Entrevista: Marilia Arnaud

Em entrevista ao Vai Lendo, a escritora paraibana Marilia Arnaud fala sobre o seu novo livro, ‘Liturgia do Fim’, o espaço das mulheres no mercado editorial e machismo

'Liturgia do Fim', de Marilia Arnaud / Divulgação
‘Liturgia do Fim’, de Marilia Arnaud / Divulgação

Um homem vivenciando o lado mais sombrio do próprio homem. Através de uma narrativa escrita por quem geralmente sofre com esse tipo de comportamento ignorante, cruel e repulsivo: a mulher. Em Liturgia do Fim, publicado pela editora Tordesilhas, a aclamada escritora paraibana Marilia Arnaud nos surpreende com um romance visceral e extremamente detalhista, que expõe a problemática do machismo em sua totalidade, de maneira densa e sofrida, a partir das lembranças e da vivência de seu protagonista masculino.

Quando falamos – ou lembramos de falar – sobre o machismo, automaticamente o fazemos sobre o ponto de vista feminino, porque são as mulheres as suas principais vítimas. Abordar o tema sob o ponto de vista daqueles que geralmente são “os culpados” é, no mínimo, um desafio. Para Marilia, no entanto, desenvolver a história do escritor e professor universitário Inácio, um homem marcado pelo relacionamento difícil com o pai e cheio de fantasmas do passado, foi algo natural que acabou por trazer a questão de maneira mais clara ao longo da trama, contudo, há realmente um desafio, ela concluiu, no fato de justamente escrever sob o ponto de vista dos homens, por ser um tema retratado na maioria das vezes pelas mulheres.

“Na verdade, não tive a intenção (de especificamente falar sobre o machismo sob uma ótica masculina)”, declarou Marilia em entrevista ao Vai Lendo. “Nunca escrevo com intenções ou objetivos. Para mim, a criação artística é o espaço do imprevisível. Queria tão somente escrever sobre um homem marcado pela frieza, arrogância e violência de seu pai. A partir daí, desse pai distante e autoritário, senhor das coisas e das pessoas que viviam sob o seu teto, é que a questão do machismo foi se delineando, e mostrando o que Valéria Rezende chamou de a ‘face mais vulgar e violenta’ do patriarcalismo. Os leitores têm perguntado se me foi difícil narrar a história de Inácio Boaventura numa voz masculina, a sua própria. Confesso que senti o mesmo grau de dificuldade ao escrever Suíte de Silêncios, narrado pela protagonista, Duína Torrealba. Creio que o grau de complexidade na estruturação do discurso narrativo independe de gênero. De qualquer forma, vejo como um desafio a escritura de Liturgia de um ponto de vista masculino, considerando o fato de que questões tratadas no romance, como a forma como o machismo afeta negativamente as vidas de homens e mulheres, são quase sempre tratadas por mulheres”.

Referência literária e extremamente recebida pela crítica e pelo público, Marilia ressaltou que é preciso uma combinação de sorte e talento para se firmar no mercado editorial, uma vez que “a sorte apenas pode trazer sucesso editorial num determinado momento, mas não dá sustentação a uma carreira. E o talento apenas, sem a sorte, pode manter um escritor sem repercussão a vida inteira”. Mas ela também exaltou o bom momento das escritoras nacionais, cada vez mais reconhecidas num mercado tão concorrido e ainda dominado pelos homens.

“Há muitas mulheres escrevendo, ganhando prêmios, vendendo bastante”, afirmou. “Recentemente, tivemos a Maria Valéria Rezende com dois Jabutis em 2015, romance e livro do ano. No mesmo ano, para nossa alegria, a pernambucana Débora Ferraz abocanhou o Portugal Telecom. As editoras estão apostando nas mulheres. Isso é muito positivo diante do número infinitamente maior de homens no mercado literário”.

Ela, que também é escritora de contos e de um livro infantil, afirmou já estar trabalhando em seu terceiro romance e que espera que Liturgia do Fim seja capaz de tocar e comover os leitores. Comparada ao escritor Raduan Nassar (autor do clássico Lavoura Arcaica), Marilia não vê a associação como um peso, pelo contrário.

“A sensação (de ter sua obra comparada a de Nassan) é a melhor possível”, disse. “Sinto-me honrada e feliz. Considero Lavoura Arcaica uma obra-prima, um dos romances mais bonitos que já li em toda a minha vida. Não escrevo com objetivos. Se Liturgia do Fim tocar os leitores, comovê-los, fazê-los se apiedar de Inácio, Joaquim, Adalgisa, Ifigênia, Florinda, Felinto, Damiana, de suas dores e fraquezas, para mim, já terá sido muito”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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