Profissão: Livreiro – vendendo livros e sonhos

No Dia do Vendedor de Livros, conversamos com esses profissionais que exercem um papel fundamental no mercado editorial e também na formação de leitores

“É aquele livro com a capa vermelha”. “Sabe me dizer qual é aquele livro que tem uma moça na capa?”. Nós, leitores, costumamos ter muitos lapsos de memória na hora de procurar um livro numa livraria. Quem nunca se esqueceu de anotar o título e/ou o autor da obra para facilitar essa busca incessante? A verdade é que isso nos passa despercebido, mas felizmente somos socorridos por quem não apenas tem que estar por dentro de tudo o que acontece no mercado editorial, mas também precisa saber decifrar esses enigmas – muitas vezes criativos, outras, um tanto quanto confusos e irreverentes – trazidos por leitores desatentos e esquecidos. São aquelas pessoas que nos orientam e são as responsáveis por tornar as livrarias aquele paraíso, o nosso lugar sagrado: os livreiros. E, no Dia do Vendedor de Livros, nada mais justo do que transformar em protagonistas aqueles que tanto nos indicaram páginas e nos ajudaram a conhecer novos mundos e personagens especiais.

Um livreiro não é simplesmente um vendedor de livros. É muito, mas muito mais do que isso. Se não fosse por um livreiro, você provavelmente não teria lido algum livro do qual nunca tinha ouvido falar ou nem pensava em acrescentar à já tão extensa lista de leituras. Quem nunca entrou numa livraria focado em uma obra e saiu com outra indicada por um livreiro? Os livreiros são, sim, peças fundamentais na nossa luta constante pela formação de novos leitores, bem como para o desenvolvimento do mercado editorial nacional.

Vânia Abreu/Arquivo pessoal

“Para o mercado editorial a importância do livreiro é significativa, realmente fundamental, pois é ele que está em contato direto com o leitor, que pode não somente indicar livros – o que, muitas vezes, incentiva a formação de novos leitores -, mas também trazer informações importantes sobre aquilo que o leitor busca”, declarou Vânia Abreu, diretora comercial da editoria Valentina, ao Vai Lendo. “O livreiro vive a maior parte do seu tempo entre os livros, conhece centenas de títulos e autores e é capaz de encontrar rapidamente um título em uma estante cheia”.

Para Roberto Pedretti, que atuou no varejo de livros por 16 anos – sendo, pelo menos, 12 deles como livreiro especializado na Livraria da Travessa -, o livreiro é “o último profissional que se posiciona entre o cliente e o livro na compra presencial do livro físico”. Ele destacou ainda a necessidade de o profissional ser diferenciado para oferecer ao leitor uma curadoria que estimule o fluxo de leitura.

“Como no Brasil a compra presencial (em livrarias) ainda é a modalidade que, de longe, é responsável pela maior parte do consumo, esse profissional ser diferenciado ainda é essencial”, afirmou. Ele faz a ligação entre os interesses daquele leitor específico (que, muitas vezes, ele conhece de compras anteriores e com o qual estabelece uma relação de confiança nas indicações) e os livros que tem ao seu alcance. Por isso, um livreiro bem informado é capaz de fazer com que o leitor adquira não só livros que tenham mais a ver com suas preferências, mas também mais livros, que ele não estava pensando em adquirir a princípio. Sem que o livreiro faça essa ligação, o consumidor de livros pode ficar sem curadoria, e isso desestimula o seu fluxo de leituras. É possível que, sem as indicações, o leitor possa se voltar para outros estímulos: Facebook, filmes, séries… Sabemos que, hoje em dia, a facilidade de acesso ao audiovisual tornou a competição pela atenção do leitor muito mais acirrada!”.

Já Ana Claudia Mello, que trabalha na Livraria da Travessa há seis anos, apontou a relação de troca de experiências como uma das principais vantagens da função, que consequentemente traz também uma grande responsabilidade social e comercial.

