Alma?, de Gail Carriger | Resenha

Review of: alma?
book:
gail carriger

Reviewed by:
Rating:
4
On 18/10/2018
Last modified:23/10/2018

Summary:

Uma narrativa divertida, despretensiosa, mas com percepções bastante atuais

‘Alma?’: minha primeira e inesquecível experiência com o steampunk

É difícil vencer o conservadorismo. Principalmente se você for mulher, solteira, acima dos 20 anos, filha de italiano, em plena sociedade vitoriana. Pior ainda se estiver envolvida numa confusão envolvendo vampiros e lobisomens. Quer mais? Então, só lendo Alma?, de Gail Carriger, primeiro volume da série O Protetorado da Sombrinha, publicado pela editora Valentina.

Neste livro, conhecemos a exótica Alexia Tarabotti, uma jovem que precisa enfrentar diversas barreiras e preconceitos sociais na alta sociedade londrina devido à sua aparência, idade, origem e também pelo fato de não ter alma. Como se tudo isso já não bastasse, ela é atacada por um vampiro descontrolado – o que contraria todas as regras de etiqueta. Para piorar a situação, ela acaba matando acidentalmente este vampiro e, com isso, precisa lidar com o temperamental Lorde Maccon, enviado pela própria rainha Vitória para investigar o caso. Ah, sim, Lorde Maccon também é um lobisomem. Depois que outros vampiros começam a desaparecer, Alexia passa a ser a principal suspeita e precisará descobrir sozinha, com a ajuda do seu dom de anular os poderes sobrenaturais, o que realmente está acontecendo.

Eu nunca havia lido nada de steampunk. Pelo menos, não que eu me lembre ou que tenha me marcado. Mas de Alma? eu, com certeza, lembrarei. Que leitura leve e divertida! Que personagens carismáticos. Já fazia tempo que eu queria começar a ler a série O Protetorado da Sombrinha, e minha vontade se fez valer, apesar de o livro ser totalmente diferente do que eu esperava. E isso não foi ruim, pelo contrário. Narrativa despretensiosa e divertida que, à sua maneira, consegue desenvolver e aprofundar temas até relevantes e surpreendentemente atemporais.

Alexia Tarabotti é muito carismática. Gostei bastante de a protagonista fugir completamente dos “padrões” da “alta sociedade londrina” e mostrar força e resiliência suficientes para conseguir o máximo de liberdade e independência possíveis, para aquela realidade. Fora a sua perspicácia e inteligência. Simplesmente impossível não torcer por ela. E o que dizer de Lorde Maccon? Apesar do jeito “turrão”, da falta de traquejo social e principalmente com as mulheres, para um lobisomem, ele tem o seu charme. Especialmente quando demonstra uma certa vulnerabilidade. E é na dinâmica dele com Alexia que Gail nos ganha de vez. A química entre os dois é sensacional e é uma delícia acompanhar a briga de egos entre ambos. Porque Alexia enfrenta a brutalidade de um lobisomem Alfa de igual para igual! O que o desconcerta frequentemente, tornando tudo ainda mais prazeroso. E menção honrosa para Lorde Akeldama, um vampiro bem das antigas, desbocado e absolutamente autêntico que tem alguma das melhores tiradas do livro e me fez dar boas gargalhadas.

O que é mais interessante em Alma?, contudo, é a sua própria narrativa. É no conflito entre lobisomens e vampiros, sobrenaturais e seres humanos, além dos sem alma, que temos uma trama muito além da comédia ou do steampunk. Porque Gail fala sobre preconceito, julgamentos e pré-julgamentos, igualdade social e aquela busca irreal e perigosa por “padrões”. A investigação sobre o desaparecimento dos vampiros é um pano de fundo para o que podemos entender como uma crítica bastante atual, uma vez que, humanos ou não, parece que ainda temos muito o que aprender no que diz respeito ao convívio em sociedade.

 

Uma narrativa divertida, despretensiosa, mas com percepções bastante atuais

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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