Coleção Ruído: a inquietude literária de Elaine Castanheira

Saiba como a escritora Elaine Castanheira absorveu as influências de Marina Colasanti e Clarice Lispector em sua escrita, resultando em ‘Inesquecíveis em Mim’, obra que integra a Coleção Ruído, da editora Raiz

A busca incessante pela satisfação, pela plenitude e pela realização. O estado de ser, estar, de existir. A sensibilidade e a coragem de expor e deixar transparecer a inquietude da alma e do ser humano. Os seus próprios anseios e desejos mais inconscientes. Um olhar filosófico e visceral sobre a vida em sua mais pura e vulnerável essência. Essa é a marca da escritora Elaine Castanheira, autora de Inesquecíveis em Mim, uma das setes obras que compõem a ainda inédita Coleção Ruído, da editora Raiz, que tem lançamento previsto para o dia 8 de novembro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, Zona Sul do Rio.

Em sua estreia na literatura, Elaine mostra a sua força numa narrativa arrebatadora, através de três histórias que, interligadas, desnudam sentimentos profundos – e, por vezes, oprimidos – e trabalham a perda, a superação e nos levam a uma incômoda jornada de autoconhecimento, na qual somos obrigados a perceber e a encarar questões que ou preferimos adiar ou com as quais achamos que nunca estaremos prontos para lidar. O texto que fere e cura.

“A literatura nos salva de muitas coisas, principalmente de nós mesmos”, declarou Elaine em entrevista ao Vai Lendo. “Do nosso conformismo, nosso autoritarismo, intolerância, cegueira, ilusões. Abordar esses temas, para mim, é algo natural, não sei escrever de outra maneira. É uma forma de compartilhar com os meus leitores que está tudo bem ter luz e sombra. Que as sombras fazem parte de nós. A questão é que não devemos negá-las e, sim, reconhecê-las para aprendermos a lidar e evoluir com elas.  Eu leio e escrevo muito. Todos os dias, o tempo inteiro. Então, talvez, este exercício de ler e escrever tenha facilitado o meu ‘despir’ literário. Os personagens gritam comigo durante os momentos criativos; meu trabalho é passar isso para o papel e ir lapidando para chegar na melhor forma, que é geralmente poética. Minhas obras refletem a minha inquietude. Zona de conforto é algo de que tenho pavor. Sou professora e escritora por amor e formação, mas já fui supervisora de um grande grupo de ensino, já tentei ser empresária, coach espiritual etc. Mudar é preciso para alcançar a excelência. Aplico isso na escrita. Toda vez que escrever algo está muito fácil, eu mudo tudo. A voz, o gênero literário, os personagens, a pesquisa. Tudo. Não por acaso, uma das minhas maiores inspirações é Marina Colasanti, que escreve de tudo e nenhum trabalho é igual ao outro”.

As referências de Elaine, de fato, transpiram em sua obra. Não apenas sob a “tutela” de Marina, mas também a partir do olhar de Lispector. A leveza da percepção e a simplicidade como essência para tocar o mais angustiado dos corações são as marcas que a escritora espera deixar nas páginas e principalmente na mente dos leitores. A junção de vozes femininas que amam, encantam, inspiram.

“Eu realmente tenho Clarice na veia, assim como tenho Marina”, afirmou. “Mas não é pelo óbvio do que representam para a Literatura Brasileira; é porque são escritoras de voz inquieta e que conquistaram a simplicidade na escrita. Clarice falava isso, como a simplicidade é algo que exige muito esforço e trabalho. Então, acho que a minha escrita foi impregnada pela simplicidade, meu ofício é esse remexer da alma, essas feridas abertas, tocadas e transformadas em texto pela escrita simples e dedicada”.

Embora Inesquecíveis em Mim seja a sua primeira obra publicada, Elaine possui uma gaveta de textos à espera do seu momento. Como autora estreante, Elaine destacou ainda a dificuldade de se fugir do padrão do mercado, exaltando o caráter de renovação que chega com a editora Raiz. Ela, que também estará presente no dia do lançamento da coleção e participará do papo intitulado “Como fazer um livro… fracassar”, adiantou para o Vai Lendo aquele que considera o seu “fracasso favorito” por uma questão de erro de avaliação.

“Fazer parte desta coleção é como pegar aquele sentido da estrada que poucos estão pegando; é como não entrar na fila travada de modelos pré-estabelecidos”, disse. “Eu sou testemunha de que o mercado precisa se renovar, precisa criar para sair da crise. Todo mundo precisa se mexer, editores, escritores e leitores. Se a gente continuar vendo a banda passar, esperando um sinal para entrar no ritmo, a banda passa por cima da gente, como já passou muitas vezes. A coleção Ruído traz esse grito do novo, do não conformismo, de quem se recusa a seguir caminhos desenhados por outros. Traz uma curadoria dedicada à Literatura Brasileira e um projeto gráfico para ficar na mente do leitor. Já o meu fracasso favorito é o fracasso de quem disse que o livro digital acabaria com o físico e também o fracasso de quem disse que livro digital não ‘pegaria’ no Brasil. Nem uma coisa nem outra aconteceu. Isso porque o leitor ama e sempre vai amar o livro físico, mas também amou a possibilidade de ter mais de 100 livros na biblioteca sem precisar ocupar espaço em casa. Ou ler um livro de 600 páginas e, para isso, carregar na bolsa apenas um leitor digital ou um celular de menos de um quilo. Isso é liberdade de escolha, de reinvenção”.

E é justamente essa liberdade que Elaine destacou como principal motivação para os autores independentes e demais profissionais do mercado editorial, atualmente. Liberdade para criar, para se reinventar. Um ruído de liberdade. De criação. De esperança e de resistência.

“Esse movimento de pensar fora da caixa é essencial para qualquer mercado que queira sobreviver em tempos tecnológicos”, concluiu. “Estamos na era da escolha direta do consumidor, da comunicação sem intermediários. Por exemplo, antes, a gente assistia na TV apenas o que as emissoras queriam disponibilizar naquele momento. E, se a gente quisesse se comunicar com a emissora ou com seus artistas, tinha que escrever carta e posteriormente e-mail. Hoje, a maioria dos telespectadores prefere a Netflix, com centenas de opções para escolher, com uma comunicação direta pelas redes sociais. A Netflix é como uma pessoa no Instagram. Fala de suas emoções e interage com o público. Então, nós, escritores, ou morremos na praia ou pegamos carona com essa onda que não vai sumir tão cedo. E sinceramente eu espero que não desapareça mesmo. Temos excelentes profissionais que trabalham com texto, produção e divulgação. Anteriormente, esses profissionais estavam restritos às grandes editoras; agora, eles trabalham também em pequenas editoras e por conta própria, diretamente com o autor. É essa liberdade de escolher e de ser que a coleção Ruído traz. É esta mesma liberdade que espero ter como ruído na leitura de Inesquecíveis em Mim. Um grito para dizer que abraçamos nossas escolhas, que dá medo ter tanta liberdade, mas que a gente banca as consequências”.

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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