“Quando comecei a trabalhar como livreira, eu não sabia muito bem o que era isso”, disse. “Para todos os efeitos, eu era vendedora de livros – quanto mais livros eu indicasse e vendesse, melhor para a livraria na qual eu trabalhava. Não podemos nos esquecer que isso é um mercado também. Mas essa visão era muito rasa, de fato. O dia a dia dentro da livraria e a relação com os leitores era muito mais do que isso, e eu começava a perceber que parte da clientela era fixa, gostava de estar naquele ambiente, queria ouvir a minha opinião. E eu prontamente ouvia o outro lado também. Conversava com outros livreiros, buscava referências… É uma relação de troca. E nossa, que responsabilidade! Já imaginou alguém deixando de levar um livro porque você indicou outro? E o medo do retorno? Mas tudo isso faz parte, e é essa relação que possibilita um leitor mudar de estilo literário vez ou outra, conhecer novos autores. Com certeza, o livreiro incentiva a diversificação da leitura. Eu trabalho com literatura infantil e essa responsabilidade é grande – dependendo do livro e do texto que você indica para cada criança, pode criar apreço ou repulsa pela literatura ou certo autor. Ninguém quer isso, não é mesmo?”.

Por falar em distrações e em novidades, certamente os livreiros foram alguns dos que mais sentiram os “novos ares” do mercado editorial, as novas tendências, especialmente com a tecnologia e o surgimento das vendas online. Como qualquer profissional, os livreiros também precisam estar atentos às mudanças e se atualizarem para atender às novas demandas. No entanto, Pedretti rechaçou qualquer risco à profissão, porém, indicou que os livreiros terão que se adaptar a novos formatos.

“Certamente, a profissão do livreiro deve se modificar, mas não creio que corre o risco de se extinguir”, afirmou. “A curadoria será sempre necessária, e o leitor sempre será atraído a solicitar indicações a quem parece ter mais familiaridade com os livros do que ele mesmo. O que está mudando, de fato, é quem paga pelo serviço que o livreiro pode prestar. As vendas online foram um baque financeiro para as livrarias físicas, que não conseguem concorrer nem pelo preço nem pela logística. Então, é certo também que as equipes de livreiros diminuíram muito e/ou ficaram menos qualificadas. O espaço do livreiro no futuro próximo é mesmo passar aos canais de curadoria digital, fazendo vídeos, fomentando clubes de leitura e clubes do livro. O problema é que, nesse mundo novo, ele vai ter que receber um pagamento pelos seus serviços diretamente através do público – e ainda ter o esforço de se divulgar, se promover… Não vai ser fácil, e não é fácil ser livreiro, hoje. Mas tenho certeza de que o melhor formato aparecerá”.

Ana Claudia fez coro à necessidade de os livreiros se adaptarem. E ela mesma, inclusive, é um ótimo exemplo desse novo perfil de profissional, ao criar um blog de indicação de livros infantojuvenis. É unir o útil ao agradável, mantendo a essência de uma profissão tão importante e que precisa ser mais valorizada.

