Entrevistas

Entrevista: Sofia Silva

04 outubro, 2017 por

A escritora portuguesa falou da importância de se debater a violência doméstica, do carinho dos brasileiros e da surpresa de ser publicada primeiro no Brasil, antes de Portugal

Violência doméstica. Duas palavras tão fortes. Um assunto extremamente delicado e polêmico que precisa ser debatido, apesar de todas as incertezas, inseguranças, receios e principalmente de todo o preconceito. E intolerância. Ainda hoje, não sabemos como agir, o que falar e/ou fazer. Geralmente, culpa-se a vítima. Na maioria dos casos, as mulheres. Quebra-se todo o encanto do casamento. Tem início o pesadelo. Mas a literatura pode e deve ajudar. Os livros são alguns dos principais meios de se levantar os debates e fazer com que as pessoas comecem a refletir, a pensar, a questionar. A portuguesa Sofia Silva usou de sua narrativa poética para falar sobre este assunto em Sorriso Quebrados, sucesso no Wattpad que arrebatou o coração dos leitores brasileiros, fazendo com que a autora fosse publicada aqui, pela editora Valentina, antes mesmo de ter a chance de lançar o seu livro em formato físico no seu país de origem.

“É surreal porque eu fiz o caminho inverso”, afirmou Sofia em entrevista exclusiva ao Vai Lendo na Bienal do Livro Rio 2017. “Só depois de publicar aqui no Brasil é que eu vou publicar em Portugal. Fechei contrato com a Presença, que é uma das melhores editoras de Portugal. Não consigo mensurar essa situação porque a ficha ainda não caiu direito. É muito estranho, mas, por outro lado, é muito bom porque eu venho do Wattpad, que ainda sofre muito preconceito, principalmente aqui, no Brasil. Então, para mim, são duas conquistas. Primeiro, a conquista por eu ter vindo do Wattpad. Foi a valorização de um escritor do Wattpad e, depois, da autopublicação, que é um risco. Quando publicamos algo na Amazon, pode ter sucesso, mas pode não ter. E saber que minhas leitoras que me acompanham no Watppad que compraram o livro e me fizeram estar no top de vendas foi maravilhoso. Se eu tivesse que tirar uma ideia geral é que o leitor brasileiro é fiel ao autor. Meu leitor é fiel desde 2014. Me segue e não me abandonou. E acho que isso é fundamental”.

Além de trazer o assunto sobre a violência doméstica à tona de uma maneira quase lúdica, Sofia teve a preocupação de abordar um outro ponto de vista da situação: o que acontece após a agressão. A autora explicou que seu principal objetivo, além de trazer a questão de uma maneira mais leve, na medida do possível, era principalmente fazer com que as pessoas pensassem nas consequências de tudo isso.

“Eu  não queria que o leitor lesse uma historia pesada”, indicou. “A poesia foi toda com esse objetivo de trazer uma leveza, uma sensibilidade, mas a poesia também pode ser cruel. Algumas cenas no livro são escritas de forma poética, mas elas são cruéis. Eu narro de forma poética, mas, em alguns momentos, é muito triste. Mas eu acho que, se eu escrevesse de outra forma mais cruel, o livro seria cruel ao extremo e o tema já é pesado. Eu não quis falar sobre a violência doméstica propriamente dita, apesar de ser o tema do livro, mas falar das consequências, de como fica a marca, como as pessoas têm dificuldade de seguir em frente. Todos nós sabemos, já ouvimos casos de violência doméstica infelizmente, mas poucos imaginam, se preocupam com o que vai acontecer com aquela mulher, aquela pessoa depois. Ninguém quer saber. As  notícias não abordam isso. Nunca vemos noticias sobre o depois, não interessa. Então, eu quis mostrar esse lado. Acho que ajudou muitas pessoas a olharem para as amigas, para as mães que passaram por isso. Uma leitora disse que o livro a ajudou a não julgar tanto a mãe, porque ela havia julgado antes. Mas disse que, agora, consegue entender a mãe e que sabe que a culpa não foi dela. O livro ajudou ela a ter uma visão diferente sobre isso”.

Para Sofia, hoje, as pessoas já conseguem ter uma percepção um pouco diferente do que acontece e de quem, de fato, é a vítima. Mas a autora também ressaltou que ainda falta muito para que essa isso seja, de fato, absorvido pela sociedade. Principalmente para evitar que as mulheres agredidas sintam-se culpadas, responsáveis pelas agressões que sofreram, uma vez que geralmente as pessoas tendem a julgá-las não apenas pelo o que aconteceu, mas também pelas decisões que acabam tomando posteriormente, ainda sob pressão e medo.

