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Liturgia do Fim, de Marilia Arnaud | Resenha

29 setembro, 2016 por

‘Liturgia do Fim’: a complexidade do patriarcalismo em prosa poética

Um segredo. Um tormento que assombra a vida de um homem. Voltar à sua origem é reviver o passado. Encarar o seu maior pesadelo. Em Liturgia do Fim, de Marilia Arnaud, publicado pela editora Tordesilhas, o leitor é contemplado por uma literatura nacional de qualidade que mostra a densidade e a complexidade das relações familiares e a formação do indivíduo.

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Leia a entrevista do Vai lendo com Marilia Arnaud, autora de ‘Liturgia do Fim’

Inácio, escritor e professor universitário, abandona a mulher e a filha, as salas de aula e a literatura para voltar à Perdição, sua cidade natal, onde viveu até os 18 anos. Narrado em primeira pessoa, Liturgia do Fim acompanha o dilemas do protagonista e os segredos que levaram à expulsão da casa dos pais, no começo da vida adulta.

Entre presente e passado, Marilia Arnaud desenvolve a narrativa de Inácio que, aos poucos, desvenda os fantasmas que o perseguem. O gancho da trama, uma vez que o leitor não sabe exatamente como se deu o desafeto com o pai. Através das lembranças, a autora resgata as tradições da família patriarcal: fala de rigidez, machismo e a influência da religião, que acaba refletindo no comportamento do protagonista.

Liturgia do Fim é uma prosa poética de vocabulário riquíssimo a ser apreciada. Uma leitura que mergulha no íntimo da complexidade de um ser humano, na dificuldade de lidar com seus próprios problemas e na busca do seu verdadeiro eu. É uma obra mais intimista, de ritmo mais lento. Que faz refletir.

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Um dos destaques da obra se dá na construção dos personagens, que é fantástica. Inácio, por exemplo, é muito crível. Por mais que critique o pai, ele acaba sendo reflexo de todo um contexto patriarcal que viveu e repete ações condenáveis do progenitor – não na mesma intensidade. Os conflitos são muito verdadeiros e, em certos momentos, os defeitos do protagonista se sobressaem, causando repulsa. Principalmente, quando contrastados com o questionamento e enfrentamento ao sistema de Ifigênia (irmã de Inácio).

Liturgia do Fim é um relato brutal do patriarcalismo. Uma oportunidade de ler a retração de um traço marcante da sociedade brasileira, através da profundidade dos conflitos do ser humano, além de apreciar a riqueza da língua portuguesa.

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