Passarinha, de Kathryn Erskine | Resenha

Review of: Passarinha
livro:
Kathryn Erskine

Reviewed by:
Rating:
5
On 18/11/2017
Last modified:27/11/2017

Summary:

"Passarinha" é um livro que nos ensina, comove, toca lá no fundo do nosso coração.

‘Passarinha’: um livro que vai tocar o seu coração

O mundo pode ser visto de inúmeras formas. Entretanto, nem sempre a grande dificuldade é se colocar no lugar no outro e, sim, entender a sua visão: a forma de interpretar os acontecimentos, de demonstrar sentimentos, as limitações. Desvendar o outro e ter empatia por ele é a chave para uma sociedade mais inclusiva. Em Passarinha, publicado pela editora Valentina, Kathryn Erskine aborda a compreensão de uns pelos outros com uma história tocante. Na obra, o leitor é convidado a mergulhar na mente de uma criança portadora da Síndrome de Asperger em um dos momentos mais delicados da sua vida. Da mesma forma com que a protagonista tenta descobrir como as pessoas em volta dela lidam com a morte, nós, leitores, vamos, aos poucos, compreendendo como é ver um mundo tão literal. A troca é impressionante!

Caitlin é uma menina de dez anos de idade, autista, que tenta captar o sentido após o dia em que a vida desmoronou: a morte de seu irmão mais velho Devon – que sempre a guiou pelo mundo. Seu pai, devastado, não para de chorar. Ela quer ajudá-lo, mas como? Tendo dificuldades de se relacionar, Caitlin recorre aos livros e dicionários e, após ler a definição da palavra “desfecho”, tem certeza de que é exatamente disso que ela e seu pai precisam e vai em busca de um desfecho.

Uma das características mais marcantes de Passarinha é a narrativa. O texto quase não tem pausa, virgulas. É realmente uma criança narrando, que desengata a falar sem trava! Mas não é uma criança comum. O modo literal de ver o mundo, tudo preto no branco, torna o seu olhar especial. É incrível como a escritora conseguiu retratar uma trama pesada (lidar com a morte) sobre a perspectiva de uma criança com Asperger. Ao mesmo tempo em que é duro, é de uma sutileza emocionante!

Mergulhar na mente de Caitlin é fascinante, pois permite ao leitor se colocar no seu lugar. E não é uma tarefa fácil! É outra percepção de mundo. O estranhamento é inevitável. Um dos questionamentos da personagem que mais mexeu comigo foi a dificuldade dela de entender o porquê de as pessoas a tratarem diferente – com mais cuidado – “só porque o irmão dela morreu”. Ela não conhece empatia. E, para nós leitores, que temos isso latente nas nossas emoções, é angustiante. A morte para ela é muito objetiva, e o fato de ela falar sobre o irmão morto no tempo presente foi um soco no estômago. Neste momento da leitura, me identifiquei muito com o pai dela não sabendo lidar com a situação. É sufocante! Mas, ao mesmo tempo, Caitlin nos ensina, comove, toca lá no fundo do nosso coração. Com certeza, você irá ver o mundo de outro jeito.

A tragédia que culmina na morte de Devon mexe não só com Caitlin e seu pai, mas com a pequena cidadezinha como um todo. De certa forma, todos os moradores acabam sofrendo o luto. Esta temática, apresentada na visão da protagonista – que não entende essa comoção -, reflete a dificuldade que nós temos de lidar com a perda, da necessidade de ajudar o próximo e seguir em frente. É muito interessante a diversidade de reações trabalhadas pela autora e como cada indivíduo busca a superação, corroborando para o enriquecendo do contexto apresentado.

Passarinha é um livro com uma escrita repleta de significados, como menciona a tradutora Heloísa Leal antes de nos apresentar a história de Caitlin. E ter alguns detalhes explicados pela responsável pela tradução é, sem dúvida, essencial para que o leitor possa captar o jogo de palavras que a autora fez e toda a profundidade e sensibilidade do texto. A tradução é um trabalho difícil, mas fundamental. Afinal, nós, leitores, não somos obrigados a saber outros idiomas, entretanto, queremos, dentro das limitações, uma narrativa mais próxima da original. E o resultado em português (edição brasileira) da obra de Kathryn Erskine é fantástico. Imagino o quanto não deve ter sido complicado, pois dois dos símbolos mais importantes do livro não causam o efeito almejado em nossa língua. E isso altera drasticamente a percepção.

Passarinha é de uma sensibilidade incrível, provoca empatia no leitor e nos mostra que nem sempre conseguimos interpretar os reais sentimentos de uma criança com Asperger. É duro, mas quem disse que a vida é fácil? Imagina ter que lidar com tudo o que Caitlin passou? Além da extrema importância de falar sobre o autismo, colocando o leitor na perspectiva da criança, a obra também aborda a morte de uma forma confortante e nos ajuda a entender a necessidade de seguir em frente. Um livro que precisa ser lido por todos: adultos e crianças. Debatido em casa e nas escolas. Vamos praticar a empatia! Vamos ser inclusivos!

Para finalizar, não poderíamos deixar de agradecer à nossa amiga e escritora Tamires Romano que nos indicou e emprestou o livro Passarinha. Obrigado pela sugestão de leitura e nos desculpe pela demora para entregar o livro. Sabe como é, a nossa fila de leituras é sempre interminável (risos). Muito obrigado! =)

"Passarinha" é um livro que nos ensina, comove, toca lá no fundo do nosso coração.

Daniel Lanhas

Apaixonado por histórias, tramas e personagens. É o tipo de leitor que fica obsessivamente tentando adivinhar o que vai acontecer, porém gosta de ser surpreendido. Independente do gênero, dispensando apenas os romances melosos, prefere os livros digitais aos impressos, pois, assim, ele pode carregar para qualquer lugar.

Um comentário em “Passarinha, de Kathryn Erskine | Resenha

  • 28/07/2019 em 11:39
    Permalink

    Estou lendo esse livro atualmente e estou adorando.

    Resposta

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