“Hoje em dia, nós protegemos a mulher que sofreu isso e culpamos o homem, mas, há 10 anos, culpávamos a  mulher e protegíamos o homem”, apontou. “Então, hoje, estamos mais atentos a isso. Quando escrevi o livro, pensei que precisava saber o que acontece não na hora da violência doméstica, mas depois. Tenho uma amiga que trabalha numa instituição de ajuda a vítimas, e eu perguntei quais são os sintomas pós-violência. Como elas viviam. E ela disse que a maioria se responsabilizada e acabava por voltar para o cara, porque achava que a culpa era dela. É um ciclo vicioso. E eu não queria isso. Queria alguém que se libertou mesmo, mas, mesmo assim, ainda vive com essa culpa para mostrar que a sociedade também tem culpa. Que responsabiliza a vítima e fica julgando. Queria que as pessoas lessem e parassem de julgar. Muitas dessas mulheres seguem nessa situação pelos filhos e sabemos que uma mãe faz qualquer coisa pelos filhos. Não podemos julgar. É um tema muito complexo. Esse foi só um exemplo, mas infelizmente temos milhares de outros exemplos no mundo”.

Sofia, que fez a tão sonhada transição de muitos escritores independentes para uma editora, exaltou a oportunidade que o Wattpad oferece aos novos autores e reiterou que a plataforma tem ajudado também a mudar o cenário do mercado editorial, apesar de, em Portugal, o livro digital ainda não ter a menor chance contra os livros físicos.

“Não existe preconceito em Portugal com o Wattpad porque não existe o conhecimento”, declarou. “Nós somos leitores muito tradicionais. É muito livro físico. O ebook tem pouca saída. O Wattpad é mais conhecido entre os jovens, por causa das fanfics, que ainda fazem muito sucesso. Mas não entre a minha faixa etárea. Poucas pessoas da minha idade leem pelo Wattpad em Portugal, mas eu acho uma plataforma excelente. Tem os seus defeitos, como qualquer plataforma, porque, a partir do momento em que qualquer pessoa pode publicar, você vai ter coisas boas e ruins. É o leitor que faz essa fiscalização. Mas oferece uma variedade grande, e as editoras perceberam o que os leitores gostam. Elas estão mais atentas. Os autores também estão mais atentos, então, é uma plataforma que ajuda autores, editoras leitores. Elas já sabem o que vai render no Wattpad e, no fim do dia, o dinheiro conta. O Wattpad ajuda muito o autor a ser conhecido, mas também ajuda a editora a saber que vai publicar algo que terá lucro”.

E, por falar nessa transição, a autora não poderia estar mais satisfeita pela parceria com a editora Valentina. Para ela, poder olhar e segurar o seu próprio livro que, até então, só existia através dos cliques e downloads, é o reconhecimento e a valorização de todo o trabalho.

“É um tratamento diferente com a editora”, disse. “A gente sempre esteve em contato durante a produção do livro. Eles tiveram muito cuidado, me perguntavam se estava bom, o que eu gostava, o que eu não gostava. A Valentina tem um tratamento diferente comigo e sei que muitos autores não têm essa sorte. Ainda mais por eu estar longe. Mas, ainda assim, tivemos muito contato. É uma delícia pegar o livro físico, sentir as folhas, a capa. Mas, ao mesmo tempo, é saber que o trabalho valeu a pena, porque é um orgulho, não vou mentir. É saber que aquelas horas de estudo sobre o tema valeram a pena. Quando a gente pega o livro, é fantástico”.

Se Sofia está encantada com o Brasil e com os leitores daqui, a recíproca é mais do que verdadeira. Depois de lotarem o bate papo com a autora na Bienal, a portuguesa não poderia sair do país com uma impressão melhor. Para ela, a recepção dos brasileiros foi uma verdadeira prova de amor.

“Eu estou fascinada (com o carinho dos leitores)”, concluiu. “Nunca fui tão abraçada como aqui. É muito abraço, choro, beijo. Nós portugueses também gostamos muito de tocar, de abraçar, mas brasileiro ganha disparado. Eu acho que o leitor brasileiro é o mais amigo do autor. Ele não abraca e não beija se não gostar. Isso é prova de amor. Não há prova de amor maior do que o abraço e o beijo”.

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