Entrevista: Jorge Reis-Sá

No lançamento de seu novo livro, ‘A Definição do Amor’, o escritor português Jorge Reis-Sá conversou com o Vai Lendo sobre memórias, amor, morte, prosa e poesia

A sensibilidade de quem sabe transpor nas palavras os sentimentos e angústias mais profundas do ser humano. Aquele que não se omite para falar da morte, mas sim torná-la uma complemento ao amor. Que transforma as memórias do passado em acontecimentos futuros. Assim podemos definir a obra e a essência do escritor português Jorge Reis-Sá, que lançou na última terça-feira (21) o seu novo livro, A Definição do Amor, publicado aqui no Brasil pela editora Tordesilhas, na Livraria Travessa de Ipanema. Com a presença de imortais da Academia Brasileira de Letras, o autor se juntou aos poetas Alice Sant’Anna, Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz para uma leitura de trechos da obra e debate, durante o evento.

Jorge Reis-Sá com Alice Sant'Anna, Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz fazem leitura durante o lançamento de 'A Definição do Amor'/Foto: Vai Lendo
Jorge Reis-Sá com Alice Sant’Anna, Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz fazem leitura durante o lançamento de ‘A Definição do Amor’/Foto: Vai Lendo

Em A Definição do Amor, Reis-Sá trabalha o conceito das memórias para construir uma narrativa quase poética que lida com o amor e a morte de maneira muito próxima, ao apresentar a trajetória de Francisco, que começa um diário de luto por causa de sua mulher, Susana, que sofre um AVC. Na trama, quando os médicos atestam a morte cerebral da esposa, ao mesmo tempo, descobrem também que ela está grávida, e eles decidem não interromper a gestação. Durante a gravidez, Francisco recorda os principais momentos de sua vida, desde a infância, até a chegada do primeiro filho. Para o escritor, a morte e o amor são temas interligados.

“Basicamente, só há dois temas na literatura: o amor e a morte”, declarou ele em entrevista ao Vai Lendo. “Todos os outros pequenos temas caem nesses maiores. O que eu tentei fazer foi abordar os dois ao mesmo tempo, porque não vejo um sem o outro. São coisas muito semelhantes para mim. Então, a inspiração para esse livro veio da ideia de trabalhar esses dois temas da forma que eu mais gosto e falar principalmente da questão da perda, porque, para mim, é a que une melhor os dois assuntos. Porque nós só percebemos que amamos quando perdemos, e a morte é a última perda possível. Foi a partir daí que eu quis trabalhar”.

Para o autor, que já havia trabalhado com essa estrutura narrativa de memórias em seu primeiro romance, Todos os Dias, o passado é capaz de criar uma ficção, justamente porque, segundo ele, cada lembrança é diferente para uma pessoa e até mesmo para quem viveu determinada situação, com o passar do tempo. E é por isso que a memória é uma grande fonte de inspiração para se desenvolver uma história.

“Eu sempre me senti um pouco velho (risos), então, talvez, seja por isso que eu goste de trabalhar com as memórias”,explicou. “A memória é uma enorme ficção, é uma construção mental que você trabalha e vai criando. Porque chega uma hora que você não sabe mesmo o que aconteceu no passado e o que foi inventado por você. Eu gosto da ideia de poder construir o passado, como se ele fosse o futuro. Mas o passado não é algo que aconteceu, a princípio. Como não sabemos efetivamente o que aconteceu, porque já não lembramos direito, estamos falando de memórias diferentes e iguais. Esta noção de uma construção da memória do ponto de vista da não ficção e também da ficção nos permite fazer essas grandes construções humanas”.

Foto: Divulgação/Tordesilhas
Foto: Divulgação/Tordesilhas

Outro ponto interessante da obra de Reis-Sá é sua estrutura narrativa diferenciada, que não segue o “padrão comum” de pontuação que estamos acostumados, por exemplo. O escritor, que também é poeta, destacou a principal diferença entre prosa e poesia- que, para ele, não está relacionada à questão da linguagem em si – e ressaltou que seu estilo tem como objetivo oferecer ao leitor exatamente o tipo de experiência que ele desejou passar em seu texto.

“Eu me dou melhor com textos curtos, é a maneira que gosto de escrever”, afirmou. “As histórias estão todas contadas. Eu posso contar uma história relativamente nova, mas a única maneira que eu tenho de inovar verdadeiramente é se a forma como eu conto for um pouco diferente. Então, eu tenho uma grande preocupação ao tentar escrever, de maneira que faça com que os leitores sintam o que eu quero que eles sintam. Esse é o meu grande objetivo. Seja para chorar ou para rir. Eu gosto que o complemento direto seja uma parte integrante do complemento indireto. Eu gosto que não haja uma quebra de dois pontos e travessão. Eu acho que isso corta a respiração do texto. E a grande diferença é que prosa tem de estar a certa altura indexada a uma história. Porque, na verdade, não há uma diferença muito grande do ponto de vista de linguagem literária, em minha opinião. A minha poesia é muito discursiva e minha prosa é muito poética. Neste livro, você pode ter um trecho do diário que é um poema, mas ele foi escrito em outras partes do romance. Ao fazer isso, você contamina o que pode ser um poema com o resto da narrativa, o que não acontece com a poesia”.

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Bem recebido pela crítica, Jorge Reis-Sá se disse um grande admirador da literatura brasileira e, tendo em vista o carinho de representantes renomados do nosso país na área em seu lançamento, a recíproca é mais do que verdadeira. O escritor exaltou a boa recepção entre os leitores do Brasil, principalmente por ser um autor estrangeiro.

“A grande diferença entre o lançamento dos dois livros é o fato de eu sentir que tenho mais amigos no Brasil agora, e isso é uma felicidade enorme”, apontou. “É um reconhecimento afetuoso. Em 10 anos, aquilo que eu mais consegui nesse país que gosto tanto é ter mais amigos, mais pessoas que gostam de mim e do meu trabalho e que me dão a honra de estar presentes num momento tão especial”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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