‘Papa Mike’ destrincha a realidade da PM no Brasil

O Vai Lendo conversou com o Sargento Lago, policial aposentado autor de ‘Papa Mike: a realidade do policial militar’, que falou sobre a experiência de viajar pelos quartéis do país para observar a rotina dos policiais, desconhecida pela sociedade

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Sargento Lago, policial aposentado autor de ‘Papa Mike’ / Divulgação

Um profissional questionado. Que arrisca a própria vida para salvar outras, mas também as tira. Uma eterna luta do bem contra o mal, cujos detalhes só podem ser registrados e apresentados por alguém que efetivamente viveu nesse conflito interno e externo diariamente. Portanto, nada mais justo do que um policial militar ser o autor da obra que nos leva a refletir e a debater a questão da segurança pública e o dia a dia de uma classe que divide a opinião da sociedade. E é sob o ponto de vista do jornalista, escritor, compositor, cantor e profissional da reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Sargento Lago, que chega aos leitores Papa Mike: a realidade do policial militar.

Disponibilizada em formato físico e digital, a obra faz uma imersão na rotina da PM (Polícia Militar e Papa Mike, no alfabeto policial e nas comunicações em rádio) e traz depoimentos de policiais de todo o país, reunidos a partir de um projeto pensado pelo autor com o objetivo de mostrar a realidade dos quartéis, a partir de vários contextos. Em entrevista ao Vai Lendo, Lago exaltou a importância de mostrar o lado humano dos policiais, uma vez que, segundo ele, essa é a parte geralmente esquecida por todos os pré-julgamentos. E isso também, de acordo com ele, foi o mais difícil, já que Lago também tinha que reviver todas as suas experiências para desenvolver a obra, inclusive, as mais dolorosas.

Durante toda a minha carreira, sempre tive um foco no lado humano do policial”, afirmou. “Via em meus companheiros as mesmas necessidades que sentia e ninguém intercedendo por nós. Por isso, desenvolvi uma carreira paralela com a música, cantando a rotina policial, tentando com isso valorizar nossos companheiros e, ao mesmo tempo, mostrar para a sociedade esse humano que vestia a farda. Mas a maior dificuldade no livro foi exatamente escrever as minhas memórias. Toda vez que tinha que abordar minhas experiências eu travava. Era como se eu sentisse aquela dor novamente. Então, parava e retomava em outro momento em que estivesse mais forte emocionalmente para visitar a própria memória”.

Como policial aposentado e jornalista, muitas vezes, Lago exerceu duas funções que, hoje em dia, são regularmente vistas com receio pela população. No entanto, ele afirmou que não houve complicações para separar os papéis, visto que ele tinha plena noção de seu dever em ambos os casos. Tanto pela farda que já vestiu quanto pela informação que ele desejava passar para a sociedade no livro. E também não se omitiu ao apontar os erros e imperfeições. A transparência, ele ressaltou, foi fundamental durante o processo para que ele conseguisse obter os depoimentos de seus colegas.

“Acho tranquilo separar os dois papéis”, disse. “Como policial sabia do meu dever. Fiz de tudo para acertar, sempre. E, quando errei, foi tentando acertar. Não foi um erro deliberado. E como jornalista exerço a minha crítica. Sempre fui muito crítico. No livro não poupo críticas à policia porque sempre critiquei. Por conhecer na intimidade, sei das suas limitações e critico para que haja uma melhora, pois todos ganharão com isso: sociedade e policiais. Foi uma relação transparente (com os colegas entrevistados). Me apresentei e disse o que pretendia fazer. Em razão de também ser um policial conquistei a confiança deles, o que facilitou obter muitas confidências e desabafos. Por outro lado, sempre lembrava que era também um jornalista e que me interessava saber exatamente sobre os assuntos que sei serem tabus, ou que os comentários públicos são evitados, em razão do rígido regulamento disciplinar que rege as corporações. Alguns concordaram, desde que fosse preservada a sua identidade, e outros, em tom de desabafo, não fizeram questão do anonimato”.

