmente e os versos ritmados ajudavam a memória de um povo a se estabelecer. Então, ela trata, sim, de identidade e de conhecimento, seja de si ou de um povo. Acredito que, mesmo que seja poesia lírica, falando de si mesmo, ela reflita a cultura geral. Age como espelho que reflete o imaginário coletivo. Toda a arte, de uma maneira geral, faz esse serviço, mas a poesia evoca a palavra mágica, ritualística, que faz emergir o sentido por trás das coisas e o ritmo (vibração). Além disso, ela ainda tem o poder da catarse, de expurgar os nossos sentimentos mais obscuros. Acredito que a poesia possa e deva transcender o poema. A poesia é o ato de fazer, dar vida, é arte criadora na sua maior essência. O fato de associarmos à palavra versada é mera convenção, questão de ótica. Para mim, a poesia está na dança, na forma, nas imagens. É uma capacidade quase que essencial ao homem, talvez, até mais do que a razão lógica”.

Marcela é, hoje, considerada como uma das promessas do gênero e, mesmo com toda a dificuldade e obstáculos que a poesia enfrenta no mercado, dedica-se também a dar voz àqueles que, como ela, precisam apenas de um espaço, de uma oportunidade para serem descobertos. Uma das idealizadoras do Voz à Vossa, ela destacou o investimento em novos autores e ressaltou a importância de se trabalhar a poesia ainda dentro das escolas.

Fico feliz com esse reconhecimento”, disse. “Acho que precisamos escrever, tirar das gavetas e cadernos e colocar a palavra para circular. Vejo esse movimento de forma muito forte através de saraus, tanto nas ruas quanto em locais fechados, seja na periferia ou nos centros urbanos. Acredito nessa arte feita pelo sujeito, independente do mercado. Fico feliz com a reação da indústria, pelo menos da literária que, mesmo enxuta, investe, sim, em novos autores. A poesia precisa estar na escola também. Ser trabalhada em sala de aula. Por um lado, me parece mais intuitivo fazer poesia do que prosa – isso se você pensar no ritmo inerente da fala, na musicalidade que absorvemos o tempo todo sem nem percebermos. Por outro, é bem mais desafiador porque não tem necessariamente a linearidade do discurso falado. Mas acho que ela seja uma boa maneira de expressão literária, justamente por fazer parte desse nosso passado imemorial e mágico”.

Com alguns desvios no caminho, como ela mesma apontou, Marcela afirmou lidar com o fracasso como uma forma de estímulo. Por isso mesmo, ela exaltou a proposta da editora Raíz ao querer fazer um “ruído” na indústria e apontar para a resistência e a renovação.

“Quando eu pensava que estava chegando no lugar tão sonhado, eu desviava”, concluiu. “Aprendi a lidar com isso. No decorrer da vida, esse sentimento de fracasso me acompanhou, o que é bastante conflituoso, e fez eu tirar forças de onde nem imaginava para superá-lo, para continuar. É como se a minha história fosse marcada pela descontinuidade, por um caminhar errante. Talvez eu apenas exija muito de mim e venha, mesmo, é andando em linha reta, risos. Mas, de qualquer jeito, sinto como se minha história fosse baseada em diversos ruídos e erros, que foram sendo abraçados, superados, apreendidos! E se tornaram, assim, grandes lições. Por isso mesmo, acho que ruído é sempre bom porque adoro o conflito (tudo bem, nem sempre, risos; tenho buscado apreender o poder do silêncio também). O ruído provoca um atrito na mensagem, uma resistência, um desvio – que sempre está ali porque a mensagem transmitida nunca é 100% efetiva. Neste sentido, ele é resistência que faz pensar, faz olhar novamente, ressignificar. O ruído também causa mal-entendidos, e é justamente esse o lembrete de que sempre podemos reformular e de que nunca, nunca, podemos nos assegurar que possuímos a verdade. Estamos sempre relendo para ver se entendemos direito e, nessa releitura, acontece uma ressignificação, um novo entendimento daquilo que já parecia totalmente apreendido. A importância de fazer parte do projeto é enorme, é como um reconhecimento externo, uma carta de pertencimento a um grupo do qual me identifico”.

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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