Quadrinhos: da formação de leitores ao reconhecimento nacional, um papo com Sidney Gusman

Jornalista exalta o caráter introdutório à leitura dos quadrinhos, fala da importância da Turma da Mônica na formação de leitores e destaca o novo cenário positivo para o formato no mercado nacional

Formar novos leitores não é das tarefas mais fáceis aqui no Brasil, onde o fomento à leitura ainda precisa ser melhor trabalhado e o preconceito a gêneros e formatos literários, até hoje, existe. Os quadrinhos, por exemplo, quase não eram reconhecidos e chegaram a ser, inclusive, proibidos. Contudo, foi com a Turma da Mônica que milhares de crianças aprenderam a ler e foram introduzidas à literatura. Fato incontestável, até hoje. E o jornalista Sidney Gusman conhece bem os desafios de trabalhar diretamente com personagens adorados por várias gerações e ajudá-los a cumprir esse papel, ao longo dos anos.

Considerado um dos maiores especialistas de quadrinhos do país, Sidney Gusman escreve sobre o tema desde 1990 e, de 2000 a 2006, recebeu  o Troféu HQ Mix de melhor jornalista especializado em HQs do Brasil. Após passar pelas editoras Globo, Conrad e Panini, desde 2006, Sidney é responsável pela área de planejamento editorial da Mauricio de Sousa Produções, onde exerce o exercício diário da criatividade para trazer inovações a uma marca já consolidada e renovar o público.

Sidney Gusman / Reprodução Facebook

“Quando eu cheguei na MSP (Mauricio de Sousa Produções), em 2006, a gente publicava pouco livro”, contou Sidney Gusman ao Vai Lendo. “Hoje, a gente publica muito livro, e o outro desafio era também usar os personagens do Mauricio para outros públicos, públicos mais velhos. Primeiro, veio o sucesso da Turma da Mônica Jovem, uma grande sacada do Mauricio, e depois vem a minha parte, com os MSP 50 e as graphic novels, que eram para um público juvenil adulto. Desde então, temos resgatado muitos leitores não apenas para o Mauricio, mas para o mercado de quadrinhos. É um desafio constante porque eu sempre tenho que ficar de olho em bons autores que vão saber trabalhar os personagens do Mauricio, mantendo a essência deles e tornando-os interessantes. Isso não é fácil”.

MSP 50 – uma série de três livros de quadrinhos desenvolvido pela Mauricio de Sousa Produções no qual artistas brasileiros foram convidados a elaborar histórias em que fizeram uma releitura dos personagens clássicos de Mauricio de Sousa em homenagem aos 50 anos da carreira do quadrinista, completados em 2009 / Divulgação

Como adaptar personagens já tão queridos e mantê-los atraentes para as mais variadas gerações é justamente uma das principais questões que permeiam as mentes dos leitores da Turma da Mônica, uma vez que o carinho e admiração pela obra de Mauricio de Sousa permanecem atemporais. Para Sidney, é fundamental que as histórias se adequem às nuances de cada época, para que os leitores não apenas possam se conectar, mas principalmente se identificar com aquele contexto, garantindo, assim, a sua continuidade ao longo dos anos.

“A missão do Mauricio, da Marina (filha do Mauricio e roteirista da MSP), da Alice (diretora de arte da MSP) e dos roteiristas é falar a língua do dia e da hora. Esse é o grande barato. Eles conseguem fazer com que os personagens se comuniquem com os leitores, sempre falando coisas da sua época. Nos anos 70, por exemplo, a Magali gostava do Francisco Cuoco. Hoje, eles gostam de atores atuais, de videogame… Essa atualidade é que mantém a longevidade da Turma da Mônica, geração a geração.  Todo mundo tem que estar antenado com o que acontece para que o material fique atualizado. Por isso que as pessoas sempre vão achar a Turma da Mônica da sua época melhor. Essa renovação do público para as futuras gerações passa pelos roteiros estarem adequados a cada público que vai surgindo”.

Sidney, que também é editor-chefe do portal Universo HQ, o principal site sobre quadrinhos do país (dez vezes vencedor do Troféu HQ Mix em sua categoria), ressaltou que há, sim, uma mudança de cenário positiva em relação ao mercado nacional de quadrinhos.

“Nunca houve uma época melhor para ser nerd do que agora”, afirmou.“Claro que a popularização dos filmes de super-heróis ajudou, mas isso não significa necessariamente o público de quadrinhos. Tem mais gente disposta a ler quadrinhos e, hoje, felizmente temos quadrinhos de todos os gêneros, para todos os públicos e para vários bolsos, inclusive. Tem quadrinho que certamente vai se encaixar com o que você quer. No Universo HQ a gente percebe isso. Vamos fazer 18 anos em janeiro do ano que vem, e nós vimos essa transformação do mercado. Os profissionais já estão ganhando mais espaço em adaptações literárias e comic cons, por exemplo. Quando eu comecei a escrever sobre quadrinhos, passavam-se dois, três meses sem um lançamento nacional. Hoje, a cada dois, três dias, no máximo, temos novidades de quadrinho nacional. Seja no Catarse (plataforma de financiamento coletivo) seja por editora, tem muita gente querendo contar as suas histórias em quadrinhos. E criticamente falando, nunca vivemos um momento tão bom no mercado de quadrinhos nacional”.

Mesmo com a era da tecnologia e com as inúmeras novidades que disputam a atenção dos leitores, Sidney destacou o caráter introdutório que os quadrinhos têm em relação à leitura – apontando que não há competição entre os formatos, pelo contrário, um pode ser complementar ao outro – e exaltou a importância do Mauricio de Sousa e da Turma da Mônica, nesse sentido.

Graphic Novels da Turma da Mônica / Divulgação

“Falar que o gibi atrai mais a atenção das crianças do que o livro é meio relativo porque, se for um livro ilustrado, a fascinação vai ser a mesma”, explicou. “O que eu posso dizer é que os gibis ajudam muito a formar novos leitores porque são mais baratos, e esse papel quem exerce com mestria é o Mauricio de Sousa. Ele é o maior formador de leitor que esse país já teve. É impressionante o número de gente que já leu os gibis, depois migra para os livros e passa para outras coisas. E eu espero que continue lendo para sempre. Eu acho que a Turma da Mônica tem um papel paradidático absurdo. Muita gente aprende a ler nos gibis do Mauricio, e isso é realmente incrível. O maior legado dele é transformar esses personagens em ícones da cultura pop. O Roberto Civita disse uma vez que o Brasil é o único país em que um autor nativo bateu a Disney com quadrinho nacional. Mauricio de Sousa com a Turma da Mônica. Não é pouca coisa”.

Com tanta abrangência, inspiração e possibilidades, será que há um limite criativo para a Turma da Mônica?

“Não acho que tenha um limite para a Turma da Mônica”, concluiu. “Dá para fazermos de tudo. Podemos fazer livros de receitas, de religião, de educação financeira, graphic novel para adultos, desde que se mantenha a essência dos personagens. A Turma da Mônica é uma herança nacional, então, por isso, se bem trabalhada, você consegue atingir todo o tipo de público em diversos produtos lançados ao mesmo tempo. E isso faz a diferença  no mercado editorial a nosso favor”.

‘Capitão Feio – Identidade’/ Divulgação

E corroborando o que Sidney Gusman disse, a MSP se prepara para lançar a sua 16ª graphic novel, Capitão Feio – Identidade, na Bienal do Livro do Rio 2017, que acontece dos dias 31 de agosto a 10 de setembro. Vida longa à Turma da Mônica e aos quadrinhos! Nós, os leitores, agradecemos.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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