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Entrevista: Maria Clara Mattos

03 maio, 2016 por

O Vai Lendo conversou com Maria Clara Mattos sobre o seu novo romance, ‘Depois da Chuva’, publicado pela editora Gutenberg, suas inspirações e principalmente sobre o amor

Maria Clara Mattos/Foto: Divulgação Editora Gutenberg

Maria Clara Mattos/Foto: Divulgação Editora Gutenberg

A arte que corre nas veias. Nos gestos, nas palavras e nas páginas. Maria Clara Mattos é uma artista natural. A roteirista, escritora, tradutora e atriz nasceu para fazer da arte a sua vida, em todos os sentidos. E da escrita vem a sua paixão, intensidade e o amor pelas pessoas. Todas, sem exceção. E é justamente nelas que ela encontra a inspiração para escrever. Tanto que seu novo romance, Depois da Chuva, publicado pela editora Gutenberg, é uma junção do que ela mais gosta: o processo da escrita e sua eterna curiosidade sobre o ser humano. Em entrevista ao Vai Lendo, Maria Clara falou sobre criatividade, o papel do escritor e as diferenças entre os seus trabalhos nas mais diversas áreas artísticas.

Depois da Chuva é o segundo livro da autora – que integrou a equipe de redatores dos programas Tapas e Beijos, na Rede Globo; Quase anônimos, Cilada e Alucinadas, no Multishow; As Canalhas, no GNT; e Nem vem que não tem, na Fox -, sucedendo sua obra de estreia, o romance policial O Céu Pode Esperar Mais Um Pouquinho, lançado pela editora Dublinense e finalista do Prêmio Açorianos de Literatura 2013, na categoria Narrativa Longa. Porém, de acordo com Maria Clara, a história de Depois da Chuva, na verdade, é anterior à de seu primeiro romance e surgiu de um roteiro de longa-metragem criado para um curso que fez em Los Angeles, em 2005. Em comum, assim como todas as suas obras, ela afirmou, ambas falam sobre o amor, tema pelo qual a autora é literalmente apaixonada.

“Eu tinha que escrever um longa-metragem e assim nasceram Laura e Edgar, que, na versão em inglês, se chamava Archer”, explicou. “Laura sempre foi Laura. Eu queria falar da relação do autor com o seu universo, suas musas, queria falar do livro em si, daquele troço de papel, cheio de palavras ‘datilografadas’. Gosto do manuscrito impresso, gosto das palavras rabiscadas na revisão, gosto do ato de ler – gosto desde muito pequena – e gosto demais do processo da escrita. Juntei isso tudo com uma outra curiosidade eterna minha: as pessoas. As pessoas que eu conheço, que nunca vi, que só vi uma vez, as que passam por mim sem deixar marca, as que deixam. Sou apaixonada por esse mar de gente que vemos todos os dias na rua, no trânsito, no cinema, no trabalho, no banco, na feira, na padaria. São tantas vidas, tantos mundos, tantos ‘eus’. Fora isso, minhas histórias sempre – sempre! – serão de amor, de um jeito ou de outro. Meu policial é uma história de amor. O próximo livro é uma história de amor. Sou doentemente apaixonada pelo amor”.

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Logo no início de Depois da Chuva, Maria Clara nos questiona – e faz refletir – sobre o papel do escritor e a sua relação com as pessoas. O quão profunda é a capacidade de um autor de realmente desvendar a alma de seus leitores? De captar nossos sentimentos e anseios? Para ela, os livros e seus respectivos autores conseguem não apenas estreitar esses laços, mas também e principalmente mudar a vida das pessoas e fazê-las se autoconhecerem, de várias maneiras. Como aconteceu com ela mesma.

“Aconteceu uma história muito louca, logo depois que acabei de escrever o roteiro de Depois da Chuva, muito antes do livro”, afirmou. “Eu estava solitária, abandonada, arrasada porque Archer e Laura não moravam mais comigo. Comprei uma edição especial de DVD ( é, sou do tempo do DVD…) de Taxi Driver (clássico dos anos 70 dirigido por Martin Scorsese). Nos extras tinha uma entrevista com o Paul Schrader, roteirista, em que ele contava que, depois do lançamento do filme recebeu a visita de um cara revoltado querendo saber quem tinha contado sua história para ele. ‘I wanna know how you found out about me. Who told you about me?’ (Eu quero saber como você me descobriu. Quem lhe falou sobre mim?, em tradução livre). O cara queria saber. Achei muito doido estar vendo e ouvindo aquilo naquele momento e pensei que talvez fosse mesmo possível alguém ‘roubar a alma de alguém’ que não conhece, como eu vinha me perguntando. A Literatura já mudou a minha vida muitas vezes, alguns livros formaram o meu caráter, outros o meu gosto, outros ainda a minha maneira de ler. Edgar Allan Poe me fez querer escrever; por causa de Mazo de La Roche e sua saga de Jalna eu quis ler até explodir, quando tinha uns dez, onze anos; Goethe e Os Sofrimentos do Jovem Werther me fizeram encontrar o amor; A Montanha Mágica, de Thomas Mann, me fez entender a minha própria melancolia, aos dezesseis; O Nome da Rosa, aos quinze, me acalmou a sede de conhecer coisas muito distantes de mim,; tudo do Monteiro Lobato me fez ter certeza de que eu queria viver dentro da ficção o maior tempo possível; Balzac irmanou a minha maneira de ler as segundas intenções das pessoas; João Cabral me iluminou a crueza das coisas – e das palavras; Ian McEwan me dá vontade de continuar existindo só para ler o que ele escreve; Will Self me lembra que tudo pode ser de outro jeito; Dostoievski é aquele soco de exatidão eterno… Como viver sem ler?”.

