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O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde | Resenha

23 maio, 2017 por

‘O Retrato de Dorian Gray’: um clássico atemporal

Até onde você iria para ficar jovem por toda a eternidade? Essa é uma pergunta perigosa debatida no clássico O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Se eu fosse você, não pensaria muito sobre o assunto. Simplesmente aceitaria o fato de que, sim, você vai envelhecer. Sim, o seu cabelo vai ficar branco. Sim, a sua pele vai enrugar. Sim, o seu corpo não vai funcionar tão bem como antes. Sim, você está se aproximando da morte a cada minuto que passa. Infelizmente, ou melhor, felizmente, não temos um retrato nosso que possa envelhecer em nosso lugar. Algumas coisas são mais preciosas, porque elas não duram.

Dorian Gray é um dos personagens icônicos da literatura que sempre me intrigou. O que leva uma pessoa a perder toda a sua bondade, todas as suas virtudes, em troca de algo tão superficial como a vaidade? Será que vale a pena trocar a sua essência por algo tão efêmero como a beleza?

Dorian é Narciso. De certa forma, ele se apaixona por si mesmo quando vê seu retrato pronto e deseja, naquele instante, que o retrato envelheça em seu lugar para que ele possa permanecer lindo e jovem para sempre. Claro que Gray teve a ajuda de outro personagem neste momento. É o Lorde Henry Wotton que, na verdade, aponta para Dorian como ele é um homem bonito.

Wotton é um personagem tão denso que permite inúmeras interpretações. Para mim, ele representa não somente o egoísmo como o hedonismo. Seu discurso extremamente hedonista seduz o jovem Dorian a procurar por prazer em todas as coisas, em todos os lugares e a todos os momentos. Não acredito que a incansável busca pelo prazer seja ideal. É um caminho muito incerto que pode levar a um fim trágico. O lorde também representa o mundo. A quantas tentações estamos expostos todos os dias? O personagem de Wotton serve para nos lembrar que “o mundo” está lá para te desviar do seu trilho e cabe a você decidir se vai ouvi-lo ou não.

Enquanto Wotton é o diabinho pousado em nosso ombro esquerdo, o pintor Basil Hallward é o anjinho pousado em nosso ombro direito. Ele é o contraponto de Wotton. Hallward tenta alertar Dorian sobre os perigos do discurso de Wotton. Ele representa o bem tentando conduzir seu amigo a um universo puro. Será que consegue?

A única coisa que me decepcionou um pouco em O Retrato de Dorian Gray é que eu esperava que o autor fosse se aprofundar um pouco mais nos personagens e principalmente nas atrocidades que Dorian cometeu. Ficou um pouco superficial, mas, ao mesmo tempo, minha imaginação preencheu os buracos para mim, então, no final das contas, isto não foi tão ruim. Gosto de autores que dão espaço para seus leitores terminarem de preencher e colorir seus universos!

O Retrato de Dorian Gray aborda um tema universal e isto permite que seja atemporal. É impossível ler esta história e não se identificar com nenhuma situação. Ou não se apavorar com a trajetória de Gray e com seu retrato. A obra é um constante questionamento de si mesmo. Será que meus motivos são nobres quando aconselho alguma pessoa? Será que estou no caminho certo? Será que eu sou tão boa quanto eu penso? Será que eu sou tão má quanto eu penso? Será que existe alguma forma de redenção? Amei este livro!

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