Destinos e Fúrias, de Lauren Groff | Resenha

livro:
Lauren Groff

Reviewed by:
Rating:
5
On 18/07/2016
Last modified:05/03/2017

Summary:

Uma obra fascinante sobre as diferentes perspectivas de um casamento.

‘Destinos e Fúrias’: uma obra para ser aplaudida de pé

Um casamento. Dois pontos de vista. Existe uma verdade? Ou tudo depende da perspetiva daquele que narra? Lancelot e Mathilde tiveram uma paixão instantânea, um amor à primeira vista típico dos grandes romances. Casaram rapidamente, quando tinham 22 anos, e passaram a compartilhar a vida a dois. Destinos e Fúrias, pulicado pela editora Intrínseca, relata a vida deste casal, nas dificuldades financeiras iniciais ao sucesso profissional. No entanto, não espere uma linda história de amor. Lauren Groff aborda o casamento através do olhar de cada um dos protagonistas, das diferentes maneiras como um vê o outro, da relação e dos segredos. O livro aborda o amor de uma forma pouco usual e vai te surpreender!

Lancelot Satterwhite (ou Lotto, como é mais conhecido) veio de família abastada e sonha em brilhar nos palcos como ator. Mathilde, pouco se sabe sobre ela, mas é muito dedicada ao marido. Um é completamente apaixonado pelo outro, causando inveja a pessoas próximas. Nos primeiros anos do casamento, porém, o casal encara sérios problemas financeiros, já que a mãe de Lotto não apoia a união e deserda o filho. Apesar de mal conseguirem pagar as contas, o casal tem uma vida feliz, cercada de amigos, festas e muito sexo. Os anos passam, até que Lotto se transforma em um dramaturgo de sucesso. São 24 anos de casamento contados sobre duas perspectivas. Destinos, com foco em Lancelot, e Fúrias, em Mathilde.

Destinos e Fúrias 1

Logo no começo de Destinos e Fúrias, o professor substituto de inglês de Lotto, Denton Thrasher, fala de William Shakespeare, da questão do narrador, do enquadramento, da tragédia e da comédia. A cena desta aula – uma das melhores e mais simbólicas do livro – é o que desperta no protagonista a paixão pelo teatro e sintetiza toda a narrativa que está por vir. Dependendo do foco, uma mesma história pode ter diferentes sentidos. E é isso que Lauren Groff provoca a todo o momento no leitor. A questão do ponto de vista. Assim, consequentemente, temos uma narrativa extremamente rica, repleta de detalhes e conflitos.

Há sempre mais de um lado. Nenhum é genuinamente bom ou mal. A ambiguidade dos personagens, de certa forma, também está relacionada ao enquadramento. Eles são complexos, profundos e mudam dependendo do foco narrativo. Durante a leitura da parte Destinos, com destaque para Lancellot, o personagem do ator me chateava muito. Ficava com pena da esposa em ter que aturá-lo, além de sustentar. Já em Fúrias, foi justamente o contrário. Mathilde não merecia o amor de Lotto. Essa controvérsia é muito interessante, e o melhor é que a visão muda também em relação aos outros personagens. Ainda sobre o relacionamento do casal, um fato me chamou a atenção: de como tendemos a ver, quando estamos apaixonados, apenas os nossos defeitos em comparação à pessoa amada. Elas geralmente são endeusadas, enquanto nós, meros mortais, cheios de defeitos e de culpa não merecemos o amor oferecido.

Destinos e Fúrias 3

A divisão do livro é algo nítido; são lados opostos e complementares. Destinos tem o ritmo mais lento (o que não quer dizer menos envolvente), mais romantizado – que é como Lotto encara a vida. Mostra o personagem amadurecendo, o casamento e o desenvolvimento da sua carreira. Uma narrativa mais linear. Por outro lado, Fúrias é uma explosão! O tempo não segue um padrão. Algumas verdades de Destinos caem por terra. A leitura fica mais frenética. Segredos são revelados.

A estrutura narrativa de Destinos e Fúrias também tem uma peculiaridade bem interessante, na verdade, uma apropriação que Lauren Groff fez do pano de fundo da obra e da grande paixão do protagonista: o teatro. Passagens do livro são narradas como esboços teatrais, pelos quais podemos acompanhar a carreira de Lotto (que, de certa forma, reflete a sua vida) e tem cenas na forma de roteiro.