Ana Claudia/Arquivo pessoal

“Acho que essa atualização já acontece gradualmente”, apontou. “A livraria e os livreiros têm se reinventado nas mídias sociais, cultuam o ambiente pelo seu diferencial que seria a fuga da midiatização. As livrarias continuam cheias e, talvez, essa seja minha melhor resposta. Meus amigos me olham, às vezes, com uma expressão de surpresa quando eu começo a falar sobre um livro específico, uma publicação diferente, porque eles não procuram mais isso. Eles param, escutam, opinam e, mesmo fora da livraria, eu exerço a minha profissão. Livreiro é sempre livreiro, onde estiver. A digitalização da vida, das opiniões e das tendências tem seus lados bons e ruins, como qualquer coisa.  Sobre as vendas online: um site não vende livros a partir da sinopse. Se alguém compra na web, é porque leu ou ouviu sobre aquele livro em algum lugar. Como todos os editores bem sabem: quem vende o seu livro é o livreiro! É ele que vai arrumar a loja, a pilha de livros, dar ou não destaque para um título. Se você vai a uma livraria que preza por essa liberdade, que maravilha, não?! Mas se você não tem tempo para ir até uma, vai encontrar centenas de sites e blogs com sugestões de livros – e tem uns muito bons por aí, sabemos. O legal dessa diversidade é que as opiniões podem divergir e é isso que não pode se perder. As pessoas têm percebido que muitos sites e blogs de indicação de livros funcionam a partir de patrocínio, o que descaracteriza a particularidade do leitor. Eu torço para que os próprios livreiros comecem a se difundir pela internet em todos os veículos, afinal, repito: livreiro é livreiro em qualquer frente. E, justamente por tudo isso, eu mesma já me reinventei: tenho um blog de indicação de livros infantojuvenis que nasceu das dúvidas de clientes que apareciam no meu dia a dia. Eu percebi que, por ali, eu conseguia atingir outras pessoas, tirar algumas dúvidas e continuar sendo livreira por outros canais que não só a livraria. Mas essa essência do livreiro eu quis manter, e o próprio nome do blog (Livreirinha) veio exaltando esse perfil. Tem sido muito bacana, mas já percebi que a reinvenção tem que continuar, e logo tem vídeo por lá”.

Vânia, que trabalhou anos como livreira e foi reconhecida como Livreira do Ano, em 1995, pela Associação Nacional de Livrarias (ANL), também exaltou a relação entre livreiros e leitores como um fator primordial, garantindo, assim, o lugar do profissional no mercado. Contudo, de acordo com ela, falta ainda uma capacitação.

“O livreiro que ama livros, que se atualiza com a leitura de blogs literários, acompanha sempre os lançamentos, não corre perigo”, informou. “A venda de livros online não substitui a livraria para aquele leitor que gosta de ver as novidades, ler as orelhas e conversar com seu livreiro predileto.O que falta no mercado editorial é a capacitação para este profissional que, muitas vezes, é autodidata”.

O livreiro precisa saber vender, ter habilidades sociais para não apenas convencer, mas também criar uma boa relação de confiança com os leitores. Além, é claro, de ser um ávido leitor. Ufa! Ser livreiro é um gesto e uma prova de amor. Amor aos livros, à literatura. É um trabalho árduo, ainda pouco reconhecido – pelo menos, não do jeito que merece -, mas, para quem ainda exerce ou já exerceu a profissão, o que fica é o orgulho e o prazer de se trabalhar com aquilo que ama e de saber que desempenha um importante papel para a sociedade e para o mercado. E o futuro? Para os livreiros, o futuro é um livro ainda em branco com muitas páginas de experiências e realizações a serem preenchidas.

“O livreiro deve ser um bom crítico sobre aquilo que está lendo’, concluiu Ana. “É sempre bom quando os leitores retornam à livraria para falarem sobre o livro que você indicou. Uma vez, uma mãe me mandou pelo Instagram a reação do filho lendo um livrinho que eu indiquei. Ela estava insegura sobre como ler o livro para ele e eu, na livraria, fazia vozes estranhas e mostrava para ela que tudo dependia da forma como se lia e interpretava o livro. Muitas vezes, a narrativa fala por si só, mas temos sempre que valorizar um ponto ou outro na contação de histórias para crianças. Quando pensamos na literatura mais geral é a mesma coisa. O importante é primar pela escuta e pelo diálogo. Todos têm direito \ uma opinião. Eu não gosto da imposição de algo a partir de um preconceito literário; para mim, já se perde e muito aí. Todos têm o direito de ler o que quiserem e o respeito é, a meu ver, a parte mais importante desta relação. Quanto ao futuro do mercado editorial e da profissão, muitos consideravam que o livro impresso tinha um futuro trágico com o surgimento dos ebooks. O que o livreiro quer, na minha opinião, é que mais pessoas tenham acesso à literatura, não importa o meio. Mas o advento dos ebooks não significou o fim do livro impresso (nem dos livreiros), que continua fervilhando por aí – mesmo depois de sofrer com a crise um tanto falaciosa do mercado. Existe ainda uma forte cultura em torno do livro-objeto cultuado nas estantes; o cheiro do papel, a capa dura, a sua fisicalidade sensorial. É um prazer, um deleite ou uma preferência, não importa. Acredito que os livros digitais e impressos podem conviver em harmonia. O futuro do mercado editorial é ainda muito incerto, as linhas continuam um pouquinho tortas nesse percurso. Mas os livreiros estão por aí, resistentes (bravamente, devo dizer). Vale lembrar que, até pouco tempo atrás, haviam rumores, ‘ali na esquina’, sobre o fim das livrarias, e os mais radicais ainda falavam sobre o fim dos editores, com as novas possibilidades da autopublicação. Acho que é uma experiência por qual todo mercado passa. Infelizmente, nesse caso, atingiu negativamente vários ramos do mercado editorial. Apostou-se em uma incerteza, sem tempo à sua maturação. Mas a analogicidade do livro persiste. O futuro do mercado editorial quem dita de fato?”.

