Yuri Belov: da vida para as páginas

O engenheiro e escritor Yuri Belov falou sobre seus trabalhos, ‘Questão de Honra’ e ‘Odalisca’, e em como trouxe suas experiências pessoais para a literatura

Conflitos políticos, conspirações, histórias. Muitas histórias. Conteúdo e inspiração não faltam para o engenheiro Yuri Belov, que, sob esse pseudônimo, aproveita suas experiências de vida para desenvolver tramas dos mais variados gêneros. Seu novo livro, Questão de Honra, por exemplo, traz um ex-oficial das forças especiais britânicas numa jornada que vai da China à África para saldar uma dívida de vida e se envolve numa conspiração sem precedentes. Em entrevista para o projeto Vai Lendo Novos Autores/Independentes, Yuri falou sobre o diferencial do seu trabalho, que foca em questões ainda pouco abordadas pela mídia a respeito de grupos extremistas.

“Eu tenho bastante interesse em Relações Internacionais , além de ler e estudar História Militar desde criança”, afirmou. “Também sou fã de filmes de aventura, mas os clássicos de antigamente, inclusive, tenho um acervo de filmes antigos, muitos feitos em preto e branco. Gosto ainda dos primeiros filmes de James Bond. Quando criança, eu era colecionador de histórias em quadrinhos, então, juntando tudo isto e o meu gosto em conhecer novas culturas e lugares exóticos, nasceu o Questão de Honra, que é um mistura de todos estes ingredientes. Alguns lugares retratados no livro eu conheço pessoalmente. As pesquisas foram longas, assisti a muitos documentários sobre os grupos terroristas, sobre a guerra civil na Síria e no Iraque, os conflitos na África, acessei muitos sites internacionais que tratam deste tema também. São raros os jornais e sites brasileiros que abordam estes assuntos com profundidade. Foquei bastante em fontes de financiamento destes grupos extremistas, um tema que a mídia raramente fala. O principal desafio foi conseguir tempo e material para a pesquisa, pois, em português, não se encontra muita coisa. Há no livro algumas passagens históricas, como o período do fim da Guerra Fria. É um flashback desta época. Menciono um pouco da Segunda Guerra Mundial, notadamente no que tange aos acontecimentos ocorridos na região da Índia e sudeste asiático, já que alguns personagens são oriundos desta região”.

Foto: divulgação/Facebook do autor

Engana-se, contudo, quem pensa que Yuri limita-se apenas ao trabalho mais exato de quem já atuou em plataformas marítimas. Além de outros países, Yuri também se aventura nos mais variados gêneros. Como é o caso de Odalisca, sua primeira obra literária. O livro apresenta uma trama alucinante e bastante sexy, tanto que alguns chegam a considerá-lo erótico. E, ainda que não o classifique dessa forma, Yuri destacou a boa receptividade por parte do público e indicou que alguns tabus na literatura estão ficando no passado.

Odalisca foi chamado por alguns de livro erótico, mas eu acho que não é bem este o foco”, explicou. “A trama gira em torno de um executivo que se deixa levar por uma garota tida como ‘exemplar’, mas que levava uma vida dupla. Quem acha que vai ter sexo do começo ao fim irá se enganar. O livro, a meu ver, é uma história de superação e sobre as voltas que o mundo dá. O protagonista, Siegfried, é destruído pela família dela, que o acusa de ser um golpista, e ele – a duras penas – consegue se reerguer.  A história também tem um pouco de ação com os personagens secundários, que possuem uma história igualmente fascinante. Há alguns autores masculinos que escreveram bons livros considerados eróticos, como Nelson Rodrigues , por exemplo, os contos do Marquês de Sade, entre outros. Recebi alguns comentários dos leitores, a maioria perguntando se o livro teria continuação e querendo que a personagem Roxane, a tal Odalisca, se desse mal. Mas sinceramente, quanto ao erotismo não senti qualquer repercussão. Eu tenho percebido que estes tabus foram reduzidos fortemente depois de Cinquenta Tons de Cinza. O erotismo na literatura está se popularizando. Gostaria de dizer que Odalisca ficou pronto bem antes de Cinquenta Tons, mas levou algum tempo para que fosse publicado, e eu escrevia quando tinha tempo livre. Além disto, fiquei mais de um ano sem escrever qualquer coisa, até que resolvi terminar”.

Foto: divulgação/Facebook do autor

Apesar das tramas completamente distintas, Yuri traz a mesma reflexão em ambos os seus livros: críticas aos detentores do poder econômico. Para isso, ele utilizou-se de experiências pessoais para criar descrições e ambientes ainda mais detalhistas.

“Eu ainda escrevia Odalisca quando me surgiu a ideia de escrever Questão de Honra“, disse. “O livro veio quase que instantaneamente. Inclusive, levei menos tempo no segundo do que no primeiro. Ambos trazem a temática da exploração dos mais fracos pelos mais fortes. Em Odalisca, nos capítulos finais, este tema está presente, assim como nos dois livros há críticas aos detentores de poder econômico que acham que podem tudo sem que nada lhes aconteça e agem como se estivessem acima de tudo e de todos. Em Questão de Honra, o protagonista luta com forças muito superiores à sua e com mais recursos. No entanto, ele prefere o uso da astúcia à força . O pano de fundo de Odalisca é o mundo corporativo, as traições, os esquemas escusos, os arranjos políticos etc. É um ambiente que eu conheço bem e quis mostrar aos leitores como são as coisas numa grande corporação. Siegfried vive à margem deste mundo, embora pertença a ele. Ele é do tipo de fazer a coisa certa, sem ligar para as consequências. Em Questão de Honra, Tristan, um ex -oficial das forças especiais de seu país, já um sessentão fora de forma e aposentado, devido a um incidente envolvendo o seu navio e a sua tripulação, se envolve numa trama que ele nunca sequer imaginaria aonde iria dar. Ao longo de tudo isso, ele se desilude ao ver que tudo aquilo em que ele acreditava e lutou no passado não mais existe nos dias atuais. Os governos e as grandes corporações são movidos por interesses, muitos dos quais questionáveis; não existe mais os bons contra os maus como nos tempos da Guerra Fria. Agora, todos são maus, mas ele ainda é movido pelo senso de honra e amizade, capaz de ir ao fim do mundo para saldar uma dívida e salvar a vida de um amigo”.

Como um autor independente, Yuri também encara os desafios para tornar a sua obra conhecida. Após publicar seus livros em formato digital, o autor também conseguiu, através de uma parceria da editora Novo Século, lançar seus livros físicos.

“A minha primeira experiência foi lançar Odalisca em e-book”, concluiu. “Foi por minha conta. Depois, percebi que grande parte dos leitores gostaria de ler o livro na versão física e, após alguma procura, consegui que a Novo Século publicasse a partir do selo Novos Talentos. Trata-se de uma parceria com a editora. Questão de Honra também foi lançado pelo mesmo formato. Como sou um autor desconhecido, é uma forma de divulgar o meu trabalho e o meu estilo. Sinceramente, tenho me esforçado muito para divulgar a obra. Para um autor independente lançar, divulgar e distribuir um livro é uma gigantesca tarefa e requer muito tempo e dedicação”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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