LER – Salão Carioca do Livro: a independência dos autores

Em bate papo com os leitores no Espaço Geek, autores independentes falam sobre o mercado editorial, aspirações e a influência da internet na formação de novos escritores

O principal objetivo da LER – Salão Carioca do Livro – é a bibliodiversidade. E foi exatamente isso que se pôde observar no primeiro dia do evento, nos armazéns do Pieuer Mauá, no Rio de Janeiro. Transformada em um Boulevard Literário, a área recebeu centenas de pessoas na estreia da LER, reunindo os mais variados públicos leitores entre inúmeras palestras, debates, oficinas e declamações. Tem para todos os gostos, sim. Inclusive, para os geeks e nerds, que podem desfrutar de um espaço exclusivo, incluindo a Gibizeira, voltada para os amantes dos quadrinhos. E foi lá também que aconteceu o primeiro bate papo com autores independentes de ficção e fantasia.

Mediada por Janda Montenegro (autora de Três Dias Para Sempre, Por Enquanto, Adeus, O Incrível Mundo do Senhor da Chuva e Antes do 174), a conversa teve ainda Carlos Voltor (que integrou o Jovem Nerd e está escrevendo um livro de terror em parceria com Janda), Miguel Paes (autor de A Sereia de Santa Murgen) e Barthô Tarsus Rocha (autor de Heróis Nacionais), que falaram sobre suas aspirações e expectativas em relação ao mercado editorial, as dificuldades e vantagens de ser um autor independente, a concorrência com autores estrangeiros e a influência do meio digital no trabalho do escritor nacional.

Para Barthô, a internet é uma solução quanto à dificuldade da distribuição do livro físico encontrada pelos novos autores. “O meu livro está no Kobo”, disse. “Eu quis fazer o formato físico e a minha editora permitia que viesse em formato digital também. Acredito que isso seja mais fácil porque a logística de enviar para as livrarias é muito cara. Fica mais acessível quando você é independente e oferece uma versão digital para as pessoas, principalmente por causa das redes sociais que ajudam no trabalho de divulgação”.

Janda, Carlos e Miguel/Foto: perfil oficial de Janda Montenegro
Janda, Carlos e Miguel/Foto: perfil oficial de Janda Montenegro

Miguel, que teve seu livro físico publicado, mas que também ganhará uma versão digital ainda essa semana, ressaltou a importância do meio digital para o autor se fazer conhecido, destacando o papel do Wattpad (plataforma online de publicação de textos) na formação de novos escritores. Papel esse exaltado também por Janda, que considerou ainda a plataforma como um estímulo aos aspirantes da carreira.

“O diferencial do Wattpad em relação à Amazon é que ele funciona como um folhetim, um seriado”, declarou Janda. “Você vai criando seguidores para ler mais um capítulo. Ao longo de um mês, a pessoa já leu o seu livro, capítulo a capítulo. E a leitura é gratuita. Eu acho que o Wattpad está funcionando também como um estímulo aos aspirantes a escritores. Quando você se joga no mundo da internet, onde todo mundo é juiz, você consegue perceber o que está funcionando ou não”.

Quando perguntados sobre as suas inspirações, principalmente ao escreverem em um gênero de nicho, Carlos resumiu que, acima de tudo, o escritor precisa ter o conhecimento e buscar se aprofundar naquele tema que pretende escrever.

“Não é só questão de inspiração”, explicou Carlos. “Você tem que ter o conhecimento, descobrir o que gosta e se inundar disso. Quanto mais você conhecer, quanto mais leituras, filmes, o que for, mais fácil vai ser para desenvolver a ideia. Uma boa história vai depender muito de você, do que você conhece, da sua bagagem, das suas próprias experiências. Outra coisa que ajuda, e muito, é a pesquisa. Você tem que saber pesquisar para escrever algo crível, para as pessoas acreditarem naquilo que você está escrevendo”.

Em relação à concorrência com autores estrangeiros, os quatro reconheceram as dificuldades dos escritores nacionais de se firmarem, mas também apontaram na melhora do mercado para os brasileiros, nos últimos anos. Barthô, por sua vez, indicou a questão da tradição, da falta de familiaridade no que diz respeito às obras nacionais como fator prejudicial à divulgação dos nossos autores.

“Não temos tradição, por exemplo, em termos de autores de ficção científica, e as pessoas tendem a ir para o que já é certo”, declarou ele. “As pessoas não escolhem de primeira o desconhecido. Mas isso está mudando porque já temos outras formas de alcançar os leitores. Você não precisa ficar sabendo de uma obra pelo livreiro, pelas editoras… Há outras plataformas. Então, você começa a formar uma comunidade interessada nesses novos conteúdos e autores e gera um círculo virtual do livro”.

Janda, por sua vez, destacou que, devido à crise, hoje as editoras passaram a investir mais no autor nacional e a buscar escritores que tenham se destacado na internet, invertendo o papel de como os livros estão chegando nas editoras.

“Quando você tem um orçamento apertado, começa a se questionar se não vale a pena investir em livros nacionais de autores que tenham potencial de vendagem e isso tem favorecido os escritores brasileiros”, afirmou ela. “E isso tem modificado o processo de publicação porque, até 2010, a maior parte das publicações de autores nacionais funcionava daquela forma tradicional. Agora, você começa a publicar os seus textos na plataforma e gera um público consumidor do seu conteúdo, chamando a atenção das editoras. Então, talvez, hoje, a pergunta seja justamente como ‘gerar um público?’, porque o autor não se resume mais apenas à escrita. Ele tem que participar, ser interativo e estar próximo dos leitores. É muito mais do que escrever. É estar ativo e acessível. O público quer consumir o autor de todas as formas”.

Da esquerda para direita: Barthô, Miguel, Carlos e Janda/Foto: Vai Lendo
Da esquerda para direita: Barthô, Miguel, Carlos e Janda/Foto: Vai Lendo

Por isso mesmo, foi levantada também a dúvida a respeita das vantagens dos concursos culturais justamente para fazer os autores serem reconhecidos no meio.

“Acho que os concursos fazem, sim, a diferença”, concluiu Carlos. “Você participar de um concurso como autor é algo maravilhoso e um ótimo caminho para entrar no mercado e principalmente ser reconhecido”.

Quanto à questão de ser publicado por uma pequena ou média editora e as dificuldades de se conseguir entrar em uma grande editora, Miguel ressaltou que o tamanho é muito relativo no que diz respeito à qualidade do trabalho oferecido e destacou que ajuda o autor a entender melhor todo o processo.

“Eu comecei com uma editora pequena e acho que é um bom caminho porque eles respondem rápido, além de ser um bom primeiro passo para o autor entender a logística do mercado”, indicou ele. “É um bom primeiro passo também, porque não deixa de ser um estímulo você crescer e ajudar também a editora a crescer, em alguns casos, e fazer parte de todo o processo desde o início”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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