Destinos e Fúrias 2

Destinos e Fúrias é um livro denso. O leitor precisa ficar atento a todas as nuances dos personagens e nos pequenos detalhes das cenas. Principalmente quando se entra na tormenta de Fúrias, onde a própria narrativa se desconstrói. Tive que voltar algumas vezes, confesso, no entanto, eu estava tão envolvido que não me importei. Queria mergulhar mais fundo.

Outro fator que pode intimidar alguns leitores é a abordagem do amor e do casamento, que foge da visão romântica. Sei que muito se anseia e se projeta nas histórias. Gostamos de sair da realidade, suspirar, viver aquele “final feliz” de amor pleno, sem divergências. Porém, esta não é a única representação do amor, não é mesmo? Amar é muito mais complexo e apresenta diferentes formas, até com os seus segredos, como Lotto e Mathilde. Isto é questionável? Sim, mas é também o que a leitura de Destinos e Fúrias provoca. E uma das funções da literatura não é justamente provocar o leitor?

Fiquei fascinado por Destinos e Fúrias, mesmo não sendo o tipo de literatura que costumo ler. Mérito da autora, sem dúvidas! Lauren Groff conseguiu elaborar um texto envolvente, reflexivo e profundo, que foge da abordagem convencional dos romances. No fim, não suspirei por Lotto e Mathilde, mas me apaixonei pela história do casal e, principalmente, em como ela foi contada. Uma grande obra! Que, como tal, merece ser aplaudida de pé.

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Destinos e Fúrias Ficha Técnica Livros

 

 

 

 

 

Uma obra fascinante sobre as diferentes perspectivas de um casamento.

Daniel Lanhas

Apaixonado por histórias, tramas e personagens. É o tipo de leitor que fica obsessivamente tentando adivinhar o que vai acontecer, porém gosta de ser surpreendido. Independente do gênero, dispensando apenas os romances melosos, prefere os livros digitais aos impressos, pois, assim, ele pode carregar para qualquer lugar.

2 comentários em “Destinos e Fúrias, de Lauren Groff | Resenha

  • 18/07/2016 em 11:52
    Permalink

    Oi Daniel! Tudo bem? Estava esperando a resenha do Vai Lendo deste livro depois de a Ju e eu conversarmos sobre ele! =) Como eu comentei para ela, achei Destinos bem chatinho, uma leitura arrastada; Fúrias salvou o livro para mim! Isto que você comentou sobre “a abordagem do amor e do casamento, que foge da visão romântica” é o que mais me agrada na obra, na verdade. Mas não me identifiquei com essa forma louca com que Groff narra a história. É original e ambiciosa, mas não me agradou. Legal isso que comentou sobre a apropriação do teatro – dá para perceber como a autora gosta e entende de teatro, né?

    Abraço,
    Brenda
    https://sobrelivrosetraducoes.com.br/

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    • 19/07/2016 em 12:24
      Permalink

      Oi, Brenda! Li a sua resenha no Sobre Livros e Traduções também e, talvez, o excesso de expectativa tenha causado um pouco de decepção. Quando resolvi ler “Destinos e Fúrias” sabia pouco sobre a obra, mas, como gosto de variar, topei o desafio. Nas primeiras páginas, a narrativa de “Destinos” e o perfil do Lotto não me agradaram muito. Porém, a trama foi me ganhando, ainda mais quando ele vira um jovem rebelde, e me arrebatou de vez na aula que ele se aproxima do teatro (dei até esse destaque na minha resenha). Gosto muito da questão do enquadramento e como um fato pode mudar dependendo do foco (acho que até falei demais sobre isso na resenha, ahuahau). Eu também curti muito a passagem de tempo na forma das peças, acho que acaba refletindo um pouco do amadurecimento e da vida do protagonista. Quando comecei a ler “Fúrias”, já fiquei com uma expectativa alta porque sabia que tinha muita coisa para ser revelada e não me decepcionei. Mas realmente não é uma leitura fácil. Até agora fico me perguntando como gostei tanto da obra, mas algumas coisas a gente não consegue explicar mesmo, hahaha. Gostei muito do livro! Muito obrigado pelo comentário!

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