Com a propriedade de quem dedicou anos da sua vida às livrarias e aos leitores, Vânia reiterou que nada valia mais a pena do que ver a satisfação de quem teve o prazer de uma boa leitura, através de uma indicação sua. E, mesmo com as dificuldades, prevê um futuro literário bastante variado e estimulante.

“Minha maior realização como livreira sempre foi ver um leitor sair feliz com o seu livro, ou porque encontrou o que queria ou porque eu soube indicar um título que o agradou”, declarou.”E o maior desafio, por conta disso, foi manter a livraria abastecida, de forma que, na percepção do leitor, na minha loja, ele encontraria sempre o título procurado ou um livro surpreendente. O livreiro precisa ser apaixonado por livros e muito comunicativo. Por isso mesmo, espero que o futuro reserve uma imensa diversidade de títulos novos a cada ano e consequentemente um livreiro mais antenado com os gêneros lançados”.

Roberto Pedretti/Arquivo pessoal

Pedretti, por sua vez, apontou que os desafios e as realizações da função ajudam a formar a essência do profissional. Para ele, o importante é que o próprio livreiro tenha consciência e orgulho da importância do seu trabalho e que seja livre de qualquer preconceito literário.

“A maior realização do livreiro é emplacar vendas significativas de um livro que, a princípio, estava esquecido no catálogo de uma editora”, confirmou. “Perdi a conta das vezes em que eu pessoalmente, ou a equipe como um todo, enamorou-se de um título ao qual não se dava muita atenção e conseguimos fazer dele um sucesso de vendas dentro do nosso próprio grupo de clientes. Isso é muito gratificante. Já o maior desafio é, sem dúvida, achar o título certo para o leitor certo. O livreiro precisa encarar o acervo que tem para trabalhar sem preconceitos; saber que cada título tem um leitor à sua espera, e que não existe, via de regra, um gênero de livros que seja pior que outro. O livreiro precisa unir dois tipos de personalidade que, às vezes, não parecem se compatíveis: ser um leitor dedicado, constante, concentrado e, ao mesmo tempo, ser uma pessoa muito sociável, que aprecie conversar com os clientes e seja paciente com eles (nem todos são fáceis…). No meio disso, o livreiro precisa estar sempre curioso, porque, apesar de as livrarias terem seus setores de compras e área comercial, ele, na linha de frente, vai ser o profissional mais bem posicionado para renovar o acervo de uma livraria – ficar de olho nos lançamentos, em livros que forem sugeridos pelos clientes, em reedições etc. Acho que os livreiros, que hoje estão um pouco perdidos e que passaram por ondas de demissões, vão aos poucos reencontrar seu papel junto ao público leitor, seja se aproximando mais das editoras, seja estabelecendo outros tipos de vínculos profissionais com o varejo de livros. O que importa é que não percam a perspectiva de que ainda são uma classe profissional única, com sua formação própria e habilidades adquiridas. Eu espero que, mesmo em plataformas digitais, o livreiro ainda mantenha esse orgulho da profissão para se apresentar como tal”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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