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A Lente de Marbury, de Andrew Smith | Resenha

06 dezembro, 2016 por
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2
On 06/12/2016
Last modified:05/03/2017

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A premissa é boa, mas faltou desenvolver e engajar Marbury.

‘A Lente de Marbury’: uma boa premissa que se perde ao colocar os óculos

Coloque os óculos e prepare-se para ser levado a um mundo sinistro: desolador, que cheira à morte e à destruição. Você toparia essa viagem? E se for uma necessidade? Embarque na loucura de A Lente de Marbury, escrito por Andrew Smith, e descubra até onde um trauma pode transformar uma pessoa.

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Antes de falar propriamente do livro, já esperava toda a insanidade apresentada pelo autor. Bizarrices à parte, curti muito Selva de Gafanhotos e fui procurar outras obras de Smith para a leitura, quando me deparei com este título, lançado no começo de 2016, pela editora Gutenberg. Apesar de ser publicado posteriormente aqui no Brasil, A Lente de Marbury veio cronologicamente antes de Selva. Tentei fazer o possível para não fazer comparações, mas foi inevitável – infelizmente.

A Lente de Marbury conta a história de Jack, um garoto de 16 anos que, durante a festa para comemorar o fim das aulas, bebe um pouco além da conta e acaba sequestrado, drogado e torturado. Por sorte, ele escapa das mãos do maníaco, revelando apenas o ocorrido para o seu melhor amigo, Conner. Após o trauma, a viagem para a Inglaterra parece ser a oportunidade para esquecer este trauma. Será? Chegando em Londres, um estranho entrega para Jack um par de óculos cujas lentes mostram um outro mundo: Marbury. Um local destruído pela guerra, onde os poucos sobreviventes precisam fugir para continuar vivos. Nesse universo apocalíptico, Jack é responsável por dois garotos mais jovens, Ben e Griffin, seus únicos companheiros, e também precisa enfrentar Conner, que, neste mundo paralelo, o persegue e quer matá-lo. Doido, não?

Uma das coisas que mais gosto no trabalho de Andrew Smith é a concepção do adolescente. Os personagens são bem verossímeis. Tanto no vocabulário, quanto nas atitudes. Às vezes, choca um pouco no linguajar chulo e o pensamento excessivo em sexo, porém, não deixa de ser um reflexo dos hormônios em fúria. O autor também não tem muitos pudores – o que me agrada -, colaborando para o abuso de uma criatividade sem limites.

A Lente de Marbury tem um começo bem promissor. A premissa do livro é bem interessante e toda a trama do sequestro é bem desenvolvida. No entanto, quando Jack coloca as lentes pela primeira vez, a trama esfria. Assim como o protagonista, o leitor é lançado para este mundo e, aos poucos, vai desbravando-o. Porém, tem muita perseguição e pouca explicação. Nem as cenas de emboscadas, violência, sobrevivência e os insetos grandes comendo gente (já vi isso antes) salvam.

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É compreensível que o primeiro livro, de uma série de dois, não revele tudo. Mas deveriam ter sido trabalhados alguns pontos para que Marbury fosse cativante. O mais relevante é a razão de Jack voltar a esse mundo a todo o momento, como um vício. Tudo bem, sabemos que tem os meninos Ben e Griffin, mas, por quê? Qual é a relação deles? Não mencionei antes, mas Jack se interessa por uma garota no “mundo real”, o que prenderia ele numa, digamos assim, realidade. Porém, isso não acontece. Por mais traumatizado que esteja, é difícil comprar a jornada de Marbury. Eles só fogem, apenas. Faltam revelações. Algo que te prenda ali. Durante a leitura, preferia o desenrolar das tramas adolescentes, em Londres, do que ver as cenas de perseguição e dos insetos comendo gente. E isso é grave! Marbury é a essência da história.

Ao longo da narrativa, mesmo confuso, o protagonista consegue lembrar de passagens que aconteceram num mundo quando ele estava em transe no outro. Jack passa a sensação de conhecer muito mais daquilo que narra para o leitor. Para mim, Andrew Smith deveria ter exposto mais esta questão da relação dos garotos para comprarmos melhor essa dependência com Marbury. Talvez, isso pudesse solucionar o problema de imersão à trama apocalíptica.

Um dos poucos ciclos fechados foi o passado do fantasma Seth (pois é, no meio desta loucura, também tem um fantasma), um clichê de amor proibido muito bem trabalhado e, sem dúvidas, um dos pontos altos do livro. Assim como os amigos de Jack, fiquei aguardando ansiosamente o desfecho da história de Seth, que foi revelado aos poucos.

O vai e vem, de Marbury para Londres, cansa um pouco. E o fato de ser narrado em primeira pessoa, por um adolescente traumatizado, colabora para um desapego em relação a Jack. No começo, tive empatia por ele, pela situação toda, mas, depois, perdi um pouco a paciência. Infelizmente.

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A Lente de Marbury e Selva de Gafanhotos são livros com universos bizarros. É feito para aqueles leitores que gostam de tramas pouco usuais. Sair da zona de conforto (me incluo nessa). Selva ainda consegue ser um pouco mais insano, pela não-linearidade, ao mesmo tempo em que é melhor construído. Isso é bom, pois mostra a evolução de Andrew Smith na escrita de tramas apocalípticas.

Mesmo sem conseguir imergir na trama de A Lente de Marbury, continuo fã do cara. Gosto da de toda a loucura, do seu toque grotesco e de como ele retrata o jovem “sem filtros” ou pudores. Acredito que a continuação vai agradar, pois, enfim, iremos desvendar os mistérios envolvendo Marbury e os segredos por trás dos óculos. O que será que originou a guerra? Será que tudo não passa de alucinações de Jack? O livro terminou com um bom gancho. Vamos aguardar…

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A premissa é boa, mas faltou desenvolver e engajar Marbury.

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