Cada Papa Mike
Capa do livro ‘Papa Mike: a realidade do policial militar’ / Divulgação

Após trabalhar em cima do projeto por dois anos – com tantas informações valiosas em vídeos que, logo, se fez necessário passá-las para as páginas -, Lago nos apresenta uma obra que aborda a desigualdade social-  que, por mais que as pessoas esqueçam, afeta e muito boa parte dos policiais -, as batalhas enfrentadas por eles dentro de seus medos, insegurança, receios e dificuldades, além de enfrentarem diariamente os julgamentos sociais. Contudo, o autor também não deixa de apontar as melhorias a serem feitas para ajudar não apenas os profissionais a terem mais dignidade em suas funções, mas também a sociedade como um todo. Assim, ele indica ainda as particulares das PM em todo o país, com peculiaridades que geralmente passam despercebidas aos nossos olhos. Para ele, isso acontece pelo fato de todos enfrentarem problemas semelhantes em suas rotinas e quartéis, o que consequentemente limita a percepção do “material humano”.

“No sertão nordestino, você encontra um policial mais rude”, explicou. “Os treinamentos que ele recebe são muito pesados, chega a parecer castigo físico, mas é adequado para a cultura da qual ele está inserido. E, quando ele interage com a sociedade, vai deparar-se com pessoas que lhe darão o mesmo tratamento. Cheguei a ouvir de um policial de Alagoas: ‘em São Paulo, vocês são muito educadinhos (disse porque acompanhava um programa de TV que mostrava a rotina do policiamento em SP). Se fizerem isso aqui, o ladrão bate na cara de vocês’. No Sul, numa manifestação de ‘sem terras’, ouvi um policial dizer para um manifestante: ‘acredite no que digo, sou um gaúcho como você’. E o manifestante aceitou a condição que ele sugeriu”.

Mesmo tocando num assunto tão delicado e correndo o risco de ir contra a opinião pública, Lago garantiu que o livro supre a curiosidade e atende a qualquer público, seja o cidadão comum ou o policial. Contudo, o escritor reiterou que não espera que esses questionamentos sobre a policia sejam o principal atrativo para a leitura, visto que a obra é bem mais profunda e abrangente, e muito menos se mostrou preocupado com qualquer tipo de censura ou obstáculo.

“A conduta da polícia sempre foi questionada”, apontou. “Ainda que, neste momento, os questionamentos sejam mais frequentes. Mas também não me agrada imaginar que isso possa ser um atrativo para a leitura do livro. Entendo que, em razão das ações da polícia (boas ou más) interferirem diretamente no cotidiano das pessoas, conhecer o conteúdo do livro vai contribuir para que o leitor saiba o que de fato ocorre na rotina desses profissionais para daí fazer seus questionamentos com mais propriedade. O livro atende aos policiais e ao público em geral. Trato de questões intra muros, como promoções, regulamento disciplinar, assédio moral, desvio de conduta e também questões sobre homossexualidade, fetiches com a farda, violência policial, entre outros assuntos, apresentando ao policial questões que ele tem que começar a debater para ver os seus direitos respeitados. Aos cidadãos, apresento uma polícia na intimidade, o que vai lhe possibilitar entender um pouco do sentimento daquele policial que ele vê na padaria tomando um cafezinho ou o que está incursionando uma comunidade com o fuzil na mão”.

Sobre o momento atual pelo qual o país e sua classe passam, Lago foi bastante objetivo ao declarar que a solução precisa ser pensada para o bem de todos e que a maior conquista de um policial atualmente é a sua própria sobrevivência.

“Temos que buscar uma solução para a sociedade”, indicou. “Vivemos numa época de crise moral. As notícias nos dão conta de um país apodrecido pela corrupção. Todos estamos sofrendo. O trabalho da polícia nunca vai acabar. Compete-lhe a dura missão de entrar numa guerra diariamente em que não haverá vencedores nem vencidos. Parece-me que o maior desafio do policial, neste momento, é manter-se vivo”.

Para saber mais sobre o livro e adquirir um exemplar acesse: www.sargentolago.com.br

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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