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Entrevista: Marilia Arnaud

14 setembro, 2016 por

Em entrevista ao Vai Lendo, a escritora paraibana Marilia Arnaud fala sobre o seu novo livro, ‘Liturgia do Fim’, o espaço das mulheres no mercado editorial e machismo

'Liturgia do Fim', de Marilia Arnaud / Divulgação

‘Liturgia do Fim’, de Marilia Arnaud / Divulgação

Um homem vivenciando o lado mais sombrio do próprio homem. Através de uma narrativa escrita por quem geralmente sofre com esse tipo de comportamento ignorante, cruel e repulsivo: a mulher. Em Liturgia do Fim, publicado pela editora Tordesilhas, a aclamada escritora paraibana Marilia Arnaud nos surpreende com um romance visceral e extremamente detalhista, que expõe a problemática do machismo em sua totalidade, de maneira densa e sofrida, a partir das lembranças e da vivência de seu protagonista masculino.

Quando falamos – ou lembramos de falar – sobre o machismo, automaticamente o fazemos sobre o ponto de vista feminino, porque são as mulheres as suas principais vítimas. Abordar o tema sob o ponto de vista daqueles que geralmente são “os culpados” é, no mínimo, um desafio. Para Marilia, no entanto, desenvolver a história do escritor e professor universitário Inácio, um homem marcado pelo relacionamento difícil com o pai e cheio de fantasmas do passado, foi algo natural que acabou por trazer a questão de maneira mais clara ao longo da trama, contudo, há realmente um desafio, ela concluiu, no fato de justamente escrever sob o ponto de vista dos homens, por ser um tema retratado na maioria das vezes pelas mulheres.

“Na verdade, não tive a intenção (de especificamente falar sobre o machismo sob uma ótica masculina)”, declarou Marilia em entrevista ao Vai Lendo. “Nunca escrevo com intenções ou objetivos. Para mim, a criação artística é o espaço do imprevisível. Queria tão somente escrever sobre um homem marcado pela frieza, arrogância e violência de seu pai. A partir daí, desse pai distante e autoritário, senhor das coisas e das pessoas que viviam sob o seu teto, é que a questão do machismo foi se delineando, e mostrando o que Valéria Rezende chamou de a ‘face mais vulgar e violenta’ do patriarcalismo. Os leitores têm perguntado se me foi difícil narrar a história de Inácio Boaventura numa voz masculina, a sua própria. Confesso que senti o mesmo grau de dificuldade ao escrever Suíte de Silêncios, narrado pela protagonista, Duína Torrealba. Creio que o grau de complexidade na estruturação do discurso narrativo independe de gênero. De qualquer forma, vejo como um desafio a escritura de Liturgia de um ponto de vista masculino, considerando o fato de que questões tratadas no romance, como a forma como o machismo afeta negativamente as vidas de homens e mulheres, são quase sempre tratadas por mulheres”.

Referência literária e extremamente recebida pela crítica e pelo público, Marilia ressaltou que é preciso uma combinação de sorte e talento para se firmar no mercado editorial, uma vez que “a sorte apenas pode trazer sucesso editorial num determinado momento, mas não dá sustentação a uma carreira. E o talento apenas, sem a sorte, pode manter um escritor sem repercussão a vida inteira”. Mas ela também exaltou o bom momento das escritoras nacionais, cada vez mais reconhecidas num mercado tão concorrido e ainda dominado pelos homens.

“Há muitas mulheres escrevendo, ganhando prêmios, vendendo bastante”, afirmou. “Recentemente, tivemos a Maria Valéria Rezende com dois Jabutis em 2015, romance e livro do ano. No mesmo ano, para nossa alegria, a pernambucana Débora Ferraz abocanhou o Portugal Telecom. As editoras estão apostando nas mulheres. Isso é muito positivo diante do número infinitamente maior de homens no mercado literário”.

Ela, que também é escritora de contos e de um livro infantil, afirmou já estar trabalhando em seu terceiro romance e que espera que Liturgia do Fim seja capaz de tocar e comover os leitores. Comparada ao escritor Raduan Nassar (autor do clássico Lavoura Arcaica), Marilia não vê a associação como um peso, pelo contrário.

“A sensação (de ter sua obra comparada a de Nassan) é a melhor possível”, disse. “Sinto-me honrada e feliz. Considero Lavoura Arcaica uma obra-prima, um dos romances mais bonitos que já li em toda a minha vida. Não escrevo com objetivos. Se Liturgia do Fim tocar os leitores, comovê-los, fazê-los se apiedar de Inácio, Joaquim, Adalgisa, Ifigênia, Florinda, Felinto, Damiana, de suas dores e fraquezas, para mim, já terá sido muito”.

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