Segredos de Família, de Lisa Wingate | Resenha

book:
lisa wingate

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5
On 23/07/2018
Last modified:03/08/2018

Summary:

Lisa Wingate nos arrebata com um relato duro, cruel e muito importante, que, de ficção, não tem nada!

‘Segredos de Família’: a realidade que vira ficção numa trama desesperadora e hipnotizadora

Famílias despedaçadas. Crianças separadas de seus pais e irmãos. Infâncias perdidas. Vida alteradas ou, até mesmo, interrompidas. Parece história de filme, mas infelizmente é baseada na vida real mesmo. O sequestro e a venda de crianças pobres para famílias ricas inspirou Lisa Wingate a escrever o alucinante Segredos de Família, best seller com mais de um milhão de exemplares vendidos nos Estados Unidos, publicado aqui no Brasil pela Globo Livros.

O ano é 1939, em Memphis. Conhecemos a história da jovem Rill Foss, de apenas 12 anos, e seus quatro irmãos menores, que vivem uma vida feliz a bordo de um barco no rio Mississípi. Até que sua mãe, grávida, tem complicações no parto e precisa ser levada às pressas para o hospital. Enquanto Rill tomava conta das outras crianças, homens estranhos invadem o barco, tiram Rill e seus irmãos de sua família e os levam para orfanato no Tennessee, onde eles precisam enfrentar a cruel diretora da instituição, que lidera um esquema impiedoso de tráfico de crianças. Já nos tempos atuais, mais precisamente na Carolina do Sul, Avery Stafford vem de uma família rica e poderosa e aparentemente não poderia querer mais nada da vida. No entanto, ao voltar para sua cidade Natal para ajudar o pai, um político que lida com um escândalo público e uma doença, ela tem um encontro casual com uma senhora que a leva a uma jornada pelo passado de sua família. Essas histórias farão Avery, inclusive, repensar todas as suas escolhas e questionar as suas próprias verdades.

Segredos de Família é um livro incômodo, pungente. E total e completamente hipnotizante. É daquelas histórias que não conseguimos nem queremos largar. Precisamos urgentemente descobrir o que mais vai acontecer, desvendar as ligações, e ansiamos pelas reviravoltas que Lisa nos oferece de maneira brilhante. Há algum tempo um livro não me deixava tão nervosa, tão angustiada e vidrada. Eu literalmente aproveitava qualquer momento, qualquer tempo livre para mergulhar novamente nas páginas e absorver toda a profundidade da história de Rill, Avery e milhares de outras crianças que viveram aquele pesadelo. Minha nossa, é tão assustador! Mais ainda por saber que tudo isso não é ficção, mas a realidade nua e crua. A diretora do orfanato, de fato, existiu e saber disso quebra o meu coração. Só de pensar, sequer imaginar o terror que ela fez tantas crianças e adolescentes passarem, chego a ficar enjoada. É revoltante, para dizer  o mínimo.

Para não estragar a trama, muito menos a construção da narrativa, irei me concentrar apenas nas minhas impressões a respeito de Rill e Avery, porque, se eu começar a falar das outras personagens, confesso que tenho quase certeza de que não conseguirei me segurar, de tão empolgada, e posso acabar dando algum spoiler ou deixando alguma brecha para vocês. Com Rill, descobrimos os pavores e a parte sombria da história, dos crimes bárbaros, da impunidade, da injustiça. Rill é apenas uma criança, mas com personalidade e responsabilidade de gente grande. De alguém que precisou crescer cedo para tentar manter a família unida. Dá vontade de chorar e de abraçá-la ao acompanharmos a sua triste trajetória e a de seus irmãos e testemunhar toda a sua força e coragem, apesar da pouca idade. É com Rill que Lisa nos dilacera ao detalhar com extrema precisão e veracidade tudo o que acontecia naquele orfanato.

Já com Avery, Lisa nos traz questões atemporais, como a preocupação com o status, a posição e outros dilemas familiares. E, embora as necessidades de sua importante família permeiem constantemente os pensamentos e escolhas de Avery, dentro de uma realidade bastante conservadora (a clássica família sulista dos EUA) e, até mesmo, intimidadora para quem está de fora, ela não deixa de mostrar também a sua própria personalidade e essência, arriscando-se a bater de frente com os valores pelos quais sempre foi levada a agir em nome de um “bem maior” – no caso, a família e sua posição influente. E isso faz Avery ganhar muitos pontos com a gente, uma vez que a sua jornada em busca da verdade sobre o passado é instigante, reveladora e surpreendente. Muitos méritos para Lisa que, através das transições temporais e alternância entre protagonistas, impõe um ritmo frenético e arrebatador à história. É tudo muito real, tudo muito verdadeiro e nada delicado. E nem poderia ser. Não há sutilezas. Não pode haver omissões. Lisa sabe disso e nos passa isso.

Segredos de Família traz, no final, uma nota incrível e esclarecedora da autora sobre os acontecimentos e os crimes que atormentaram milhares de famílias por anos. É chocante, desesperador, porém, de extrema importância. Essa história, ou melhor, essas histórias precisam ser contadas, desvendadas. E Lisa Wingate cumpre um papel fundamental nesse sentido e nos presenteia com um livro muito rico em detalhes, com personagens cativantes e uma trama de tirar o fôlego. Sem dúvida, uma das melhores leituras do ano, até o momento.

 

Lisa Wingate nos arrebata com um relato duro, cruel e muito importante, que, de ficção, não tem nada!

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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