'O Céu Pode Esperar Mais Um Pouquinho', primeiro livro de Maria Clara Mattos/Foto: Facebook da autora

‘O Céu Pode Esperar Mais Um Pouquinho’, primeiro livro de Maria Clara Mattos/Foto: Facebook da autora

E, se Maria Clara é regida pelo amor, com certeza, o mesmo pode se dizer sobre Depois da Chuva. E é isso o que ela espera passar para os leitores e receber também em troca, uma vez que, segundo ela, o livro “foi só felicidade”.

“Eu quero muito que as pessoas leiam esse livro!”, declarou. “Sou totalmente apaixonada pela história, pela Laura, pelo Edgar. Queria que esse pedaço meu se espalhasse por aí como se não houvesse amanhã. Uma amiga me ligou um dia aos prantos, esparramando frases cortadas; eu fui ficando preocupada, achando que estava acontecendo alguma coisa com ela. Foi então que entendi: ela estava no meio do salão, às lágrimas, depois de terminar o livro, enquanto pintava o cabelo. Eu senti uma emoção tão profunda, mas tão profunda! Foi um dos momentos memoráveis da minha vida. Porque eu terminei de escrever aos prantos. Chorei para me despedir daquela gente do livro, chorei porque meu dia seguinte ia ser sem eles, chorei porque, por mim, viveria ali dentro para sempre. Então, quando ela me ligou naquele estado, pensei: consegui, entreguei tudo. Todo o processo do Depois da Chuva foi sensacional. A escrita foi deliciosa, a edição foi um primor de cuidado – com o texto, com as cores, com a capa, uma delicadeza que casou demais de bem com o que está nas páginas. Posso dizer que esse livro é só felicidade”.

Além das suas influências de vida, Maria Clara também absorve inspiração de duas das maiores autoras de romance da atualidade: Nora Roberts e Marian Keyes, cujas obras são traduzidas por ela. Para a escritora, todos os autores acabam virando fonte de suas criações, já que ler é seu prazer mais querido – ainda que tenha exercido a profissão de atriz por muitos anos. Com a tradução, Maria Clara ressaltou, ela é capaz também de ser uma versão do autor em português, sempre um personagem. E, com as obras de Nora e Marian, ela exaltou principalmente a possibilidade de “estar na pele de quem se comunica com tantos leitores de todo o mundo” e aprender com elas “alguma coisa dessa universalidade, dessa voz potente que se espalha por aí”.

“A tradução é como tocar – interpretar – uma partitura”, apontou. “Você tem que seguir as notas, mas precisa imprimir a sua melodia junto. Não pode ser você mesma, mas não pode deixar de ser, porque a língua traduz muito mais do que as palavras, a língua traduz ritmo, cheiro, tato. Não dá para simplesmente trocar water por água. Tem que transpor o contexto, tem que pensar que a gíria daqui tem o mesmo calor da gíria de lá, tudo isso sem desfigurar a fonte, sem desembalar o original e, ao mesmo tempo, tentando dar a textura possível no nosso idioma. É um trabalho artesanal. Interpretar é incrível, mas compor é espetacular. Se eu pudesse, escreveria livros sem parar”.

Foto: Facebook da autora

Foto: Facebook da autora

E, com tantos talentos, como ela consegue conciliar essas funções diversas? De maneira que todas sejam complementares e possam agregar ainda mais sensibilidade e leveza à sua essência, resultando numa satisfação tanto pessoal quanto profissional plena.

“Acho que a roteirista empresta muita imagem para a escritora e a atriz, muita velocidade nos diálogos para a roteirista”, indicou. “Acho que, finalmente, minhas personalidades se encontraram para um café – ou um drink. Acho que, agora, somos todas uma só. Finalmente”.

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